
Custo, inovação e sustentabilidade formam o tripé que pressiona a cadeia, exigindo que os fornecedores automotivos modernizem plantas e acelerem parcerias para manter a competitividade diante das importações.
Esse complexo desafio foi o tema central discutido no painel “O que é preciso para ser um grande fornecedor do ecossistema automotivo?”, durante a trilha Automotive Now no #ABX25 – Automotive Business Experience.
Inovação é caminho sem volta para fornecedores automotivos
A indústria automotiva brasileira está em um momento crucial de transição e busca de seus fornecedores por agilidade, competitividade e, acima de tudo, inovação tecnológica e compromisso com a sustentabilidade para prosperar, especialmente em um mercado global e local em constante mudança.
Em relação às capacidades fundamentais para fornecedores de grandes montadoras, o CEO da Pirelli América Latina, Cesar Alarcon, sublinhou a necessidade de três características primordiais: velocidade para acelerar o “time to market”, competitividade (especialmente frente a importadores com diferentes estruturas de custo) e ser um motor de inovação, oferecendo um diferencial tecnológico.
Complementando, Amaury Oliveira, vice-presidente de aftermarketing da Phinia, detalhou o grande desafio de equilibrar custo e inovação e enfatizou a busca por alternativas viáveis para a economia local, o desenvolvimento de novos produtos, tecnologias de fabricação e materiais.
Ele ressaltou a importância da colaboração com universidades e grandes entidades para fomentar a pesquisa. “Temos de pensar em inovação, na economia local e alternativas de materiais.”
Falta celeridade na validação por parte das montadoras
Já Melissa Mattedi, diretora geral da BorgWarner, apontou a velocidade e a parceria com a montadora como os maiores desafios.
Ela lamenta que a morosidade nos processos de validação e o custo envolvido frequentemente barram a implementação de novas tecnologias e materiais. Mesmo com o potencial de saving ou benefícios tecnológicos.
Quando questionados de que forma o Mover pode impactar os fornecedores, o programa foi amplamente discutido como um divisor de águas.
Alarcon destacou que o programa setorial chegou no momento certo para o Brasil, devido à crescente discussão global sobre novas tecnologias e veículos elétricos. Ele considera a iniciativa um acerto, evidenciado pelos recordes de investimentos das montadoras.
“O Mover trouxe também para toda a cadeia um desafio em termos de inovação, de trazer um produto mais aprimorado, com um componente de sustentabilidade muito mais harmônico.”
Além disso, para os executivos, o Mover cria uma vantagem tecnológica para o Brasil na América do Sul, pois estimula a produção de veículos nacionais com maior valor agregado.
A colaboração estratégica com as montadoras é um fator de importância crítica para a evolução tecnológica no setor automotivo, ressaltou Melissa. Para ela, as grandes montadoras são as detentoras tanto dos projetos de maior porte quanto do capital indispensável para o desenvolvimento e a validação de novas tecnologias.
Por isso que uma ideia concebida isoladamente por um fornecedor “nem sempre vai virar” ou prosperar sem esse apoio.
“Temos de estar próximos do que eles querem trazer e de que forma nosso produto se encaixa ou qual é o tipo de tecnologia que eles precisam para desenvolver em conjunto e usar de toda a expertise deles para poder conseguir o benefício.”
O componente da reciclabilidade é uma “oportunidade ótima” para empresas com forte viés de remanufatura como a Phinia, lembra Oliveira.
Impacto da agenda ESG nos fornecedores automotivos
Ao mesmo tempo, a agenda ESG remodela profundamente a relação entre fornecedores automotivos e montadoras. Melissa afirmou que a BorgWarner tem metas globais ambiciosas para ser 100% limpa até 2030, e sua planta brasileira é um case global em certificações, reciclagem e remanufatura.
Ela destacou que o ESG se tornou um dos quesitos para a seleção de fornecedores automotivos, mas ressaltou o desafio do investimento necessário, especialmente para os Tier 3.
“Estamos fazendo primeiro o trabalho em casa, mas com certeza é um quesito também a ser trabalhado com o fornecedor”, explica Melissa.
Para o CEO da Pirelli, a agenda ESG “não tem que ser moda, nem greenwashing”, mas uma adaptação de toda a cadeia, impulsionada pelas montadoras e, em última instância, pelo consumidor.
Alarcon citou as práticas da Pirelli, como o 100% de reaproveitamento de água, a certificação por satélite das fontes de borracha natural para combater o desmatamento e a coleta diária de mais de 100 caminhões de pneus em fim de vida para reutilização energética.
Brasil como polo exportador de tecnologia
Para os três fornecedores não há dúvidas do potencial exportador do Brasil. O turboflex da BorgWarner, por exemplo, indica a capacidade brasileira de exportar tecnologias relacionadas a veículos híbridos e híbridos flex, com o etanol como fonte alternativa.
“Dentro da própria BorgWarner, é sempre um case de sucesso quando a gente fala do turboflex, que equipa os carros tanto a diesel quanto a etanol”, conta.
Da mesma forma, engenheiros brasileiros da Phinia exportam tecnologias de injetor aquecido e hidrogênio. “Estamos sendo vistos muito mais como um polo potencial para tecnologia do que éramos anteriormente, trocando conhecimento em vez de apenas recebendo”, afirma Oliveira.
No caso da Pirelli, o maior centro de P&D da fabricante de pneus fora da Itália está em São Paulo, devido à expertise consolidada de profissionais brasileiros que não só alimentam o mercado doméstico, mas também as exportações e apoiam fábricas globais.
“Onde a gente recebia muita tecnologia, hoje a gente está trocando tecnologia”, celebra Alarcon.
O CEO revela que a Pirelli investe em pesquisa e desenvolvimento para modificar as propriedades da borracha natural. O objetivo é substituir o sintético (derivado do petróleo) pelo natural na composição de pneus, após uma transformação das características químicas.
“Sustentabilidade é um conceito que cada vez mais as montadoras e o consumidor estão exigindo.”
Alarcon também afirma que a Pirelli fez uma a parceria com a Bosch com foco no desenvolvimento no campo digital.
O objetivo é que o pneu, sendo o ponto de contato do carro com o chão, possa recolher informações. Essas informações seriam então traduzidas como um elemento diferencial na dirigibilidade e no comportamento do veículo, utilizando a eletrônica e o mapeamento do motor.
Panorama de produção e investimentos no Brasil
O encerramento do painel trouxe um panorama otimista sobre as operações e investimentos das empresas no Brasil. Para Melissa, o momento atual é “ótimo” para a BorgWarner no país, impulsionada pela descarbonização e pela crescente adoção de turbocompressores.
A produção, segundo a executiva, está em plena capacidade, com a fábrica preparada para a eletrificação, apta a replicar projetos globais e a atender também o mercado de reposição.
Na Pirelli, Alarcon destacou a estratégia focada em investimentos para a conversão da capacidade produtiva. O objetivo não é o volume puro, mas sim aumentar o valor agregado dos produtos para evitar a “comoditização” e alcançar consumidores dispostos a valorizar e pagar por diferenciais tecnológicos.
Já a fábrica da Phinia, em Piracicaba (SP), está com investimentos significativos, com uma nova linha de produção voltada para o desenvolvimento de baixo carbono.
O vice-presidente de aftermarketing da empresa planeja dobrar o tamanho do mercado de reposição no Brasil até 2030, impulsionado pela remanufatura, além de modernizar sua unidade em Brusque (SC) para os futuros desafios.