
A China foi o fator comum que derrubou os resultados globais das principais montadoras do mundo no primeiro semestre do ano. Não foi raro ver nos balanços divulgados por elas no período um apontamento a respeito de como as vendas realizadas no maior mercado do mundo, cada vez, menores, derrubaram os indicadores.
Empresas como a Volkswagen, BMW, Mercedes-Benz e General Motors, por exemplo, reportaram aos acionistas que as vendas na China caíram no primeiro semestre de 2026. Outras como Renault e Nissan informaram que houve retração nas vendas da Ásia como um todo.
Para Fernando Trujillo, consultor da Mobility Global, o que explica o encolhimento da participação na China de montadoras mais tradicionais é a expansão das fabricantes domésticas. Ele diz que, apesar de uma desaceleração no mercado chinês, a principal justificativa para este cenário gira em torno da expansão dessas marcas.
“Está tendo uma desaceleração na economia da China. O que está impactando consequentemente a indústria automotiva, mas o fator principal é o crescimento das chinesas. E isso não é do ano passado para agora, isso já vem acontecendo desde meados de 2020”, afirmou.
Trujillo explica que esse movimento se iniciou com o investimento governamental chinês em novas tecnologias que fizeram com que modelos eletrificados avançassem. “Teve muito investimento em startups e em montadoras chinesas e esse ambiente foi crescendo e ganhando o consumidor chinês”, contou.
Tudo isso teria sido desenvolvido muito rapidamente, de forma que as montadoras mais tradicionais ou que já tinham um espaço na China não conseguiram acompanhar.
“Eles conseguiram atrair esses consumidores chineses com tecnologia, com novos produtos no mercado e, claro, preço. E as chinesas estão tomando mercado de montadoras não-chinesas em outros mercados também, porque estão com preço muito competitivo, com conteúdo tecnológico muito avançado e isso está impactando os volumes de montadoras ocidentais em todos os mercados”, completou.
Vendas das montadoras alemãs despencaram
Nos primeiros seis meses do ano, as europeias Renault, Mercedes-Benz, BMW e o grupo Volkswagen, que engloba as marcas VW, Audi e Porsche, reportaram aos seus acionistas o registro de lucro no primeiro semestre. Na China, no entanto, elas sofreram queda nas vendas.
A francesa Renault conseguiu reverter o prejuízo e alcançou o lucro de € 721 milhões. A receita do grupo, por sua vez, aumentou em 9,5%, chegando a € 30,252 bilhões. A empresa reportou que, apesar de as vendas terem crescido 6,3% na Ásia-Pacífico, a região foi onde menos veículos foram vendidos.
A Mercedes-Benz alcançou um lucro de € 2,519 bilhões no período, 6% menos que no período do ano anterior. Já a receita do grupo caiu 4%, alcançando € 63,663 bilhões. No mercado chinês, o segmento de carros da marca registrou uma queda de 28%, com 210.245 unidades vendidas.
Segundo a alemã, houve uma desaceleração no mercado do país asiático no segundo trimestre, fazendo com que a demanda interna enfraquecesse.
Outra que reportou queda na China foi a BMW. A empresa vendeu 20,4% a menos no país no segundo trimestre e apontou o desempenho na China como fator responsável pela queda. Para a montadora, esse cenário e os conflitos no Oriente Médio reduziram o lucro no período em 28,5% e a receita em 8%.
Já o grupo Volkswagen registrou lucro de € 5,9 bilhões no semestre, 11% a menos em comparação com os ganhos obtidos no mesmo período de 2025.
No entanto, na China, o grupo reportou que entregou um menor número de veículos: 20% a menos na categoria de carros de passeio e 10% a menos em comerciais leves. A companhia ainda informou que, antecipando uma desaceleração no mercado automotivo chinês, projeta uma diminuição de até 7% nas vendas até o final do ano.
China afetou montadoras nos Estados Unidos e no Japão
As montadoras americanas também sentiram o impacto do mercado chinês em suas vendas. A GM, que está reestruturando operações na China, registrou queda de aproximadamente 20% nos volumes, entregando 706 mil veículos no primeiro semestre.
As montadoras japonesas não ficaram de fora da parcela que foi afetada pelo mercado chinês. A Toyota é uma delas, registrando uma queda de 17% nas vendas para a China no primeiro trimestre do ano fiscal, entre abril e junho, com 694.670 unidades emplacadas. No caso da Nissan, o lucro na região caiu em quase 35%.
A Honda, que também teve redução de vendas na China, informou que a concorrência tem se intensificado no país. Entre abril e junho deste ano, a marca registrou queda de 202 mil para 127 mil unidades vendidas na Ásia, com a maior parte dessa retração acontecendo na China.
A Mazda empatou. Foi uma das montadoras que conseguiu se manter no mesmo patamar entre abril e junho em relação ao mercado chinês, registrando cerca de 18 mil veículos vendidos na China, o mesmo número informado pela empresa correspondente ao período em 2025.
