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Fiat Titano tem robustez, mas é quase uma volta no tempo no segmento

Ao mesmo tempo em que aguenta o tranco no fora de estrada, picape média peca no comportamento dinâmico e no conjunto mecânico
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Fernando Miragaya

18 mar 2024

7 minutos de leitura

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A Stellantis foi uma ótima para boa parte das marcas do megagrupo automotivo. A sinergia entre arquiteturas e motores e o intercâmbio que explora da melhor maneira o know-how de cada uma das empresas explicam muito do sucesso do conglomerado. Mas também impõem inventários nem tão funcionais assim, e a Fiat Titano é um exemplo disso.

Isso porque, no primeiro contato ao volante da nova picape média da marca italiana, ficou claro que o modelo está aquém do disputado segmento o qual pretende se inserir. Se por um lado tem custo-benefício e robustez, por outro a Fiat Titano parece uma volta no tempo quando se fala de dinâmica e desempenho.

Chamar o projeto de babélico seria exagero, mas se faz necessário alguns parágrafos de explicação. Vamos voltar um pouco no tempo e lembrar que a antiga PSA Peugeot Citroën era expert em fazer muitas parcerias para produção dos mais diferentes veículos: acordos com Toyota, MItsubishi e Iveco são só alguns exemplos.


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Pois bem. Em 2019, a PSA aproveitou sua joint venture com a chinesa Changan para fazer uma picape média derivada da Kaiceng F70. No mesmo ano, na Fenatran, a Peugeot deixou no ar que teria um modelo deste segmento, que foi apresentada globalmente em 2020 como Landtrek e o emblema do leão. 

Ainda no fim daquele ano, a picape foi lançada na América Latina importada da China e em 2021 passou a ser montada no Uruguai. No meio disso tudo, surgiu a Stellantis, fusão da PSA com a FCA (Fiat Chrysler Automóveis) e a promessa da picape chegar por aqui ainda como Peugeot.

Mas muita água correu de lá para cá. A montadora fez um trabalho intenso de adaptação do carro para o mercado brasileiro e o lançamento, previsto para 2022 (e, depois, para, 2023), foi postergado, ao mesmo tempo em que a Stellantis decidiu que a Landtrek ia ostentar a marca Fiat, muito mais experiente quando o assunto é picape.

Desse milkshake de caroço nasceu a Fiat Titano. Só que a mais recente das picapes média não é necessariamente a melhor, e o caro leitor vai entender um pouco.

Mas e aí? Afinal, como anda a Fiat Titano?

Peço desculpas, mas a sinopse da nova picape da fabricante italiana se faz necessária até para tentarmos entender porque o modelo decepciona em diversos aspectos. 

Automotive Business esteve no lançamento da Fiat Titano na Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso. E logo no início do bacana test drive de apresentação, pôde-se notar que a picape é diferente – no mau sentido.

Nas inocentes rotatórias em um curto trecho da MT-351 já foi possível estranhar a dinâmica da Fiat Titano. A carroceria entortou bem e o asfalto irregular se refletiu em sacolejos excessivos na cabine.

Mais curvas à frente e aumentou a percepção de como a Fiat Titano é desengonçada. Ainda no asfalto, em altas velocidades, a sensação de flutuação da carroceria incomoda. Claro que falo de uma picape feita sobre longarinas e não de um sedã sobre monobloco, só que diferentes modelos do segmento de médias avançaram neste quesito.

E não vou nem entrar no mérito da nova Ford Ranger, a melhor da categoria no momento. Rivais como Toyota Hilux, Chevrolet S10 e Mitsubishi L200 são muito mais equilibradas atualmente. Ao contrário da Titano, que lembra as gerações passadas destes modelos, ou seja: picapes médias dos anos 2000.

Fiat Titano: Motor não é o problema maior

Muito se especulou sobre o motor da Fiat Titano. Havia expectativa de que trouxesse algum conjunto novo e depois ficou claro que a saída seria equipar a picape com o 2.2 turbodiesel da linha Blue HDI de origem PSA. Por fim, os 180 cv deixaram a novata com um dos motores menos potentes da categoria.

Na prática, o conjunto não é tão fraco quanto se possa imaginar. Com a caçamba vazia, a Titano desenvolve de forma satisfatória, com acelerações dentro da normalidade e o suficiente se a proposta for usar o veículo para trabalhar na cidade ou fora dela. 

O que mais atrapalha o desempenho é o câmbio. Dirigimos apenas a opção topo de linha, Ranch, e a transmissão automática de seis marchas é bastante vacilante. Em médios giros, ela segura muito do ímpeto do motor 2.2, especialmente nas retomadas.

Ou seja, na hora de ultrapassar, é preciso certa paciência. Você pisa no pedal do acelerador e sente o barulho dos 40,8 kgfm de torque máximo se apresentarem já na faixa das 2.000 rpm. Contudo, a caixa automática demora a engatar a marcha apropriada.

Valentia no fora de estrada

Essa força toda resulta em uma picape boa para o fora de estrada. Não admira a Stellantis estar de olho nas vendas diretas para produtores rurais, especialmente das versões de entrada da Fiat Titano.

De robustez não se pode reclamar do modelo. No mesmo percurso de lançamento na Chapada dos Guimarães, a equipe da TSO não teve pena de testar os limites da Titano. No extenso trajeto off-road, a picape da Fiat lidou sem medo com os muito e generosos buracos e pedras.

Isso apenas com a tração 4×4 engatada por meio de um botão giratório à frente da “démodé” alavanca de câmbio – não usei a reduzida e o bloqueio do diferencial traseiro. Cada obstáculo foi vencido sem grandes dramas pela Titano, beneficiada pelo vão livre do solo de 23,5 cm e por ângulos de ataque e de saída de respectivos 29° e 27º. 

Pena que isso não se reflete em uma capacidade de carga mais generosa. São 1.020 kg nas versões automática e manual – menos do que boa parte da concorrência oferece e só um pouco acima do que a Toro turbodiesel leva (1.000 kg). 

Compensa com uma caçamba bastante ampla. Sempre na configuração cabine dupla, a Fiat Titano tem mais de 1,60 m de comprimento e de largura (cada) na área de carga, com altura superior a 51 cm. Isso resulta em um volume de mais de 1.300 litros.

Vida a bordo

Na cabine, a Fiat Titano agrada na maior parte do tempo. A posição de dirigir é funcional e o motorista tem ergonomia satisfatória para uma picape dessas proporções, além de boa visibilidade – a configuração Ranch avaliada oferece ajustes elétricos dos bancos dianteiros.

O acabamento em termos de qualidade é regular, e no quesito design não empolga, com muitos elementos conhecidos de outros Peugeot. Na verdade, só o miolo do volante da Titano foi mudado em relação à Landtrek. A central multimídia tem operação lenta e o isolamento acústico é falho.

O espaço para motorista e carona é generoso. Atrás, os passageiros ficam com os joelhos rentes aos encostos dianteiros e a posição é mais reta como na maioria das picapes médias rivais. Mas a largura favorece a acomodação de três adultos de estatura mediana.

Outros pecados estão na ausência de alguns equipamentos. O único item de assistência à condução é um alerta de saída de faixa, e só na Ranch topo de linha. Além disso, a multimídia não permite conexão sem fio com smartphones e o carregador de celular por indução só está disponível como acessório.

É com esse pacote que a Titano quer atuar na base do segmento de médias. O custo-benefício agrada, com preços entre R$ 220 mil e R$ 260 mil, a rede com 520 concessionárias favorece, assim como a experiência em vendas diretas. Elementos que podem superar uma picape que, no conjunto, oferece durabilidade de décadas atrás.