
A Renault Geely avança em sua estratégia de expansão no Brasil e prepara um dos movimentos industriais mais relevantes do setor automotivo recente.
Com operação local prevista para começar no segundo semestre de 2025, já iniciou uma série de adaptações profundas na fábrica de São José dos Pinhais (PR) e na rede de concessionárias para receber sua nova plataforma híbrida.
O cronograma é acelerado: importações iniciais do modelo plug-in híbrido começam ainda no primeiro semestre, enquanto a nacionalização de componentes e o aumento da presença comercial estão em curso.
Ao mesmo tempo em que estrutura uma rede própria, com identidade visual exclusiva e mais de 40 lojas em construção, a empresa avança em frentes técnicas, treinamento de equipes e integração de fornecedores locais para dar vida ao seu primeiro modelo eletrificado na região.
O objetivo é consolidar uma operação robusta desde o lançamento, criando bases para atender o mercado brasileiro e, futuramente, exportar a partir do país, disse o presidente da montadora para a América do Sul, Ariel Montenegro.
Para detalhar esses passos — do processo de industrialização ao plano comercial, passando por sua própria trajetória dentro do grupo — conversamos com o executivo durante o Salão do Automóvel de São Paulo, no qual Renault e Geely contracenaram juntas pela primeira vez.
Automotive Business – Quais são os próximos passos da empresa após a parceria Renault Geely?
Ariel Montenegro – No momento, estamos nos preparando para a parada programada da fábrica, que coincide com as férias coletivas, como ocorre todos os anos. Neste ano, porém, esse período será um pouco mais longo — aproximadamente cinco semanas, a partir do final de dezembro. Durante esse intervalo, vamos intervir em todo o processo de fabricação — solda, pintura e montagem — para adaptar a linha à nova plataforma da Geely dentro do nosso sistema industrial.
AB – O que acontece após essa adaptação inicial da fábrica?
AM – Depois dessa fase, iniciaremos o processo de industrialização. Isso inclui pré-produções, fabricação das primeiras carrocerias (body-in-white) para testar geometria, setups e programações dos robôs. Testes de pintura, cor, homogeneidade e qualidade, treinamento dos operadores, aprimoramento das etapas de maturidade do projeto, que ocorrerá ao longo do primeiro semestre. No início do segundo semestre, começamos o ramp-up de produção, aumentando gradualmente o número de veículos produzidos até chegarmos à velocidade de cruzeiro.
AB – A engenharia e a tecnologia vêm totalmente da Geely? Haverá adaptações para o Brasil?
AM – Toda a engenharia do produto é da Geely. Estamos trabalhando com nossa equipe de desenvolvimento para aprender e adaptar essas tecnologias à realidade brasileira. Haverá sim algumas adaptações locais — voltadas ao tipo de estrada, necessidades do consumidor e condições específicas do mercado do Brasil. Essas alterações acontecerão ao longo das etapas de industrialização. A meta é iniciar as vendas do veículo brasileiro já no segundo semestre.
AB – Haverá vendas antes do início da produção nacional?
AM – Sim. Antes de termos o veículo produzido no Brasil, vamos importar o modelo plug-in híbrido da China durante alguns meses, ainda no primeiro semestre. Isso permite introduzir o modelo no mercado e dar continuidade à trajetória da Geely no país, que já possui dois produtos. Esse será o terceiro.
AB – Como estão sendo trabalhados os fornecedores e o conteúdo local?
AM – Estamos desenvolvendo parte das peças com fornecedores locais desde já. Como o projeto está avançando muito rápido — normalmente levaria dois anos — nem todas as peças nacionais estarão disponíveis no lançamento. O conteúdo local aumentará gradualmente. Isso também é importante para possibilitar futuras exportações, que exigem níveis mínimos de nacionalização.
AB – Como ficará a rede de concessionárias e a identidade visual das lojas?
AM – A rede Geely é independente, com identidade visual própria. Embora os investidores sejam, em grande parte, parceiros que já atuam com a Renault, as marcas são totalmente separadas. Hoje já temos 15 lojas operando e 40 em construção. Todas essas primeiras unidades são de grupos já ligados à Renault, mas isso não é obrigatório: no futuro, poderemos ter concessionários exclusivos Geely sem relação com a Renault — e vice-versa. A identidade visual das lojas foi desenvolvida aqui no Brasil junto com a Geely. Quem visitou o estande recente já pôde ver a estética: moderna, própria e com cores específicas da marca.
AB – A rede usará espaços provisórios enquanto as lojas são construídas?
AM – Sim. Para acelerar a presença comercial, estamos utilizando lojas menores em shopping centers — de 80 a 150 m² — enquanto as concessionárias definitivas ficam prontas.
AB – A linha de produção vai misturar o novo modelo com os veículos já existentes?
AM – O processo de fabricação de automóveis, de maneira geral, mudou pouco nos últimos anos. A linha segue uma sequência tradicional, com adaptações específicas. Bancos de teste diferentes conforme tecnologia (por exemplo, sistemas ADAS), plataformas de ensaio ajustadas para Geely e Renault, integração de ferramentas para cada tipo de produto. Mas, no geral, é muito mais eficiente adaptar um dispositivo industrial existente do que iniciar do zero.
AB – Haverá contratações para suportar o volume de produção futuro?
AM – Sim. Mas os números exatos para o próximo ano ainda dependem do tamanho do mercado e do volume previsto. Vamos contratar conforme o ramp-up de produção avançar.
AB – Como foi sua trajetória pessoal dentro da Renault?
AM – Eu comecei muito cedo. Antes mesmo de trabalhar na Renault, estudei dos 12 aos 18 anos no Instituto Técnico Renault, uma escola técnica localizada dentro do complexo industrial de Santa Isabel, na Argentina. A escola existe há 70 anos e forma técnicos para a indústria automotiva. É altamente seletiva — quando entrei, havia cerca de mil candidatos realizando provas de matemática e outras disciplinas.
Lá cursei ensino médio técnico, com formação prática em mecânica, usinagem, pneumática, motores, injeção, até impressão 3D na época. Com 18 anos, finalizei o curso, entrei imediatamente na fábrica e comecei a cursar engenharia mecânica à noite.
Ao longo dos 21 anos na Renault, passei por diversas áreas, como logística, manufatura, finanças, com experiência internacional no Brasil, França e Colômbia. Fui também chefe de gabinete do comitê executivo do grupo Renault durante a mudança de governança após a saída de Carlos Ghosn, trabalhando diretamente com o CEO Luca de Meo.
Nos últimos 3 anos e meio, atuei como presidente da Renault na Colômbia antes de assumir minha função atual.
