
O cenário econômico de juros altos impacta diretamente a decisão por investir na aquisição ou locação de veículos pesados. Este foi o tema abordado na Trilha Gestão de Frotas, com o painel “Aluguel de caminhões: menos posse, mais uso”, durante o #ABX25 – Automotive Business Experience.
A discussão sobre a escalada da taxa Selic, em 15%, e sua influência no mercado de caminhões revela uma tendência clara no Brasil: a locação se consolida como uma alternativa economicamente atraente frente à aquisição.
Para Gustavo Couto, CEO da Vamos, a alta taxa de juros impacta a economia e comprime investimentos, colocando empresas em dúvida na hora de tomar decisões. Contudo, ele defende que a locação é uma alternativa mais vantajosa do que a compra.
Embora o custo de alugar também suba quando o custo de comprar aumenta, a locação permite realizar uma renovação da frota com uma menor alocação de capital e de maneira mais econômica.
“Temos crescido independente do aspecto macroeconômico. Obviamente preferimos quando os juros estão baixos, é melhor para a economia como um todo, mas o fato é que conseguimos desenvolver um modelo que é incipiente no País. Menos de 3% do mercado é alugado. Vemos bastante espaço para esse desenvolvimento independente do ciclo econômico”, afirmou Couto.
Essa percepção é corroborada por Milad Kalume Neto, consultor da K.Lume, que destacou as forças do mercado que levam à escolha pela assinatura.
Segundo ele, em um cenário de juros altos, a escolha do empresário normalmente pende para uma questão de assinatura (locação) em vez da aquisição de um veículo pesado. Ele ressalta que essa decisão é sempre feita com uma análise “na ponta final do lápis, buscando a maior atratividade para o bolso do empresário”.
Já Fabio Roberto Leite, CEO da Addiante, observa que historicamente, em anos de crédito escasso, a locação sempre avançou um pouco mais rápido. Ele cita que em 2019, apenas 5% do que era produzido no mercado de caminhões era vendido para locadoras. Atualmente, esse percentual subiu para 14%.
Locação complementa a compra
O setor de aluguel consegue crescer mesmo quando há uma retração no mercado de vendas. “A locação é uma solução que veio para ficar, e não é uma questão de escolha. Ela é complementar à compra. O cliente tem diversificado seu portfólio de investimentos, utilizando tanto a compra quanto a locação (e até o consórcio). Essa diversificação abre espaço para que as locadoras auxiliem o cliente na renovação de frota”, explica Leite.
Portanto, a alta taxa de juros é vista como um catalisador que torna a locação de caminhões, com seus benefícios de menor desembolso de capital e foco no core business, uma opção ainda mais vantajosa e de rápida expansão para o transportador brasileiro.
Locação é para pequenas e grandes empresas
A locação se encaixa em diferentes portes de clientes, desde os grandes frotistas até as pequenas empresas e é vista por Couto como uma transformação impulsionada pela lógica financeira.
“Meu pai nunca alugaria um caminhão e meu filho nunca vai comprar um”, contou o CEO da Vamos para ilustrar a mudança de mentalidade.
Ele aposta que qualquer empresa que fizer as contas e pagar imposto será seu cliente. “Do ponto de vista econômico, vale a pena alugar, sim. Como presidente da Vamos há seis anos e meio, eu não perdi nenhuma aposta ao convencer clientes a fazerem as contas”, brinca.
Ele observa que grande parte da frota brasileira foi construída por frotistas que eram patrimonialistas e começaram dirigindo o próprio caminhão. No entanto, a profissionalização das empresas impulsionou um processo natural: a busca por eficiência na alocação de capital e foco no core business e faz com que naturalmente as empresas escolham o modelo mais eficiente, seja híbrida ou integral.
O processo de aluguel de veículos pesados mudou drasticamente, observa Kalume. “Antigamente, a locação de caminhões era uma questão simples de entregar o veículo, sem cativar o cliente. Atualmente, a preocupação com o cliente se tornou contundente nos setores leve e pesado. O mercado de pesados, que tinha menos atenção, agora tem uma representatividade muito forte.”
Locação agreaga valor ao serviço do cliente
Hoje, a locação não é mais vista como apenas a entrega de um caminhão, mas sim a oferta de um valor agregado em serviços das mais diversas formas. E não apenas com os gestores de frota, mas um ecossistema inteiro que fomenta o modelo de assinatura. “Essa mudança é considerada muito válida, pois desloca a assinatura para um gestor, dando valor a toda a cadeia envolvida, até o motorista”, completa Kalume.
No caso dos pequenos frotistas, o benefício é ainda maior. Couto observa que o dono de uma padaria ou farmácia não tem uma equipe especializada em gestão de frota. A locação, neste caso, traz mais eficiência, economia e disponibilidade, podendo até reduzir a necessidade de veículos.
Leite reforça que o pequeno empresário não necessariamente está atento às melhores tecnologias. “As locadoras, através da venda consultiva, fornecem a expertise e os dados que o pequeno frotista não consegue gerar, realizando o orçamento, o desenho econômico e de frota.”
Couto ressalta que as locadoras assumem a responsabilidade por toda a atividade burocrática e operacional associada à frota, como IPVA, licenciamento, multas e sinistros, devolvendo o pacote pronto para os clientes.
Outros serviços mencionados pelo CEO da Addiante são a oferta de torre de controle, auxílio na gestão e produtividade, e ajuda no desenho de como cuidar do motorista, incluindo uma reciclagem para que ele se familiarize com os caminhões modernos.
A Vamos, por sua vez, lançou um modelo de negócio o qual adquire 100% da frota dos clientes, o que permite um turn-around total da frota, além da migração gradual.
“Essa aquisição total ou parcial da frota antiga do cliente, também chamada de sale-leaseback, é uma solução que ajuda o cliente a desmobilizar ativos antigos e receber de volta a frota alugada”, completou Couto.