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#ABX26

#ABX26 – Faro Fino: os segredos por trás do “cheiro de carro novo”

Por que somos tão fascinados por esse odor ao ponto de ele influenciar nossa decisão de compra?

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Cristiane Batista

01 out 2026

4 minutos de leitura

De onde vem o famoso “cheiro de carro novo”? Para desvendar os mistérios que tornam a experiência a bordo de um veículo tão especial, conversamos com Lourdes Feitosa, química, especialista em avaliação sensorial automotiva e primeira osmóloga veicular do Brasil, que esteve presente na Arena do Movimento AB Diversidade no #ABX26.

A paixão que veio pelo nariz

A trajetória de Lourdes Feitosa na indústria automotiva parece ter sido desenhada desde o berço: seu avô, imigrante italiano, teve na Ford o seu primeiro emprego no Brasil, e seu pai atuou como editor-chefe da revista Autoesporte nos anos 1970. Nascida em meio a esse legado, ela resume sua vocação com bom humor: “No meu DNA, o ‘A’ é de automóvel. Meu avô veio da Itália para o Brasil e seu primeiro trabalho foi na Ford. Meu pai, nos anos 1970, foi editor-chefe da revista Autoesporte. A paixão pelos carros me pegou pelo nariz”, conta ela.

Com décadas de dedicação ao setor, Lourdes teve o olfato rigorosamente calibrado e aferido pela Volkswagen na Alemanha. Sua missão histórica na marca — que ganhou destaque na imprensa, como na matéria do jornal O Estado de S. Paulo, em 1998, sob o título “Nariz detetive de Lourdes vale ouro na Volks” — foi analisar peça por peça, garantindo que nenhum odor desagradável ou prejudicial chegasse ao consumidor.

A ciência dos odores e a interação na ABX26

Ao contrário do que muitos pensam, o cheiro de um carro recém-saído da concessionária não é um perfume adicionado artificialmente. Trata-se da desgaseificação: uma combinação de compostos orgânicos voláteis (COVs) liberados por plásticos, borrachas, espumas, colas e revestimentos que compõem o acabamento interno.

Durante sua palestra no Café Mulheres Automotivas do #ABX26, Lourdes levou a teoria para a prática e promoveu uma demonstração interativa ao vivo. O público presente participou ativamente da experiência, acompanhando de perto como diferentes componentes reagem à queima e os cheiros que exalam:

  • Polipropileno: utilizado em revestimentos de portas, colunas e para-choques, exibe uma chama azulada com ponta amarela e um aroma parafínico, que remete à “vela limpa”.
  • Poliamida: presente em peças plásticas do motor e tubulações de combustível, queima com aroma característico de cabelo queimado.
  • ABS (Acrilonitrila Butadieno Estireno): polímero termoplástico comum em peças automotivas que libera fumaça preta e espessa, gerando forte odor de plástico e pneu queimado que irrita os olhos, o nariz e a garganta.

Enquanto na Europa os consumidores priorizam veículos inodoros, no Brasil o cenário é outro. Para o público nacional, ninguém dispensa esse plus: “Aqui, o tal ‘cheiro de carro novo’ é ligado a status, a poder”, diz Lourdes.

Por que o olfato é tão poderoso?

Diferente da visão, da audição ou do paladar, o olfato não tem barreira física, como a córnea ou a pele, que filtram sensações primárias. Quando inspiramos, as moléculas entram em contato direto com os cílios olfativos na cavidade nasal, captam as sensações e as transmitem diretamente ao centro das emoções e memórias no cérebro.

Essa conexão instantânea explica o forte apelo comercial. Estudos da agência Point of Purchase Advertising International apontam que aromas agradáveis podem aumentar em até 20% as vendas de uma loja, criando uma conexão emocional profunda com os produtos.

O trabalho de uma osmóloga

A rotina de Lourdes Feitosa une rigor técnico e sensibilidade. Ela realiza o processo em duas etapas: inicialmente, cheira de forma isolada os materiais que chegam dos fornecedores — à temperatura ambiente e depois de aquecidos em estufa. Mas é no pátio da montadora, de prancheta em punho e fungando o conjunto da obra — o carro pronto —, que ela mostra todo o seu talento para neutralizar incômodos e transformá-los em conforto a bordo.

Para os puristas da linguagem, ela deixa o alerta: “O certo é odor, o que você inspira, já o aroma mistura-se com o paladar”. Graças ao olfato apurado de pioneiras como Lourdes, a osmologia — a ciência que estuda os odores — continua garantindo que entrar em um zero-quilômetro seja uma experiência inesquecível.