
Palestra motivacional, botão de rosa ou aquele chocolatinho. Em algum momento, as empresas parecem ter feito um acordo coletivo de que esses eram os melhores reconhecimentos para as funcionárias no Dia Internacional da Mulher.
Nada contra, até tenho amigas que gostam. Mas, assim, o legal mesmo seria a gente aproveitar a data para celebrar conquistas reais alcançadas dentro das organizações.
Felizmente, o mundo anda para frente e, ainda que lentamente, cresce nas empresas a consciência de que não adianta dar flores às colaboradoras se na hora de contratar e promover elas não têm muito espaço.
Dentro do Movimento AB Diversidade, da Automotive Business, pesquiso esse tema há oito anos no setor automotivo e da mobilidade, ao lado da Paula Braga, CEO da AB, e da Tania Macriani, que lidera a MHD Consultoria. Nesse tempo, há um claro aumento no comprometimento das companhias em corrigir desigualdades.
Muito discurso, pouca prática
Mas nem tudo são flores (ao contrário do que indica a lembrancinha favorita das empresas no Dia da Mulher). Muitas organizações ainda falam mais do que fazem. Em outras, o esforço é grande, mas os resultados chegam devagar.
No fundo, o debate sobre como garantir equidade de oportunidades aos talentos femininos é um tema que está longe de ser resolvido e, portanto, ainda demanda esforço de todos nós.
Para contribuir com esse debate, elenco cinco presentes que gostaria que as mulheres do setor automotivo ganhassem.
1- Oportunidades igualitárias
Há quem ainda defenda que as empresas funcionam de forma meritocrática. Lembro aqui que essa é uma das declarações mais sexistas e racistas possíveis.
Afinal, se a contratação e a ascensão acontecem por mérito e vemos uma maioria masculina e branca no setor automotivo e entre as lideranças, quer dizer que mulheres e pessoas pretas (que são mais da metade da população brasileira, vale lembrar) não têm méritos para ocupar esses espaços?
É muito mais lógico e real admitir que, na verdade, preconceitos inconscientes ainda guiam muitas das nossas decisões sobre contratar e promover pessoas. No setor automotivo, as mulheres são só 21% do quadro total de colaboradores. A informação é da edição 2023 da pesquisa Diversidade no Setor Automotivo – que este ano ganhará atualização.
A verdade é que o número não teve evolução significativa desde que começamos o estudo, em 2017. Naquela época, elas tinham essa mesma participação no segmento.
As chances de crescimento das mulheres que trabalham nesse ecossistema também são questionáveis. Apenas 23% das cadeiras de gerência são ocupadas de mulheres. Nas posições de diretoria, elas também são só 23%.
2- Equidade salarial
Falar sobre salário é sempre tabu. Se muitas vezes casais não falam sobre os próprios rendimentos entre si, imagine quanto o tema não é tratado dentro das empresas. Talvez, por isso, as mulheres sigam com remunerações mais baixas do que os homens em funções equivalentes.
Nossa pesquisa mostra que a média salarial delas é 6,1% inferior à dos homens. Na liderança, esse desbalanço aumenta, com elas ganhando 9,5% menos do que eles. Em 27% das empresas, mulheres têm remuneração mais baixa.
Apesar de pouco animadores, a verdade é que esses números melhoram com o tempo. Na pesquisa de 2021, por exemplo, a média salarial feminina era 15,1% menor.
Para encurtar essa distância de vez, as empresas precisam arregaçar as mangas e encarar o problema, tomar consciência de que muitas contratações já vêm com desigualdades do mercado, dos salários anteriores, e que homens, muitas vezes, são mais confiantes e conseguem fazer negociações mais vantajosas para eles.
3- Políticas de acolhimento à maternidade
O mundo do trabalho se inspirou muito da lógica militar: hierárquica, rígida e, claro, masculina. Hoje, no entanto, essa dinâmica sequer é eficiente. Prova disso é a dificuldade para acolher a maternidade que persiste em muitas empresas.
Ainda é pequena a parcela de empresas do setor automotivo que oferecem licença parental estendida. Mais difícil ainda é encontrar organizações que investem em políticas para acolher a maternidade e a paternidade, como creche e até uma cultura mais inclusiva às necessidades de pais e mães.
Talvez por isso as mulheres sejam menos longevas no setor automotivo. Segundo a nossa pesquisa, elas ficam, em média, cinco anos nas empresas do segmento, enquanto os homens permanecem por 15 anos.
Como em boa parte das famílias são as mulheres que absorvem a maior parte do cuidado dos filhos, provavelmente não encontrem na indústria um espaço que permita a elas combinar essa necessidade com a vida profissional.
4- Interesse masculino no tema
Se existe algo frequente quando falamos de diversidade e inclusão é a famigerada pregação para convertidos. Há uma infinidade de debates sobre o assunto, palestras sobre a relevância da equidade de gênero, ações de engajamento que, bem, só contam com a participação de mulheres.
E esse é o caminho mais eficiente para a falta de solução. Vale lembrar que o preço é alto – e coletivo. Empresas menos plurais são também menos inovadoras e lucrativas, mostram pesquisas. Mas, acima de tudo, nos prejudicamos como indivíduos e sociedade. O engajamento masculino na pauta seria mais do que bem-vindo nesse caso.
5- Mais referências femininas
Quem são as grandes mulheres do setor automotivo no Brasil? Conheço muitas, que me inspiram em diversos âmbitos. Mas, quando falamos de forma mais ampla, vemos muito mais homens no topo, como porta-vozes das organizações, com holofotes sobre eles.
É, no mínimo, estratégico, garantir mais equidade nesse aspecto. Afinal, para atrair mais profissionais femininos e inspirar jovens talentos nas empresas, essas pessoas precisam se enxergar lá dentro. Quando se trata de diversidade, a prática fala muito mais alto do que o discurso.
E você, o que gostaria de ganhar de Dia da Mulher?
