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Para responder essa pergunta, Automotive Business conversou com a especialista em diversidade, Cris Kerr, CEO da consultoria CKZ Diversidade. Confira abaixo os principais insights desse papo pra você ficar de olho este ano:
1. Diversidade no Brasil: acelera ou freia?
Google, Ford, Harley-Davison, Toyota, Meta, Amazon: essas são algumas das gigantes nos EUA deram passos atrás em seus programas, políticas e/ou métricas de diversidade e inclusão nos últimos meses. O movimento ganhou força com a onda de conservadorismo provocada pela eleição do presidente norte-americano Donald Trump.
Será que o movimento chega ao Brasil? A resposta é: provavelmente não. Para Cris Kerr, o nosso país está respaldado em diversas leis que garantem a diversidade e inclusão no mercado de trabalho. “Aqui essas empresas precisam se adaptar porque tomam multa, né?”, apontou a especialista.
Ela cita que as leis e normas dos EUA e do Brasil são bem diferentes. Aqui, por exemplo, temos a lei contra a discriminação racial, lei contra a discriminação LGBTQIA+, lei de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, entre outras.
“A gente tem também uma lei chamada discriminação positiva, onde as empresas podem fazer ações diferenciadas para atrair talentos diversos, como pessoas negras, mulheres ou pessoas LGBT+, por exemplo”, lembra a Cris Kerr.
Além disso, a demanda pela sua consultoria continua forte, principalmente de empresas do setor automotivo.
“Lógico que vai ter empresa que vai pegar isso que está acontecendo lá fora e vai usar como desculpa para não falar de diversidade. Mas não é o que eu estou sentindo. A gente continua com alta demanda, principalmente por programas de desenvolvimento de pessoas de grupos minorizados.”
Com a desaceleração do tema no exterior, algumas empresas querem aproveitar a oportunidade para serem os protagonistas, comentou Cris Kerr.
2. Cuidados com a saúde mental – agora é lei
Outro tema quente na agenda de Diversidade e Inclusão das empresas é a atenção com a saúde mental dos colaboradores.
O assunto é cada vez mais relevante em um país onde 30% dos trabalhadores sofrem com a síndrome de burnout, segundo a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).
Por isso, a partir de maio, a Norma Regulamentadora Nº1 (NR-1) vai exigir que as empresas identifiquem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Isso inclui questões como jornadas de trabalho excessivas, assédio moral, metas excessivas e falta de apoio psicoemocional. Esses fatores podem causar estresse, ansiedade, depressão, entre outros problemas de saúde mental.
“Essa norma faz com que as empresas sejam responsabilizadas pela gestão da saúde emocional dos seus funcionários”, afirmou a CEO da consultoria CKZ Diversidade.
“Então, agora é ainda mais importante colocar essa pauta na conversa com as lideranças da organização e promover o treinamento e conscientização das lideranças para ter um bom ambiente de trabalho.”
3. Treinamento de lideranças
Com a NR-1, as empresas precisarão cuidar para ter um ambiente de trabalho acolhedor e inclusivo – e as lideranças são peça-chave nisso, aponta Cris Kerr.
“Quem dita cultura da organização é principalmente a liderança nos seus comportamentos e atitudes.”
Então, promover um ambiente de trabalho sem assédio, jornadas excessivas e com apoio psicossocial esbarra no modelo de liderança. Por esta razão, é fundamental garantir que o treinamento para formação de lideranças mais diversas e empáticas.
“O desafio número um é colocar esse tema, tanto de diversidade, quanto sobre o assédio, na pauta da conversa com a liderança da organização”, afirma Cris Kerr.
Esse desafio se arrasta há anos. Segunda a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo, de Automotive Business, em 2023 o engajamento das lideranças já era a segunda maior barreira à diversidade no setor.
A boa notícia é que os demais funcionários são engajados no tema. No setor, 82% dos colaboradores participam e gostam de treinamentos de diversidade.
4. Gerações x emprego
Outro tema é a inclusão geracional, tanto de profissionais 50+, quanto dos jovens. As empresas têm o desafio de atrair e lidar com traços geracionais completamente diferentes.
A geração Z chegou para revolucionar o mercado de trabalho e como lidamos com a vida profissional. “Quantos dias vou ter de home office?”, essa é a primeira pergunta de uma pessoa da geração Z em uma entrevista de emprego, afirma a CEO da CKZ Diversidade.
Para eles, o emprego não é tudo na vida, é apenas “um emprego”. Por isso, eles não querem ser CLT, exigem home office e param de trabalhar às 18h em ponto, sem hora extra – tudo em prol de equilibrar a vida profissional e pessoal.

Do outro lado, os profissionais da geração X (entre 45 e 65 anos) veem esses comportamentos como problemáticos. Para eles, um emprego estável é o mais importante, mesmo que pra isso seja preciso dedicar inúmeras horas de trabalho – e trabalho presencial.
“As empresas precisam ter diálogo, não discussão nem debate, é diálogo. Isso é, entender o modelo mental de cada geração e adequar às necessidades de cada uma”, afirmou Cris Kerr.
Outro ponto que ela chama atenção é sobre o respeito à diversidade de gênero e sexualidade. Até porqye 32% da geração se diz LGBTQIA+
“É algo que as empresas precisam olhar. Ainda existe muito a cultura da piadinha e dos apelidos, a geração Z não vai conseguir trabalhar em um ambiente hostil assim”, completou a especialista.
As empresas automotivas costumam ter mais ações voltadas para talentos jovens. Apenas 17% do setor conta com programas e metas para contratação de profissionais 50+, segundo a pesquisa da Automotive Business.
Isso é um problema e precisa mudar logo: segundo o IBGE, seis em cada 10 trabalhadores brasileiros terão mais de 45 anos de idade até 2040.
5. Diversidade e IA
Ferramentas de inteligência artificial estão cada vez mais populares no Brasil e no mundo. Elas são usadas tanto para automatizar tarefas e processos no dia a dia, como para criar conteúdos multimídia que seriam impossíveis sem a tecnologia, como a polêmica propaganda da Volkswagen com a Elis Regina recriada com IA.
E a diversidade não pode ficar de fora. Para Cris Kerr, é urgente pensar em quem cria essas ferramentas de inteligência artificial (IA) e quais padrões de comportamento estão sendo repetidos.
“Se a gente continuar do jeito que tá vai ter um monte de vieses nas inteligências artificias”, alertou Cris Kerr. “As IAs estão sendo criadas e treinadas por um grupo majoritariamente formado por homens, brancos e heterossexuais. É um grupo muito parecido [com o mercado de trabalho tradicional].”
Para mudar isso, ela conta que algumas empresas de tecnologia estão investindo na diversidade e mais recentemente, na contratação de profissionais neuro divergentes, como autistas e pessoas com TDAH, que têm um processo cognitivo único e podem contribuir significativamente com ferramentas de IA, programação, teste de softwares, entre outros.