
A Kia parece não ter desistido de produzir veículos em solo brasileiro, um sonho antigo que remonta a 1996, quando a companhia havia fechado acordo com o governo brasileiro para instalar fábrica em Camaçari (BA), onde produziria modelos da marca subsidiária Asia Motors.
Aquele projeto foi por água abaixo e deixo marcas, como uma dívida bilionária com o Estado, e a montadora seguiu vendendo veículos no mercado brasileiro por meio da parceria comercial com o Grupo Gandini, que importou veículos para cá desde então. Acontece que essa parceria pode estar dando lugar a uma operação sol o da Kia no país, assim como fizeram outras marcas asiáticas recentemente.
A Kia está negociando com o governo brasileiro desde o início do ano, mais precisamente com a Procuradoria Geral da União, a seguinte jogada: a instalação de uma fábrica no Brasil como contrapartida de um perdão da dívida que a montadora contraiu nos ano 1990 e que perdura até os dias de hoje.
O plano, revelado pelo canal online A Roda na sexta-feira, 17, foi confirmado pelo empresário José Luiz Gandini, do Grupo Gandini, à Automotive Business. O executivo foi avisado por representantes da Kia Corporation que esta negociação está em curso, e que não há nenhuma definição a respeito do fim da parceria que dura 32 anos, nem a respeito da eventual fábrica no país.
À reportagem, Gandini disse que não foi pego de surpresa pela notícia e que espera uma definição da Kia a respeito do futuro da parceria. Contou, ainda, que desde o começo do ano busca uma espécie de Plano B para o caso do Grupo Gandini perder a titularidade sobre a venda de veículos Kia no mercado local.
“Estamos conversando com outras marcas, é natural isso. O ideal para nós é que um eventual parceiro, no futuro, tenha interesse em produzir veículos no Brasil. Com a Kia vimos que a carga tributária inviabilizou o avanço da marca no mercado em termos de volume de vendas”, disse Gandini. “Mas não tem nada fechado ainda”, completou.
A ideia da Kia produzir no Brasil é algo que faz sentido para o executivo. “Sem os impostos [de importação] a marca consegue ter volume de vendas que justifique uma produção local”, contou.
A saga da Kia começou no Brasil em 1994 com a importação de veículos Asia Motors que faziam relativo sucesso no país naquele momento, como era o caso dos utilitários Topic e Towner.
Entre 1996 e 1997 a empresa apresentou um plano de investimento local que contava com uma fábrica em Camaçari, a qual seria erguida por meio de um aporte de US$ 500 milhões. A pedra fundamental do empreendimento chegou inclusive a ser lançada em 1997.
Com o projeto na manga, a empresa passou a importar carros com isenção fiscal. Em 1998, o governo brasileiro declarou que não estavam sendo cumpridas as contrapartidas acordadas para que a companhia pudesse seguir desfrutando dos benefícios e, então, os cancelou.
Esse cancelamento, movido principalmente pelo fato da Kia/Asia Motors nunca ter construído a fábrica em Camaçari, gerou a dívida milionária que, até hoje, não foi paga. No terreno, tempos depois, a Ford acabou erguendo uma fábrica para produzir EcoSport e outros modelos.
Agora, surge a possibilidade de reduzir o valor dessa dívida de R$ 6 bilhões para R$ 2 bilhões, disse Gandini. “É uma oportunidade, mas ainda tudo está sendo negociado, absolutamente tudo”, finalizou o executivo.
