
A Bosch está aproveitando o bom momento de sua operação na América Latina para acelerar investimentos e ampliar sua participação no mercado regional. Depois de fechar 2025 com faturamento de R$ 11,6 bilhões na região — dos quais R$ 9,4 bilhões vieram do Brasil — a companhia anunciou um aporte de R$ 1 bilhão em 2026 para projetos de digitalização, pesquisa, desenvolvimento e expansão industrial.
Uma das prioridades será aumentar a nacionalização de componentes. Em Campinas (SP), a Bosch passará a fabricar localmente placas eletrônicas que hoje são importadas e iniciará a produção de motores elétricos utilizados em aplicações automotivas. A estratégia ganha relevância em um cenário de crescente eletrificação dos veículos e de avanço das montadoras chinesas no mercado brasileiro.
Segundo Gastón Diaz Perez, CEO da empresa na região, os carros vindos da China já chegam ao país com forte presença de tecnologias Bosch embarcadas. O próximo passo é trazer parte desse conteúdo para a produção local. “O desafio está na nacionalização”, resume o executivo, que está confirmado no #ABX26, evento que reunirá todo o ecossistema da mobilidade em 1º de outubro, em São Paulo (SP).
A eletrônica, aliás, está no centro dessa nova fase. A Bosch já produz no Brasil componentes utilizados em veículos híbridos flex, como as unidades eletrônicas de controle (ECU) e os módulos de gerenciamento veicular (VCU), responsáveis por coordenar o funcionamento dos motores elétricos e de combustão.
A empresa também observa uma mudança estrutural na indústria com a chegada dos chamados veículos definidos por software. Nesse modelo, poucas centrais computacionais substituem dezenas de módulos eletrônicos espalhados pelo carro, permitindo atualizações remotas e integração cada vez maior entre hardware e software.
Segundo Perez, essa tecnologia deve ganhar espaço rapidamente, impulsionada principalmente pelas fabricantes chinesas.
Fora do setor automotivo, a companhia iniciará a produção de baterias para ferramentas elétricas no Brasil, reduzindo a dependência das importações asiáticas e fortalecendo a cadeia local de suprimentos.
Outro pilar da estratégia está na formação de talentos. O Brasil já figura entre os três principais polos globais de desenvolvimento digital da Bosch, ao lado de Índia e Polônia. A operação brasileira conta atualmente com cerca de 1.300 profissionais dedicados a software, automação e inteligência artificial, área que continua em expansão mesmo com o avanço das ferramentas de IA.
Na entrevista abaixo, o CEO da Bosch fala sobre nacionalização, formação de talentos e como a presença de marcas chinesas no Brasil estão impulsionando a produção local de componentes eletrônicos.
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Automotive Business – Há alguma iniciativa relacionada à nacionalização de baterias? Isso ajuda a reduzir a dependência da Ásia e pode ser uma resposta a um cenário global mais fragmentado?
Gastón Diaz Perez – O tema das baterias ainda é complexo porque a produção global está fortemente concentrada na China, inclusive quando olhamos para mercados como Europa e Estados Unidos.
Hoje, nossa iniciativa de produção local está focada no segmento de ferramentas elétricas. Neste ano, começamos a fabricar baterias no Brasil para equipar ferramentas sem fio, o que faz parte do nosso plano de investimentos para a região.
No caso das baterias automotivas de alta voltagem, a Bosch não atua globalmente como fabricante. Ainda assim, acompanhamos de perto os movimentos do mercado e as discussões sobre a nacionalização dessa cadeia produtiva.
AB – A chegada das montadoras chinesas representa mais oportunidades para a Bosch no Brasil?
Sem dúvida. As montadoras chinesas estão chegando ao Brasil de forma rápida e com forte presença no mercado.
Para a Bosch, isso é positivo porque muitas dessas empresas já são nossas clientes na China. Os veículos que elas trazem para o Brasil já possuem um elevado conteúdo tecnológico fornecido pela Bosch.
O principal desafio agora é nacionalizar parte desse conteúdo. Estamos trabalhando para transferir componentes e sistemas que hoje vêm da China ou de outras operações globais para a produção local.
Partimos de uma posição favorável porque os veículos já utilizam nossas tecnologias. O próximo passo é ganhar competitividade para produzir cada vez mais desses componentes no Brasil.

AB – A Bosch conseguiu avançar na nacionalização de produtos para o setor automotivo?
Sim. Os investimentos que estamos realizando estão diretamente ligados à substituição de componentes importados por produção local.
Um dos principais focos é a eletrônica automotiva. Em Campinas, passaremos a fabricar placas eletrônicas que antes eram importadas. Embora os semicondutores continuem vindo de fornecedores globais, toda a montagem das placas será realizada localmente.
Esse movimento é estratégico porque a eletrônica representa uma parcela cada vez maior do conteúdo dos veículos.
Também estamos investindo na produção local de motores elétricos de baixa voltagem destinados a clientes brasileiros. Esses produtos eram importados e passarão a ser fabricados no país a partir de 2026.
AB – Como a Bosch está preparando mão de obra para essa transformação tecnológica?
A formação de talentos é um dos pilares da nossa estratégia. Ao longo dos últimos anos, investimos fortemente em programas de capacitação, desde cursos tradicionais de mecatrônica até iniciativas voltadas para digitalização, software e automação.
Hoje, o Brasil já está entre os três principais hubs globais de digitalização da Bosch. Esse reconhecimento é resultado direto do investimento contínuo no desenvolvimento de profissionais qualificados.
Além de contratar talentos no mercado e nas universidades, estamos ampliando nossos programas próprios de formação. Isso inclui cursos específicos para a área de eletrônica, que exige competências diferentes da manufatura automotiva tradicional.
Nosso objetivo é garantir uma base contínua de profissionais preparados para atender às novas demandas da indústria, assim como um clube de futebol investe em suas categorias de base para formar futuros jogadores do time principal.
AB – O avanço da inteligência artificial muda a estratégia da Bosch para formação de programadores e profissionais de software?
A inteligência artificial está transformando a forma como desenvolvemos soluções e certamente aumenta a produtividade das equipes. No entanto, até o momento, ela não reduziu nossa demanda por talentos.
Pelo contrário. À medida que ganhamos novos projetos globais, continuamos precisando formar e contratar profissionais qualificados.
Hoje temos cerca de 1.300 colaboradores atuando na área digital e seguimos investindo na formação de novos talentos. A demanda permanece forte porque, embora algumas tarefas possam ser automatizadas, a implementação de soluções continua exigindo profissionais especializados.
Além disso, o Brasil tem se destacado dentro da Bosch global. Algumas ferramentas desenvolvidas por equipes brasileiras já são utilizadas em operações da companhia ao redor do mundo.
Esse é o resultado de uma estratégia de longo prazo. Investimos na formação de talentos e agora começamos a colher os frutos, com o Brasil assumindo um papel de liderança em digitalização e inteligência artificial dentro do grupo.
