
“Simplesmente não ligo se alguém tem um problema por eu ser mulher e estar na posição em que estou”, diz Larisa Gambrell, 54, presidente da DAF Brasil desde maio deste ano. O posicionamento resume bem o jeito pragmático com que a executiva conduz a própria carreira até alcançar o posto de única mulher à frente de uma marca de caminhões no Brasil.
Finlandesa, ela estudou economia e fez MBA em estudos internacionais. Há 18 anos ela entrou na organização com foco em chegar a uma cadeira de vice- presidência. Desde então, enfrentou a síndrome da impostora em diversas ocasiões e viu que, de fato, há uma série de desafios em relação à equidade de gênero no mercado de caminhões, mas chegou – e passou – da meta que tinha em mente.
Nem tudo é sobre dinheiro, diz presidente da DAF Brasil
“Quando entrei na DAF, não sabia nada sobre caminhões, mas buscava uma empresa internacional, onde tivesse boas oportunidades e pudesse crescer”, conta Larisa. Quando passou na vaga na companhia, diz ter topado ir trabalhar lá por um salário menor do que ganhava na época por entender que, no futuro, a aposta ia se pagar. “Comecei de baixo e fui crescendo”, diz.
Inclusive, essa é uma recomendação de carreira que a executiva dá sem pensar duas vezes: “Não coloque todo o seu valor no dinheiro”. Para ela, trajetórias bem sucedidas vão além disso e, no fim das contas, serão recompensadas financeiramente. A segunda dica da executiva, especialmente às mulheres, é assumir riscos, deixar o medo de lado. “Tenho síndrome da impostora toda vez que conquisto um novo cargo, mas vou em frente e ela passa”, lembra.
E, convenhamos, foram muitos desafios ao longo dos anos dentro da organização. Não teve jeito: a impostora acabou derrotada.
A executiva começou no pós-venda para clientes internacionais, passou para área de exportação e, depois, para vendas. Entrou em um programa de desenvolvimento de lideranças da companhia e, em 20 meses, teve a chance de atuar em 13 divisões em várias operações da companhia mundo afora.
Ela não conhecia o Brasil antes de assumir como a primeira presidente mulher de uma montadora de caminhões aqui, mas não parece enfrentar dificuldade de adaptação. Em seis meses estudando, Larisa já entende muito bem português e fala sem grande dificuldade. A bagagem multicultural deve ter ajudado. A executiva é filha de pai finlandês e mãe equatoriana, passou boa parte da vida na Suécia e morou mais de 30 anos nos Estados Unidos. Também teve passagens pelo equador
Crescimento da DAF e da participação das mulheres
Larisa conta que seu objetivo é fazer a DAF crescer localmente com consistência. Em 11 anos no mercado nacional, a fabricante de caminhões mais jovem do país já responde por 10% das vendas do segmento – uma marca e tanto para um mercado tão conservador. Ela conta que a meta é seguir conquistando espaço para a marca ao ritmo de meio a um por cento de market share por ano.
Atualmente, a fábrica da empresa em Ponta Grossa (PR) produz 46 caminhões por dia. A companhia investe ali US$ 395 milhões até 2026 para ampliar a capacidade produtiva e, em paralelo, também trabalha na expansão gradual da rede de concessionárias. Dos 75 pontos espalhados pelo país, a meta é chegar a 100 até 2029.
“Brasil é um grande mercado, com grandes oportunidades. A verdade é que cada país tem desafios específicos, mas, no fim, as grandes questões são as mesmas: a concorrência acirrada, a busca por eficiência energética e por atender bem o nosso cliente”, analisa. Por isso, segundo ela, o melhor é focar no próprio plano e não sair dele.
E, como primeira mulher à frente de uma fabricante de caminhões no Brasil, Larisa diz estar focada em um desafio adicional. “É parte do meu papel atrair mais talentos femininos para a indústria”, diz. E, dessa vez, sem síndrome da impostora: “É uma honra estar nessa posição, mas trabalhei muito para chegar aqui”, conclui.
