
Acelerar superesportivos até o limite com segurança e sem correr o risco de ser multado é o desejo de todo entusiasta de carros. É por isso que tanta gente sonha em ser piloto de testes.
Se esse é o seu caso, sinto lhe informar que não é bem assim.
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“Todo mundo acha que faço isso todo dia. Claro que esses momentos acontecem, mas, na maior parte do tempo, meu trabalho é bem diferente”, contou Alexandre Moro, piloto de testes da Pirelli.
Xandão, como é carinhosamente conhecido, trabalha na empresa há 17 anos. Começou na antiga pista de testes da Pirelli, que ficava em Sumaré (SP), e que funcionou de 1988 a 2018.
Dia de piloto de testes foi na “casa” da Pirelli

Desde 2020, o Circuito Panamericano é a “casa” de todos os testes realizados pela Pirelli no Brasil.
O moderno complexo nasceu de um investimento de R$ 90 milhões e ocupa uma área total de 1,26 milhão de m², das quais 205 mil m² são de área asfaltada.
Agrupa sete pistas diferentes que somam 22 km de extensão. Lá, um pneu é desenvolvido do zero até o produto final. Isso faz com que várias montadoras realizem testes dentro do complexo.
“Aqui reproduzimos praticamente todas as condições que um motorista pode encontrar nas ruas e estradas, mas com controle total das variáveis”, afirmou Luciano Santana, gerente de P&D e testes da Pirelli para a América Latina.

O próprio Xandão, inclusive, roda com todos os carros vendidos pelas marcas do grupo Stellantis no país que usam pneus Pirelli.
“Na maioria das vezes, a montadora nos envia protótipos para rodar dentro do complexo. Assim podemos realizar todos os testes com sigilo total”, complementou Luciano.
Parque de diversões para os fãs de carros

O Circuito Panamericano tem uma área de 205 mil m² pavimentados e mais algumas pistas off-road. Lá circulam automóveis, motocicletas e até caminhões.
Uma dessas pistas é a Wet, onde se pode simular diferentes condições de água acumulada na pista. É possível até selecionar a quantidade de água em milímetros.
Os pilotos analisam o comportamento de cada pneu em piso molhado. É possível reproduzir cenários de aquaplanagem em reta e curva. Daí a existência de uma área de escape tão grande.
A pista off-road avalia o comportamento dos pneus da linha Scorpion, que equipam SUVs e picapes. O percurso reproduz obstáculos comuns em trilhas, como inclinações laterais e a “caixa de ovos”, onde vários buracos fazem a carroceria torcer.
No trajeto existem uma pista com pedras de grande porte e um tanque cheio de água para travessia em trechos alagados.
Já a pista de conforto reproduz 15 tipos diferentes de pisos. Tem asfalto esburacado, emendas de viadutos e até paralelepípedos bem e mal encaixados. Nada diferente do que se encontra pelo Brasil.
Pista é inspirada em autódromo onde Senna venceu pela 1ª vez

A cereja do bolo é a pista Dry Handling, cujo traçado foi inspirado no circuito de Estoril, em Portugal, onde Ayrton Senna ganhou sua primeira corrida na Fórmula 1, em 1985. A pista tem 3.400 metros de extensão e duas retas com 720 metros e 470 metros.
A combinação de 11 curvas alterna trechos de alta velocidade com outros bastante travados. Vale alertar que é um traçado bastante técnico e que demanda cuidado. Caso contrário, escapadas de pista e até acidentes são inevitáveis.
Inclusive, se você gostaria de viver essa experiência, a Pirelli abre o local para alguns eventos privados, como track days, nos quais você pode dirigir seu próprio carro mediante o pagamento de uma inscrição determinada pela organização do evento.
Pneus ficam em câmara frigorífica para conservação
Dentro de um enorme galpão ficam milhares de pneus de todas as medidas e aplicações existentes na linha de produtos da Pirelli. A propósito, os pilotos não analisam apenas os compostos da Pirelli. Pneus dos principais concorrentes também são avaliados.
Há também vários conjuntos de rodas e pneus montados para uso rápido nos testes. Processos como montagem, alinhamento e balanceamento ocorrem com os mesmos equipamentos encontrados nos centros técnicos da Pirelli espalhados pelo Brasil.
Uma câmara frigorífica mantém vários jogos de pneus sob temperaturas baixas. A intenção é preservar o estado das borrachas para evitar ressecamento e outros tipos de danos causados pela variação climática ou umidade.
Enfim, a hora de realizar os testes

Nosso teste avaliou dois jogos de pneus em um mesmo veículo – no caso, um Toyota Corolla. A Pirelli mantém uma pequena frota com veículos de diferentes faixas de valor e segmentos. Até carros elétricos são avaliados.
Cada aspirante a piloto recebeu uma ficha com alguns critérios a serem avaliados. Minha meta era verificar nível de ruído, conforto ao volante e respostas à direção. Obviamente foi só uma amostra da rotina de um piloto de testes, que precisa avaliar mais de 20 quesitos.
“Nosso objetivo é sentir cada detalhe do comportamento do pneu: conforto, ruído, aderência, estabilidade. É como um exame sensorial, em que qualquer mudança, por menor que seja, precisa ser percebida”, disse Xandão.
Normalmente, o piloto de testes realiza as medições sozinho no veículo. No entanto, desta vez fomos com o carro lotado.
Para manter as mesmas condições, as cinco pessoas permaneceram o tempo todo no veículo. Apenas o motorista era trocado, e cada um manteve a mesma posição dentro do carro enquanto não estava conduzindo.
Todos os pneus foram montados e calibrados segundo as recomendações da fabricante do veículo. Logo após a primeira bateria de testes, o carro voltou à oficina para montagem do segundo jogo de pneus.
Como foi o meu dia de piloto de testes

A primeira etapa aconteceu em uma pista perfeitamente asfaltada que simula uma estrada larga e bem pavimentada.
Cada piloto completou, pelo menos, duas passagens a três velocidades: 60, 80 e 120 km/h. Caso não estivesse satisfeito, era possível realizar novas rotações.
Durante cada passagem, Xandão nos orientou a realizar manobras de zigue-zague e desvios de trajetória para avaliar o comportamento de cada pneu.
A segunda parte da nossa jornada aconteceu na pista de conforto. Aqui, Xandão assumiu o volante e fomos de passageiro para poder avaliar melhor as diferenças entre os pneus.
Diferenças fáceis de notar – outras nem tanto…
Rapidamente notei diferenças entre os jogos de pneus. O primeiro conjunto teve um rodar silencioso em todos os tipos de piso. Filtrou melhor as imperfeições e entregou respostas rápidas em todas as vezes que virei o volante.
Já o segundo pneu era um pouco mais ruidoso do que o anterior, sobretudo no lado dianteiro esquerdo. As respostas à direção eram um pouco mais lentas, como se o carro se “arrastasse” mais para ir aonde o motorista queria. Ademais, era preciso fazer um pouco mais de esforço no volante para levar o carro até o local desejado.
Na pista de conforto, houve uma diferença brutal de ruído a favor do primeiro jogo de pneus, cujo comportamento foi confortável. O segundo conjunto foi tão ruidoso a ponto de atrapalhar o conforto acústico na cabine.
O pneu certo para cada tipo de veículo
No fim das contas, Xandão revelou que não havia defeito em nenhum dos conjuntos dos pneus, que tinham o mesmo nível de desgaste.
“Cada pneu tem especificações mais apropriadas para um determinado tipo de carro. Um pneu bom para um hatch esportivo pode não ser tão adequado para um tipo de veículo que prioriza conforto em vez de performance, como um sedã”.
Então a dica está dada: da próxima vez que você precisar trocar os pneus do seu carro, informe-se sobre as características de cada equipamento. Assim, as chances de escolher um pneu adequado para suas necessidades são maiores.
Agora você me dá licença porque preciso achar o contato do departamento de RH da Pirelli para enviar meu currículo…
