
Fim de semana ensolarado. Você convoca família ou amigos, pega sua picape ou SUV de mais de R$ 200 mil e chafurda em lugares onde muita gente nem arriscaria sujar o sapatênis. Isso é só um resumo de um rali da Mitsubishi, a principal estratégia de marketing da marca no Brasil.
Nestas provas, as pessoas se empolgam e investem tempo e dinheiro para colocar seus carros em situações inóspitas. Buraqueiras sem fim, pedras, lama, terra, ondulações. A vegetação raspa a lateral do veículo sem pena e toda a sorte de sujeira infesta tapetes e bancos trazidos pelos passageiros – ou melhor, integrantes de sua equipe.
Ao fim da prova, o carro parece saído de alguma zona de conflito da Ucrânia sob intenso bombardeio. Mal se decifra a cor da carroceria. Os praticantes exaustos, contudo, riem enquanto contam sobre a travessia. Riem independentemente de terem um lugar no pódio se foram desclassificados.
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Essa é um pouco da essência do Mundo Mit, nome mais que apropriado para o universo de ralis que a Mitsubishi promove entre clientes da marca. Tudo dentro daquela máxima do marketing conhecida: promover experiências e mostrar as capacidades do veículo da montadora em pista.
“A estratégia de colocar clientes próximos da gente é fundamental. Os eventos são a nossa essência desde que estamos no Brasil e os produtos que a gente produz têm muito a cara do país”, diz a diretora de marketing Marcia Neri.
Isso ficou evidente nas primeiras etapas de 2024 do Mitsubishi Outdoor e Mitsubishi Motorsports, em Itaipava, região serrana do Rio de Janeiro, em meados de março. Foram 650 participantes e mais de 200 carros divididos em quatro categorias diferentes.
E além dessa turma ficar feliz em maltratar sua picape ou SUV, ainda disputam um lugar para fazer isso. Segundo a HPE Autos, representante das marcas Mitsubishi e Suzuki no Brasil, as vagas para os ralis são limitadas e se esgotam em questão de segundos.
“É uma maneira para que possam testar e entender como funciona na prática nossos produtos em lugares em que eles não conseguiriam ir com outros veículos ,e ao mesmo tempo proporcionar uma experiência diferente e para a família”, conta a executiva.
Manter clientes para conquistar outros

Obviamente, com os ralis a Mitsubishi também quer atrair novos clientes. A cada etapa, são reservadas algumas vagas para potenciais consumidores que podem migrar para a marca japonesa.
Tais convidados são garimpados por meio da rede de distribuidores em um trabalho em conjunto com as áreas de publicidade, CRM e comunicação. Uma plataforma digital gera leads para as concessionárias. Os clientes que já tiveram contato com as lojas ou canais digitais, mas ainda não fecharam negócio, entram no radar.
Além disso, os patrocinadores dos ralis da Mitsubishi também têm cotas de convidados. “A experiência da conversão é muito importante. Adotamos estratégias para ter oxigenação e trazer novos clientes para experimentar os produtos, junto com clientes que estão há muito tempo com a marca”, explica Marcia.
A HPE não abre números quanto ao impacto das experiências no Mitsubishi Motorsports e Outdoor na conversão de novos consumidores. Mas a empresa garante que o índice é significativo, e também que a taxa de fidelização da marca é bastante elevada.
“Trabalhamos com tecnologias que as pessoas não veem, elas precisam sentir. Por isso, fazemos do rali uma espécie de laboratório de testes, mesmo para quem vai dirigir o carro na cidade e precisar do carro no ambiente do agro”, ressalta a diretora de Marketing da marca japonesa.
Como é participar do Mitsubishi Outdoor

Peço licença ao leitor para entrar na primeira pessoa, pois esta reportagem nasceu da minha primeira experiência no Mitsubishi Outdoor. Como um veterano no segmento automotivo, eu já participei de provas off-road de regularidade – inclusive da marca -, mas foi minha estreia nesta categoria que vai além do rali.
Faz-se necessário pontuar que a fabricante promove dois tipos de competições. A Motorsports tem três categorias (Pro, Turismo e Light), mais a ver com o rali tradicional e que permite a participação de qualquer veículo da fabricante com tração 4×4.
Já o Mitsubishi Outdoor tem duas categorias. A Extreme, com equipes que atuam sempre com dois carros, e a Fun, a mais indicada para iniciantes como eu. Ou melhor, como nós, pois as provas são um misto de rali e gincana e uma equipe se faz necessária.
Ciente de que a competição teria trilhas e outros desafios, tratei de garantir a melhor equipe que poderia ter: minha família. Então, à convite da HPE, a família Miragaya partiu a bordo de uma L200 Triton Savana para Itaipava.
Sob o irreverente nome Os Cinco Rodas, eu, minha esposa Luciana e os filhos Renan (33 anos), Giulia (21) e Theo (11) obviamente padecemos com a falta de experiência logo na largada, em um hotel à beira da BR-040, popularmente conhecida como Rio-Juiz de Fora (MG). Não levamos suporte para celular nem baixamos alguns destinos no Maps anteriormente para usarmos em áreas sem cobertura 4g ou 5g.
Perdidos sem mapa e sinal 4G

Mesmo assim, fomos com espírito de competição e desbravador para tentar fazer o máximo de pontos possíveis. O sistema de pontuação é bastante variado, com postos de passagem obrigatórios (que você tem de passar ao menos em um), outros que estão dentro do trajeto e mais alguns que garantem bônus importantes.
No meio disso tudo, provas que envolvem ciclismo e corridas/caminhadas por meio de trilhas. Claro, a picape ou SUV são os meios para se chegar aos pontos, a maioria no meio de estradas de terra ou mesmo dentro de propriedades rurais.
Ainda tem as tarefas, a parte mais divertida e lúdica. Tais desafios podem ser desde encontrar o QR code para dar um confere em um ponto específico (e para tal enfrentar, a pé, riachos e aclives), até participar de atividades como descobrir texturas de couro com os olhos vendados em um curtume ou decifrar as fragâncias de um perfume de um patrocinador do evento.
Tudo com o apoio de um mapa de papel e um smartphone com um aplicativo dedicado baixado, que orienta quanto ao tempo de prova, avisa quando você passa nos pontos de passagem e também das tarefas realizadas.
Matamos a primeira parada obrigatória de cara e seguimos para a primeira tarefa. Depois de passar com a picape L200 sem dificuldades por trilhas estreitas cheias de pedra e terra, alcançamos um moinho velho dentro de uma propriedade para garantir os pontos.
Porém, a inexperiência pesou novamente contra. É preciso traçar uma estratégia de percurso e priorizar certas paradas, pois é impossível cumprir todo o trajeto. Até porque se tem um tempo limite para entrar no rali e sair dele, dentro de uma área geográfica pré-estabelecida. A tolerância é de até 40 minutos, mas cada minuto desconta seus pontos.
Passamos em vários pontos mas depois de nos perdermos, insistimos em ir numa última tarefa. Dentro de uma propriedade, era preciso atravessar um lamaçal – que condenou nossos pares de tênis – e subir uma pirambeira de mais de 100 metros para encontrar a árvore com o QR code que dava o “confere” à prova.
Heroicamente, nossa equipe conseguiu cumprir a missão, mas estouramos o tempo. Para piorar, pegamos um comboio de caminhões no trajeto de volta que nos fez demorar ainda mais na volta para a base – contratempos que você tem de considerar antes de traçar a estratégia.
Mesmo desclassificados, chegamos realizados. Exaustos, com lama até o cabelo, mas realizados. Luciana, Renan, Giulia e Theo formaram um time excelente. Descobrimos que nossa pontuação de 1.600 nos deixaria entre os 20 primeiros da categoria Fun.
Nada mal para uma primeira vez. Sim, porque o objetivo da Mitsubishi com seus ralis funcionou com o time aqui. Todos querem voltar a participar de uma outra etapa.

