
O mês do orgulho LGBQTI+ revela desafios importantes no setor automotivo: apenas 2% dos colaboradores do setor são pessoas LGBQTI+. E 1% chega à liderança, segundo dados da Pesquisa de Diversidade e ESG 2025, da Automotive Business.
Entre 2023 e 2025, as empresas com ações ou programas nesse eixo da diversidade ca´ram de 46% para 27%, um retrocesso significativo. A boa notícia é que as companhias que se comprometem com o tema, levam a sério: 25% delas são signatárias do Fórum de Empresas e Direitos LGBQTI+.
Diante desse cenário, é ainda mais necessário reconhecer e dar visibilidade aos talentos que atuam no setor. Por isso, Automotive Business reuniu 4 perfis de profissionais LGBQTI+ para você conhecer e acompanhar neste mês e em todos os outros.
1. Caroline Besson – Bosch
Cargo: analista de gestão de projetos sênior
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Há 10 anos no setor automotivo, Caroline entrou na Bosch como estagiária de marketing intelligence. Ela teve a oportunidade de estagiar na filial dos Estados Unidos por um ano e, quando voltou ao Brasil, em 2018, foi contratada para a área de marketing digital.
Atualmente, ela gerencia projetos digitais para América Latina, com desenvolvimento de novas aplicações na web e análise de dados utilizando Inteligência Artificial para entender a opinião dos consumidores da Bosch.
Caroline conta que quando participou do processo seletivo para estagiária, em 2015, teve muitas dúvidas. “[Eu pensava] será que minha sexualidade e aparência, destoando do que eu imaginava ser o padrão da empresa, seriam um obstáculo? A roupa escolhida no dia da entrevista foi estratégica: mais formal, ocultando as tatuagens.”
No ano em que trabalhou na Bosch dos EUA, ela teve contato com o grupo de afinidade LGBQTI+ da empresa e isso foi “revelador”, define ela. “A abertura da empresa para acolher e ouvir a comunidade LGBTQIA+ fortaleceu meu desejo de construir minha carreira ali.”
Quando voltou ao Brasil, replicou a ideia aqui e liderou o grupo de afinidade LGBTQI+, entre 2019 e 2022. Nesse período, o grupo promoveu rodas de conversa com pais de funcionários LGBQTI+, trouxe convidados de outras empresas, psicólogos e a vivência de casais homoafetivos.
2. Evilym Machado – Renault
Cargo: gerente de relações institucionais e governamentais da Renault no Brasil
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Evilym entrou na montadora em 2009, como estagiária na direção de recursos humanos. Também atuou como analista de Facilities, sendo responsável pela gestão de contratos com grandes fornecedores. Em 2015, assumiu um novo cargo na direção de relações institucionais e governamentais, e passou a representar a empresa publicamente em temas estratégicos.
Ela liderou projetos e grupos de trabalho voltados à transição energética e à mobilidade sustentável no Brasil. Em 2020, assumiu a liderança da comunicação do grupo de afinidade LGBQTI+ da empresa, o Proud@Renault.
Em 2025, a executiva começou a atuar também como secretária técnica da presidência da Renault do Brasil, ampliando sua participação em temas transversais e de alto impacto para o futuro da empresa.
Ela conta que se assumiu LGBTQI+ muito cedo, mas antigamente era preciso ser mais discreta no ambiente de trabalho. “Sempre fui transparente sobre quem eu sou, mas é inegável que, em outros tempos, precisei adotar uma postura mais reservada em relação à minha vida pessoal”, contou ela.
A virada de chave foi quando a Renault criou o seu grupo de afinidade LGBQTI+.
“Liderar esse grupo de afinidade me proporcionou não apenas mais visibilidade, mas também a oportunidade de exercer uma liderança com propósito. Passei a ter um papel ativo na construção de um ambiente mais inclusivo, onde as pessoas pudessem se sentir à vontade para ser quem são.”
Ela avalia que os principais desafios do setor automotivo ainda são: incluir pessoas LGBQTI+ em todos os níveis hierárquicos; reconhecer a interseccionalidade da pauta; e promover iniciativas além das ações pontuais.
3. Guilherme Nascimento – Volkswagen
Cargo: supervisor técnico de Diversidade & Inclusão da Volkswagen no Brasil
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Guilherme é responsável pela governança da estratégia de D&I e coordenação do comitê de diversidade da VW. Ao todo, coordena cinco grupos de afinidade no Brasil, atuando na implementação de políticas inclusivas, ações sociais, políticas públicas, advocacy e ações de letramento com foco em equidade.
Em mais de 15 anos no setor, tem experiências nas áreas de manufatura, controladoria e assessoria da presidência. É graduado em administração com MBA em Liderança e Gestão de Equipes e especialização em Diversidade.
Ele iniciou a carreira no chão de fábrica, um ambiente tradicionalmente masculino, onde a expectativa de “adequação” era constante.
“A ausência de referências, na época, me levou a silenciar partes de quem eu sou, por receio de comprometer meu crescimento profissional. Foi só ao assumir posições de liderança e me engajar ativamente com Diversidade & Inclusão que compreendi o impacto real que esse silenciamento teve. E como transformar isso tudo em potência”, conta o executivo.
“Hoje, uso minha história como ferramenta de transformação, para abrir caminhos e gerar mudanças estruturais.”
Ele acredita que o setor avançou, mas ainda há o que melhorar. Para isso, não basta apenas contratar, é preciso incluir.
“É preciso ir além da representatividade em datas simbólicas e investir em ações contínuas de letramento, revisão de políticas internas com recorte interseccional e, principalmente, no fortalecimento da liderança como aliada.”
4. Silvia Azevedo Rosa – Stellantis
Cargo: gerente global de ESG & direitos humanos e líder do Grupo de Afinidade LGBTQIA+ na Stellantis
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Com mais de 15 anos de experiência na área de recursos humanos, Silvia atuou em áreas de mobilidade Global, remuneração e benefícios e diversidade e Inclusão.
Ela é graduada relações internacionais, com MBA em gestão de projetos e especializações em direito internacional, diversidade e inclusão, ESG e direitos humanos. Também é voluntária em iniciativas que atendem refugiados e jovens em situação de vulnerabilidade social.
Para ela, ser uma mulher cisgênero, bissexual e parda influenciou diretamente na sua trajetória profissional, trazendo tanto desafios, quanto conquistas.
“Por muito tempo, essa dimensão não era compartilhada no ambiente de trabalho, até que encontrei na Stellantis um espaço seguro por meio dos primeiros Grupos de Afinidade. Essa vivência me permitiu reconhecer minha identidade, fortalecer meu senso de pertencimento e atuar com mais autenticidade”.
Na montadora, ela pôde aprofundar seus conhecimentos sobre diversidade e interseccionalidade, o que ampliou sua visão sobre o tema.
“Ser quem sou me possibilitou crescer profissionalmente, assumir posições estratégicas e reforçar meu compromisso com a construção de uma cultura baseada em Direitos Humanos, onde pertencimento e segurança psicológica são realidade.”
Silvia acredita que o setor automotivo reflete a realidade brasileira, por isso, a inclusão de pessoas LGBQTI+ ainda é um desafio.
“A inclusão precisa deixar de ser pontual e passar a fazer parte da cultura organizacional, com políticas claras de acolhimento, respeito e combate à discriminação, garantindo que todas as pessoas possam ser quem são, com equidade e segurança.”