
O quarto e último capítulo da série “A Nova Rota da Mobilidade” mostra que a transformação provocada pelo avanço chinês e pela eletrificação não se limita às montadoras. Ela altera toda a lógica de competitividade do setor automotivo e impõe mudanças estruturais para fabricantes, concessionárias, fornecedores, bancos e empresas de serviços.
Ao longo desta série publicada pela Automotive Business, mostramos como a indústria automotiva global atravessa uma mudança histórica. Primeiro, pela ruptura geopolítica e tecnológica que abriu espaço para novos protagonistas. Depois, pela construção do ecossistema chinês e o avanço acelerado das marcas chinesas no Brasil.
Agora, a discussão deixa de ser “se” essa transformação acontecerá. A questão passa a ser quem conseguirá se adaptar mais rápido ao novo ambiente de mecado.
Eletrificação como fundamento básico da indústria automotiva
O primeiro aprendizado é claro: a eletrificação deixa de ser apenas uma tendência de produto para se tornar um elemento central da competitividade da indústria automotiva.
A convergência entre regulamentações ambientais, evolução tecnológica, pressão por eficiência energética e mudança no comportamento do consumidor cria um cenário no qual os veículos eletrificados ganham relevância estrutural no mercado.
Isso não significa o fim imediato dos motores a combustão, especialmente em mercados como o brasileiro, mas indica uma mudança definitiva de direção.
Mais do que vender veículos eletrificados, as empresas precisarão desenvolver competências relacionadas a software, conectividade, gestão energética e experiência digital do usuário.
Convivência com o modelo operacional chinês
Ao mesmo tempo, há um segundo movimento igualmente relevante: a convivência inevitável com o ecossistema automotivo chinês.
Independentemente de posicionamentos ideológicos ou comerciais, a China consolidou liderança em áreas estratégicas da nova mobilidade, especialmente em baterias, eletrificação, conectividade, cadeia de suprimentos e velocidade de desenvolvimento de produto.
Definitivamente o eixo da indústria automobilística se moveu para a Ásia. Para sobreviver, as operações tradicionais brasileiras devem incrementar a relação com empresas chinesas e, nos próximos anos, veremos o crescimento de alianças estratégicas, joint ventures, produção local, plataformas compartilhadas ou acordos industriais que tenderão a ocupar a capacidade ociosa hoje existente no Brasil. O Modus Operandi dos participantes do mercado muda consistentemente e quem não o entender e se adaptar rapidamente corre grande risco de perder posição de mercado.
Profundo impacto para as empresas tradicionais
Será necessário acelerar ciclos de desenvolvimento, rever estratégias de portfólio e conteúdo, aumentar eficiência operacional e competir em um ambiente com pressão crescente de aumento de custos devido ao aumento de tecnologia embarcada em paralelo com uma redução de preços. Essa equação, na dimensão que se apresentará é nova para o setor automotivo brasileiro
A competição deixa de acontecer apenas entre marcas tradicionais e passa a envolver empresas com estruturas mais leves, maior velocidade de execução e forte domínio tecnológico.
Em muitos casos, alianças estratégicas com fabricantes chineses deixam de ser opção para se tornar alternativa de sobrevivência.
Os headquarters de empresas tradicionais precisam se acostumar, a partir de agora, que investimentos aumentarão e retorno de dividendos diminuirão no horizonte dos próximos 10 anos. Caso não reconheçam isso, os protagonistas que conhecemos desaparecerão.
Disrupção no processo de venda dos veículos
O impacto também chega de forma intensa ao varejo automotivo. As concessionárias entram em um novo ciclo de transformação, marcado por mudanças no modelo comercial e na relação com o consumidor.
Entre os principais desafios estão:
• necessidade de diversificação de portfólio
• adaptação aos modelos de venda omnichannel
• maior foco em serviços e pós-venda
• redução das margens nos veículos novo
• corrida por aumento da participação de vendas de veículos usados.
• aumento da complexidade técnica dos veículos
Ao mesmo tempo, surgem novas oportunidades.
Veículos mais tecnológicos, conectados e com garantias mais longas ampliam o potencial de retenção de clientes e aumentam a relevância dos serviços no resultado das operações. E aqui os novos entrantes levam desvantagem em relação aos tradicionais, habituados ao mercado.
O pós-venda tende a ganhar papel ainda mais estratégico dentro da rentabilidade do negócio e principalmente no futuro reconhecimento da marca.
Reestruturação mundial de escala e disputas comerciais
No plano global, a transformação também reposiciona geografias.
Como destacado anteriormente a Ásia consolida-se como principal centro de inovação, escala e competitividade da indústria automotiva mundial.
Já mercados como o Brasil passam a assumir relevância crescente como plataformas de expansão, produção regional e disputa comercial.
Isso cria oportunidades importantes para o país, especialmente em industrialização, atração de investimentos e, esperamos, para parte da cadeia de suprimentos.
Condição essencial para a competitividade futura no mercado brasileiro: velocidade de adaptação
A nova rota da mobilidade não é apenas tecnológica.
Ela redefine cadeias de valor, altera relações competitivas, muda o equilíbrio global da indústria e exige capacidade rápida de resposta, coisa que os processos ocidentais das montadoras e autopeças tradicionais ainda não conseguem executar.
Daqui para frente, a diferença estará menos em quem participa do setor automotivo — e mais em quem consegue acompanhar a velocidade dessa transformação.
| “A Nova Rota da Mobilidade” é o único projeto de cenários prospectivos que abrange de forma consistente e robusta os aspectos apresentados nesta série de artigos e principalmente detalha o “como” atuar para se ajustar aos tópicos estratégicos detalhados neste artigo. A sobrevivência do seu negócio só estará segura se o contexto de A Nova Rota da Mobilidade fizer parte das suas discussões diárias a partir de agora. Se você deseja confirmar suas estratégias de futuro nesta nova era, fale com a Bright Consulting: [email protected]. Este quarto capítulo encerra a série exclusiva produzida para a Automotive Business com base no workshop da Bright Consulting: “A Nova Rota da Mobilidade”, disponível na íntegra para empresas interessadas. |
Paulo Cardamone, CEO da Bright Consulting, escreve com exclusividade para a Automotive Business e convida você a acompanhar a série A Nova Rota da Mobilidade. Este é o quarto e último artigo da série. Confira os artigos já publicados:
1- A nova rota da mobilidade começa fora do eixo tradicional
2- O ecossistema chinês: mais rápido que o resto do mundo
3- A chegada ao Brasil: até onde vai a expansão chinesa

Paulo Roberto Cardamone ([email protected]), 71 anos, é CEO da Bright Consulting, com mais de 45 anos de experiência no setor automotivo, atuando em planejamento estratégico, eletrificação, cadeia de suprimentos e mobilidade. Apoia clientes em cenários futuros, investimentos e alianças. Desde 2010, assessora o governo brasileiro em políticas de competitividade, eficiência energética e segurança nos programas Inovar Auto, Rota 2030 e Mover. É graduado em Estatística (Unicamp), com MBA pela USP, membro do Comitê Automotivo da Amcham e da SAE.
*Este texto traz a opinião de quem o assina e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.
