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Montadoras

Pede para sair: por que Tavares deixou o cargo antes do previsto na Stellantis?

Próximo CEO da montadora terá desafios complexos para recuperar mercados e manter a lucratividade
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Fernando Miragaya

03 dez 2024

4 minutos de leitura

Carlos Tavares (dir.) em evento sobre investimento na empresa de eVtols Archer

O domingão do setor automotivo foi perturbado pela saída do CEO da Stellantis, Carlos Tavares. A sucessão dele estava prevista, sim, mas o português só iria fazer as malas no fim de 2025. A crise que bate à porta do quarto maior grupo automotivo do mundo, porém, acelerou o processo.

O que se especula é que as pressões do Conselho Executivo da fabricante fizeram Tavares jogar a toalha. Ele, que assumiu o comando da Stellantis logo após sua formação, em 2021, e teve êxito na busca por lucratividade e corte de custos nos primeiros anos, teria padecido das consequências diretas disso.

Aumento das margens sem ganhar dinheiro

Analistas internacionais apontam que o tíquete médio de modelos das marcas da Stellantis aumentaram consideravelmente na Europa e nos Estados Unidos. Contudo, enquanto a margem cresceu, as vendas caíram.

Neste meio tempo, as fabricantes chinesas atravessaram os planos das principais fabricantes com carros eletrificados a preços muito agressivos. As montadoras tradicionais, que ainda se veem obrigadas a investir na transição energética, sentiram o golpe. Está aí a Volkswagen que não nos deixa mentir.

“Esse momento e essa decisão na Stellantis são reflexos da pressão exercida sobre a maioria das empresas automotivas da Europa. Estão trabalhando na busca de caixa para fazer a eletrificação planejada”, observa Paulo Cardamone, da Bright Consulting.

Essa corrida por rentabilidade foi mel na boca dos acionistas da Stellantis por um bom tempo. Como dito, Carlos Tavares conseguiu promover uma redução de custos e aumento das margens, que resultaram em um lucro operacional de 12% em 2023.

Paralelamente, a Stellantis perdeu ⅓ de participação de mercado na Europa. Segundo dados da Acea, a associação de montadoras do continente, o market share da Fiat na região, por exemplo, caiu pela metade, para 1,8%. O mix da Citroën desceu para 2,2%.

Preços altos afujentaram clientes da Stellantis

Para muitos, o movimento é reflexo direto do aumento considerável dos preços médios dos modelos da empresa. Dados da Jato Dynamics fornecidos à agência de notícias Reuters mostram que o tíquete médio de um automóvel de passeio da Stellantis na Europa, em setembro, era de quase € 40 mil.

“Participação de mercado é extremamente relevante, mas não adianta querer vender carro perdendo dinheiro. O que aconteceu é que a Stellantis subiu os preços e, ainda assim, perdeu dinheiro ao não sustentar o volume”, pondera o consultor Milad Kalume Neto.

Ainda teve a questão particular do mercado norte-americano. Lá, os preços também tiveram alta. Levantamento da Cox Automotive para a Reuters aponta que a tabela média de modelos da Jeep, uma marca considerada acessível nos EUA, chegou a US$ 60 mil em 2024, 71% a mais que em 2019.

Ao mesmo tempo, as vendas dos veículos da Stellantis por lá despencaram em 2024. No terceiro trimestre deste ano a queda nos licenciamentos foi de 17% nos EUA em relação ao mesmo recorte de 2023. 

Stellantis deixou de lado os EUA

Esse contexto ainda vem acompanhado do esvaziamento de marcas tradicionais, como Chrysler e Dodge. Nitidamente deixadas de lado pela Stellantis. 

Importante lembrar que na “house of brands” que é a Stellantis, Tavares considerou a descontinuação de marcas que não dão resultado. Inclusive europeias, como a Lancia. 

Para Milad, a fabricante está em uma sinuca de bico. Isso porque não pode desprezar um mercado como o dos EUA. 

Só que o país norte-americano tem uma demanda peculiar por carros maiores. Que vai contra o que a face europeia do grupo entrega do outro lado do Atlântico: automóveis menores e mais eficientes. 

Nesta dinâmica, o fato de ter várias marcas pouco adianta à Stellantis. Afinal, Fiat, Peugeot, Citroën e Opel não têm qualquer penetração e aceitação nos EUA.

“A empresa vai ter de buscar um equilíbrio. Olhar o mercado norte-americano com mais atenção”, acredita Milad. “Tavares se vendeu muito com essa expertise, de maximizar as operações com lucro. Mas não conseguiu fazer isso no mercado dos Estados Unidos”, observa o consultor. 

Paulo Cardamone diz que ainda é muito cedo para cravar os próximos passos da Stellantis. Mas acredita que o futuro da montadora, entre outras coisas, passa por um reposicionamento do portfólio.

“A saída antecipada de Carlos Tavares expõe a necessidade de implementar um plano de reestruturação, que o conselho da Stellantis entende que será mais rápido com um novo agente”, explica o consultor da Bright.

E o Brasil como fica nessa história?

Para os especialistas, o Brasil não deve sofrer qualquer refluxo da crise internacional da Stellantis. As operações locais se mostram eficientes e a empresa segue líder absoluta de mercado.

Porém, uma mudança de diretrizes, com a faceta FCA – Fiat Chrysler da empresa tendo mais atenção, por exemplo, pode até ser positiva para a filial brasileira.

“Uma das coisas que pode mudar é que a Stellantis tinha dentro de sua gestão muito de PSA e talvez vá caminhar em um sentido em que a parcela FCA tenha mais força. Se isso acontecer, o Brasil vai ter mais possibilidades de entregar projetos e necessidades de investimentos”, ressalta Cardamone.