
A adoção de novos designs e tecnologias em veículos vai além da estética e da modernidade, trazendo alertas para a segurança veicular. As maçanetas eletrônicas, por exemplo, foram alvo de proibição na China após o recall de 4,3 milhões de veículos de onze montadoras no país, devido à dificuldade de acionamento em situações de resgate.
Agora, os órgãos fiscalizadores chineses também estão de olho nas telas multimídia. Segundo o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China, tem sido avaliada a possibilidade de proibição de veículos com telas “muito grandes”. Essa nova fiscalização surge com a justificativa de que as telas podem ser consideradas distrativas e inseguras para os condutores.
Apesar dessa discussão acontecer na China, o tema também se reflete no mercado brasileiro, que recebe modelos equipados com essas tecnologias, acendendo novos alertas.
O vice-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Everton Lopes, explica que existe uma importância para a implementação de maçanetas retráteis, que trazem benefícios aerodinâmicos.
“Tem uma evolução importante acontecendo, e as maçanetas eletrônicas têm uma motivação importante: a maçaneta nivelada com a carroceria reduz as saliências do veículo e contribui bastante para a questão aerodinâmica, então vem um benefício até no consumo energético do veículo”, contou Lopes.
Além desses ganhos, em termos estéticos as maçanetas retráteis favorecem uma superfície mais limpa e minimalista. Por outro lado, a dificuldade de acionamento pode ser uma barreira em situações de acidente ou emergência.
“Em um veículo cada vez mais digital e automático, o desafio é que uma função que era muito simples, que era puxar a alavanca e abrir a porta, agora depende de uma série de componentes, sensores e controladores. No fundo, se tem uma falha de alimentação elétrica, você não abre a porta e numa colisão que danifica cabos, tem uma dificuldade de abrir para equipes de resgate acessarem o interior do veículo”, contou o representante da AEA.
Ele também chama a atenção para a durabilidade das maçanetas, que podem ser mais suscetíveis a falhar em contato com água, poeira, lama ou corrosão, especialmente em vias sem pavimentação.
A solução para esses problemas, disse Lopes, está em métodos alternativos que possam funcionar sem a necessidade de energia elétrica, com acionamentos manuais de fácil identificação.
“A evolução da segurança seria colocar alternativas de liberação mecânica independente: um comando manual muito claramente identificado ou até mesmo um sistema de destravamento automático após colisão, como fazer um rebaixamento automático dos vidros nesses casos, tudo isso ajuda a criar mecanismos que possam trazer no benefício a questão de segurança”, explicou o especialista.
“Precisamos de mais segurança viária”
O vice-presidente da AEA considera que o Brasil registrou um grande avanço em segurança veicular nos últimos anos. Como exemplo, ele lembra que há cerca de 15 anos, o airbag ainda não era obrigatório nos veículos. Apesar da evolução, alguns dos obstáculos para um avanço ainda maior em segurança são a frota antiga presente no país e vias sem condições adequadas de tráfego.
“Nossa frota ainda é velha, ou seja, temos carros novos que têm tecnologia embarcada e carros antigos sem essa tecnologia. Esses veículos participando do mesmo ambiente muitas vezes é um risco. A gente imagina o veículo que faz a frenagem automática e, diante de um risco de colisão, o outro veículo não tem sensor nenhum. Mas é uma coisa que faz parte dessa transição tecnológica e em algum momento, todos os veículos no Brasil vão ter um nível tecnológico embarcado”, disse.
A maior barreira, porém, continua sendo a segurança viária. Lopes explica que sistemas de assistência ao motorista dependem de uma infraestrutura adequada, como sinalização nas rodovias. “O que falta para nós é a segurança viária. Nós falamos de sistemas ADAS e sistemas de automação de direção que precisam minimamente de faixa na rodovia para poder se nortear, mas nós temos rodovias que não têm faixa, por exemplo”, citou.
Lopes também defende que é necessária uma evolução na infraestrutura viária que permita que os condutores utilizem totalmente a tecnologia embarcada no veículo. “Se não tem a forma de utilizar plenamente aquela tecnologia, a gente acaba jogando recursos fora”, completou.
