
Neste sábado, 28, é comemorado mundialmente o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. A data foi escolhida por ser o dia em que começou a Rebelião de Stonewall em 1969 — nessa ocasião, os frequentadores do bar gay Stonewall Inn, em Nova York, junto a outros membros da comunidade queer, começaram uma série de protestos em resposta a uma batida policial que se tornou violenta.
Esse não foi o primeiro momento em que pessoas LGBTQIA+ tomaram as ruas para protestar por seus direitos, mas permanece até hoje como o mais simbólico. O final dos anos 1960 foi um período marcante para a contracultura estadunidense, com acontecimentos como a Guerra Fria, a Guerra do Vietnã e o movimento hippie mudando a forma de pensar dos jovens do país.
Stonewall foi um abrir de olhos: na década seguinte, surgiram as Paradas Gay nos EUA e em outras partes do mundo e diversos países começaram a ter movimentos LGBTQIA+ organizados (como o Brasil, que teve o Grupo Somos em 1978).
Aqui na Automotive Business, falamos de mobilidade. E é importante perceber que o cicloativismo também agora foge de heteronormatividade – pessoas gays, lésbicas, transgênero, não binárias e afins se unem para criar comunidades de lazer, segurança e amizade em torno das bikes.
Conversamos com representantes de quatro grandes grupos de ciclistas LGBTQIA+. Conheça suas histórias.
Monta Mona – São Paulo (SP)

“O Monta Mona surgiu no início da pandemia. Eu precisava continuar trabalhando, mesmo com tudo fechado, e optei por ir de bike porque tinha muita ansiedade no transporte público e medo da contaminação. Acabou virando uma forma de cuidar da saúde física e mental. Um dia, fui trabalhar vestida com um macacão de unicórnio por causa de uma atividade especial na clínica — sou professora e educadora, trabalho com pessoas neuroatípicas.”
“Saí pedalando assim de Taboão da Serra até a Zona Sul de São Paulo, quase 40 km ida e volta. Depois nesse dia, encontrei uma amiga que estava com um amigo dela — um cara preto, periférico e gay — que ficou encantado com aquela figura toda colorida chegando de bike. Ele me perguntou se eu era LGBT e se existia coletivo de bike pra gente. Respondi que não conhecia, mas que podíamos criar um. E foi assim que nasceu a ideia. No começo, criamos um grupo chamado BBB (Bike, Breja, Beck), mas ainda com presença de amigos héteros, o que gerava uns climas desagradáveis, falas machistas e lgbtfobicas. Aí decidimos fazer algo totalmente voltado para pessoas LGBTQIAPN+. Quisemos criar um espaço seguro, diverso, onde a palavra “mona” representa esse universo queer e afetuoso. Surgiu o nome Monta Mona, que tem essa brincadeira com o “montar na bike” e ser “mona”. Começamos a fazer pedais com foco em cultura, lazer e visibilidade: íamos juntos a museus, festas, cinemas, batalhas de rima, exposições , marchas e protestos e o coletivo só foi crescendo!”
“Hoje, o Monta Mona é um coletivo LGBTQIAPN+ com mais de 310 pessoas no grupo de WhatsApp. Nesses quatro anos, já organizamos pedais com temas diversos, para centros culturais, exposições, espaços de lazer, além de apoiar eventos e marchas importantes para nossa comunidade. Além dos pedais exclusivos para pessoas LGBTQIAPN+ que organizamos via WhatsApp — geralmente mais intimistas e pensados para o acolhimento e segurança da nossa comunidade — também realizamos pedais abertos para apoiadores.”

“Cada pessoa que entra no grupo traz com ela elementos que passam a fazer parte das nossas práticas. Já participamos da Shimano Fest, organizamos saraus, aulas de yoga, oficinas de arte plásticas, ações de rua e pedais guiados temáticos. O objetivo sempre foi aproveitar as nossas potências e propiciar ambientes saudáveis de trocas.”
“Ser ciclista em São Paulo já é um desafio por si só — trânsito pesado, infraestrutura limitada, falta de segurança. Agora, quando você é LGBTQIAPN+, periférica, pessoa preta ou dissidente, isso se intensifica. A cidade pode ser hostil e perigosa, mas também é o lugar onde a gente exerce resistência e autonomia. Pedalar é, pra gente, um ato de liberdade. De ocupar as ruas com orgulho, de criar nossos próprios caminhos, de mostrar que podemos estar em todos os lugares. Apesar dos desafios, continuamos firmes — porque montar na bike é também movimentar a vida, estar aberto pro amor, incentivar a coragem. A grande parte dos motoristas não respeita as leis de trânsito ou zela pela segurança das pessoas ao seu redor.”
“Sempre que uma nova pessoa LGBTQIAPN+ decide ocupar as ruas com a sua bicicleta comemoramos como uma vitória da nossa causa.”
Natália, fundadora e uma das organizadoras do Coletivo Monta Mona.
www.instagram.com/montamona.sp
Tigronas – Rio de Janeiro (RJ)

“O Tigronas nasceu de um desafio, literalmente. Tudo começou com o ‘Rapha Women’s 100’, uma ação global que rola no Strava e convida mulheres do mundo todo a pedalar 100 km no mesmo dia, celebrando o ciclismo feminino. A gente se organizou pra participar e, durante o processo, ficou claro que existia uma vontade – e uma necessidade – de criar um espaço fixo pra mulheres, pessoas trans e não binárias no pedal.”
“Percebemos que muita gente queria um lugar onde pudesse pedalar de forma segura, acolhedora e sem pressão de performance. Um espaço pra quem queria tanto encarar distâncias maiores quanto viver o lado social do rolê, com direito a pausas, conversas e novas amizades. Foi aí que surgiu o Tigronas Bike Bonde, com aquela mistura bem carioca que a gente ama: pedal, cidade, praia, rolês culturais e, claro, muita troca entre quem participa. Hoje, o Tigronas é muito mais que um grupo de pedal, virou um coletivo que ocupa as ruas e celebra a liberdade de estar na cidade do nosso jeito.”
“Somos um coletivo com mais de 40 pessoas ativas. Atualmente, temos dois tipos de pedal: o Ronronado, que é mais leve, em ritmo de passeio e com paradas estratégicas para atividades como piqueniques, um mergulho ou um rolê cultural. E o Feroz, que é pra quem tá querendo um desafio maior: pedais mais longos, com ritmo mais puxado e numa pegada mais constante.”
“Um dos momentos mais marcantes foi o ‘Ka-Rawrr-Okê’, um pedal que rolou logo depois do Carnaval. Juntamos bike e karaokê: pedalamos cantando pela cidade, passando por pontos históricos, incluindo a casa onde foi gravado o filme Ainda Estou Aqui. Foi lindo, divertido e supersimbólico.”

“Não dá pra romantizar. Pedalar no Rio sendo mulher, trans ou pessoa NB é desafiador. A gente encara de tudo um pouco: desde xingamentos no trânsito até situações mais pesadas, como assédio físico e verbal. Também tem a insegurança de pedalar sozinha em certos horários ou regiões.”
“Mesmo com tudo isso, insistimos em ocupar as ruas. Tentamos criar estratégias de proteção, como praticar pedal defensivo, andar em grupo sempre que possível, trocar informações de segurança… A ideia é justamente essa: não deixar que o medo nos tire o direito de ocupar a cidade de bike.”
Bruna, uma das administradoras do Tigronas e responsável pela comunicação do coletivo.
www.instagram.com/tigronas.bb
Roxedas – Fortaleza (CE)

“Eu, Camila, sou uma pessoa nômade, volta e meia mudo de cidade. Antes de Fortaleza, residia em São Paulo, onde pedalava com as Vespas e, antes disso, morei em Curitiba, onde pedalava com as Jaguatiricas, todos grupos de pedais voltados para mulheres, pessoas trans e não bináries.”
“Quando cheguei aqui na capital do Ceará, não encontrei um grupo específico nesse formato, mas logo encontrei pedais mistos, abertos para todos — em sua grande maioria, compostos por homem cis, o que me deixava um pouco desconfortável sendo uma das ou a única mulher (e LGBT) do grupo.”
“A virada de chave se deu quando percebi que as amigas que convidava não se sentiam confortáveis de forma alguma em participar de grupos onde não se sentiam acolhidas por outras mulheres ou pessoas LGBT. Então, surgiu a necessidade de criar um grupo voltado para esse público (mulheres, pessoas trans e não bináries), já trazendo a experiência das vivências que eu tinha de grupos anteriores. E assim foi. Na primeira semana, apareceram 10 pessoas, na segunda semana, 20, fomos crescendo e hoje temos mais de um ano de Roxedas e muitas conquistas e notoriedade no cicloativismo da cidade e fora dela.”
“Fortaleza é uma cidade muito hostil para ciclistas. Apesar dos mais de 500 km de malha cicloviária, os motoristas são bem incisivos na falta de respeito e na dominância das ruas. Nos pedais em grupo, já ouvimos diversos xingamentos, gritos como ‘sai da rua sapatona’, e diversas ‘finas educativas’. Quando pedalamos a noite, a segurança é uma questão muito delicada, procuramos voltar sempre em companhia para casa. Mesmo assim, tivemos casos em que motoqueiros seguiram algumas ciclistas e também ciclistas se sentiram inseguras por estarem sozinhas ou em pouca companhia.”

“O grupo é bem ativo, fazemos o pedal de quinta, que é o clássico, desbravando lugares diferentes da cidade. Para além do recorte de gênero e sexualidade, buscamos descentralizar, sempre pedalando para destinos diferentes na cidade, abraçando todes que querem se juntar a nós. Aos finais de semana, fazemos pedais mais longos, de estrada, ou em direção a alguma praia. Essa atividade é muito importante para menines que não conseguem comparecer quinta-feira por conta do trabalho.”
“Gostamos também de aderir aos desafios, como o de pedalar 100km no Dia da Mulher, pedalar 500 km no intervalo entre o Natal e o Ano Novo, todos juntes e nos apoiando. É incrível ver como vamos mais longe com nossa comunidade quando nos sentimos apoiades e representades.”
Camila Vannucci, fundadora e coordenadora do grupo de pedal Roxedas Bike Gang
www.instagram.com/roxedas.bg
Fúria Queer – São Paulo (SP)

“Eu, Marito, pessoa trans não-binária, fazia parte da organização de um outro grupo de ciclistas LGBT+, mas percebi que o espaço não condizia com minhas ideias e práticas. Muita tokenização e preconceitos, pouca preocupação com questões de gênero e sexualidade e com o ciclismo. Então criei o perfil pra tentar ter essa possibilidade de fazer diferente, mas sem muita pretensão. A preocupação era trazer mais pessoas queers para as ruas, construir autonomia e rede. Saí daquele outro grupo, juntei mais outras pessoas, anunciamos o primeiro pedal para o dia 18/01/2024 e estamos há cerca de um ano e meio pedalando todas as quintas, construindo coisas lindas. Está dando muito certo, dentro daquilo que a gente quer.”
“A Fúria Queer é, antes de mais nada, ação direta. Somos um grupo que constrói a autonomia de pessoas queers (a grosso modo, Queer é o LGBT+ de luta, à margem, as dissidências de gênero e sexualidade, raivosas), anticapitalistas e tudo que isso implica. E usamos a bicicleta para isso, por entender que a bike representa muito do que buscamos, é um instrumento de resistência contra a lógica da violência da indústria dos veículos motorizados, da velocidade e consumo. O carrismo tem essa coisa de masculinismo, de violência, imposição. A bici é liberdade, autonomia, é viver o tempo e o espaço de outra maneira.”
“As atividades que fazemos são o pedal de todas as quintas à noite, leituras coletivas, festas, intervenções urbanas e construções em atos com outros coletivos. Não temos número fixo de participantes.”

“Ciclistas, em geral, vivem muitas dificuldades na cidade. A violência carrista é a maior delas, essa cultura de potência, disputa e masculinismo que o carro representa, a maneira como os motorizados pensam o espaço como sendo uma extensão da sua propriedade (o carro), a falta de conhecimento das regras no trânsito, o incentivo de tudo isso pelas autoridades e as péssimas condições das vias. Quando falamos de mulheres e dissidendências de gênero e sexualidades no ciclismo, a gente fala dessas dificuldades agravadas, porque somos o oposto dessa cultura. E podemos falar de mais dificuldades, de violências dirigidas ao gênero e à sexualidade.”
“Daí a importância de construirmos coletivamente e encontrar maneiras de enfrentamento e revide.
Em tempo, em ‘mês do orgulho’, nós, enquanto coletivo anarcoqueer, entendemos que o orgulho não existe sem revolta e motim, negamos a assimilação, negamos ser o ‘gay’ bonzinho da novela, a versão colorida da heterocisnormatividade. A gente não quer ser tolerade, queremos a destruição de tudo aquilo que impede a plenitude de nossas existências.”
Marito, integrante do Fúria Queer
www.instagram.com/furiaqueer