
Nas últimas semanas uma série de empresas do setor automotivo na Europa anunciaram algum tipo de reestruturação. Seja reduzindo o quadro de funcionários, o ritmo de produção ou os dois ao mesmo tempo.
Elas alegam em seus comunicados oficiais que as medidas de austeridade se dão em momento complicado nas vendas no continente e na China. Além de uma concorrência cada vez se mostrando mais desparelha com rivais chineses.
Redução do mercado na China tem efeito cascata
Essa espécie de colapso no qual entrou a indústria europeia de veículos pode ser considerada fruto de um processo de estrangulamento do mercado chinês. O que ocorre atualmente por meio da imposição de tarifas mais altas de imposto de importação.
“A redução do ritmo de vendas na China afeta mais as marcas não chinesas, visto que a ‘guerra de preços’ que vem acontecendo reflete mais a lucratividade das estrangeiras do que as das marcas chinesas”, diz o consultor David Wong, da Alvarez & Marsal.
“Desde que se começou a falar em tributação, as empresas europeias com operação na China passaram a vender menos na região. Reduzindo as vendas, se reduz também a produção dessas empresas na Europa, nas fábricas que abastecem a Ásia”, completa.
Volkswagen e GM já vislumbram cortes e ajustes
O Grupo Volkswagen é um dos mais afetados pela queda nas vendas na China por conta do tamanho da sua operação no país.
O balanço do primeiro semestre do ano mostrou que as vendas caíram 7% na comparação com o volume registrado em igual período no ano passado, somando 1,3 milhão de unidades das marcas subsidiárias Volkswagen, Porsche e Audi, por exemplo.
A General Motors, por sua vez, espera que a sua reestruturação promovida na China custe mais de US$ 5 bilhões em encargos ligados a fechamentos de fábricas no país, cuja operação local é feita em parceria com a Saic.
As operações da GM na China deixaram de ser sinônimo de lucro e se tornaram um passivo na última década, à medida que cresce a concorrência de montadoras chinesas.
A participação de mercado da fabricante despencou de aproximadamente 15%, em 2015, para 8,6% no ano passado. Foi a primeira vez que caiu abaixo de 9% desde 2003.
A questão chinesa, no entanto, não é o único fator que contribuem para que montadoras e sistemistas europeus venham anunciando cortes.
Fim dos subsídios acentuaram a crise no mercado europeu
A oferta de algumas delas na China ainda é composta por modelos a combustão. O que, de certa forma, cria um cenário complicado no país que é considerado uma espécie de meca dos veículos eletrificados.
Outro fator: as vendas na própria Europa não estão lá essas coisas com o fim dos subsídios que os principais países do continente concediam aos consumidores de modelos elétricos.
Dados da Acea, a associação dos fabricantes europeus, mostram que as vendas de modelos elétricos registradas até setembro caíram 0,5% ante o mesmo período em 2023.
Se considerarmos as vendas totais realizadas em setembro, contando também modelos equipados com motor de combustão, a queda foi de 6,1% ante setembro do ano passado. O desempenho comercial na França, Alemanha e Itália puxaram os números para baixo no mês.
“Com taxas de juros mais alta devido à inflação, os consumidores nos mercados desenvolvidos estão buscando alternativas mais baratas. Com isso, as montadores chinesas vêm ganhando mercado”, explica Fernando Trujillo, consultor da S&P.
“As montadoras ocidentais investiram bilhões em eletrificação e o mercado não respondeu como esperado. Agora elas estão pagando o preço tendo que reajustar suas estratégias e produção, e isso significa cortes de funcionários e até fechamento de plantas”, completou.
Diante desse quadro, não demoraria muito para que a redução nos volumes afetasse também a operação de sistemistas que atendem às demandas das montadoras.
A Valeo, por exemplo, está prestes a fechar duas fábricas na Inglaterra. A Bosch, por sua vez, quer cortar 10 mil funcionários na Alemanha. A tendência é a de que outras sigam o mesmo caminho.
