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Direto do SXSW: O capitalismo está em seu estágio final e o que isso tem a ver com o setor automotivo

Futurista Amy Webb afirma que automação e inteligência artificial estão redefinindo produção, consumo e relações de trabalho
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Bruno de Oliveira

16 mar 2026

4 minutos de leitura

O futurismo é uma prática muito comum nos Estados Unidos e consiste na figura de um especialista em determinado assunto que se arrisca no campo do pitaco corporativo. Amy Webb é uma das mais célebres do país e na manhã de sábado, 14, durante o SXSW, cravou que o capitalismo está em seu estágio final.

Mas antes de seguir com o tema e os argumentos que a conduziram a essa conclusão, vamos às apresentações. Webb é fundadora do Future Today Strategy Institute (FTSG), uma empresa de pesquisa que analisa tendências tecnológicas e publica relatórios anuais sobre o futuro da tecnologia.

Ela também é professora na New York University Stern School of Business, onde leciona sobre inovação, e tem diversos livros publicados sobre o tema. Com tamanho currículo, os pitacos de Webb são bem vistos no mercado e suas palestras costumam ter grande procura em eventos como o South by Southwest.

Economia global afetada pela automação

Dito isso, a mais recente previsão da futurista versa sobre o estágio final do capitalismo, no qual a economia e as relações sociais serão profundamente impactadas pela automação quase que total dos meios de produção e pelas ferramentas que utilizam Inteligência Artificial (IA) no lugar da interação humana.

A busca eterna por redução de custos operacionais ganha mais força agora com a disputa de potências mundiais por hegemonia, como é o caso dos embates entre China e Estados Unidos. O cenário, segundo a futurista, levará as empresas optarem por esse cenário de robotização das linhas de produção.

O quadro traz algumas preocupações no seu cerne. A lógica do crescimento econômico por meio do trabalho humano, por exemplo, é subvertida, uma vez que mais robôs, nesse contexto, venham a substituir a mão de obra de funcionários de carne e osso.

A queda do consumo é quase inevitável se as pessoas perderem seus salários, e isso poderia afetar a economia global.

Robôs já são realidade em fábricas na China

Amy não está tão longe da realidade com essa previsão. Na China, a fábrica da Tesla é altamente automatizada e não há dúvidas a respeito de como isso ajudou a companhia a ser tão competitiva no mercado local até que a guerra de preço travada com as marcas locais eclodisse de forma a fazer a empresa perder o espaço cativo de outrora.

Com a ascensão dos robôs humanoides, não foram poucas as montadoras de veículos que cresceram os olhos na possibilidade de se produzir mais e mais barato com o auxílio deles. Amy Webb, inclusive, chegou a mencionar no SXSW o conceito da moda Dark Factory, usado para descrever fábricas operadas apenas por robôs no ritmo 24 por 7.

A Rivian, uma jovem montadora baseada nos Estados Unidos, é um exemplo de empresa que nasceu com este propósito, praticando um modelo de produção e de desenvolvimento que usa a automação para reduzir custos.

No seu caso, a redução vem da aplicação e exploração de serviços por meio de software em seus dois modelos disponíveis no mercado, o utilitário R1S e a picape R1T, ambos elétricos.

Com veículos definidos por software, o produto não fica “congelado” no lançamento. Ele pode ser atualizado continuamente via OTA (sigla para over-the-air), melhorando funcionalidades depois que o carro já foi vendido.

IA reduz custos de desenvolvimento de veículos

Isso implica, segundo Wassym Bensaid, chefe da área de software da empresa que também participou de debates no SXSW, em menor necessidade de mudanças físicas no veículo, possibilidade de adicionar recursos sem novo hardware e viabiliza um ciclo de desenvolvimento mais rápido.

O desenvolvimento do carro em torno do software simplifica também a cadeia de fornecedores, algo que também é possível por meio da eletrificação e a menor quantidade de componentes em sua construção. Com menos peças e provedores na cadeia, as coisas ficam mais fáceis de gerenciar e, portanto, mais baratas.

E adivinhem quem pode escrever os códigos do software que representa o coração desses tipos de veículos. Quem levantou a mão e respondeu Inteligência Artificial, acertou.

Automação não declara fim do capitalismo

Isso é interessante porque converge com as previsões apresentadas por Amy Webb. O estágio final do capitalismo apresentado por ela é marcado também pela presença da IA na realização de tarefas que, antes, estavam nas mãos dos humanos, como é o caso da produção de linhas de comando em softwares.

Não apenas isso. A IA também será vista como responsável pelo aumento da desigualdade técnica entre profissionais. Os que têm acesso ao uso de ferramentas que melhoram produtividade, descanso e cognição serão mais competitivos no mercado de trabalho do que aqueles que não as tem — abalando, novamente, as estruturas econômicas.

As projeções da futurista, claro, são hipotéticas e não declaram o fim do capitalismo, mas a sua faceta mais extrema. Para que a população mundial não sinta na pele os efeitos negativos do quadro proposto por Webb, ela sugere que mudanças regulatórias e institucionais são fundamentais para evitar efeitos desastrosos. Vamos conseguir?