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Redução do IPI é inócua e vendas de veículos seguirão retraídas

Estudo mostra que guerra e falta de semicondutores também vão impactar negativamente o setor automotivo
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Fernando Miragaya

04 mai 2022

4 minutos de leitura

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O cenário se mostra bastante conturbado para o setor automotivo a curto e médio prazos – para não escrever “muito desanimador”. No Brasil, a alta de juros, o baixo poder aquisitivo e as restrições ao crédito vão frear o crescimento. A guerra na Ucrânia e suas consequências no fornecimento de semicondutores ainda deve piorar mais as perspectivas para a indústria no Brasil – e no mundo. 


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Esse futuro nebuloso foi traçado no painel “Pós-pandemia, guerra e retração econômica: as projeções para veículos leves no Brasil”, durante o #ABPlan – Planejamento Automotivo, promovido pela Automotive Business. Na exposição mediada por Giovanna Riato, editora Executiva da AB, Fernando Trujillo, principal consultant da S&P Global, mostrou que as perspectivas para o setor são bastante desafiadoras. 

“São vários os fatores que têm impactado nossa indústria e deixado muita gente com cabelo branco. Covid, interrupções de fornecimento, desaceleração da economia, aumento do preço de commodities, redução da acessibilidade ao veículo. Com isso, revisamos os números para os próximos anos”, explicou Trujillo.

Efeitos globais

Globalmente, a indústria já sente o baque da falta de semicondutores desde o início da pandemia, em 2020. Segundo Fernando Trujillo, só do ano passado para cá, 10,7 milhões de veículos deixaram de ser feitos pela falta dos chips automotivos.

Com o conflito na Ucrânia, a S&P Global se viu forçada a revisar – para baixo – o forecast de produção para 2022 em todo o mundo. Pelas projeções, o crescimento na fabricação de veículos deverá ser de 4,4%, com 80,6 milhões. Desta forma, serão 2,32 milhões de carros a menos em 2022, e 9 milhões de déficit de unidades até 2024.

“Esse ano teremos desaceleração global por dois fatores principais. Um deles, o resultado da guerra, altamente incerto ainda, mas com danos econômicos para ambos os países, que serão substanciais e duradouros. O segundo são as políticas monetárias e fiscais em várias regiões, para combater a inflação”, explicou o executivo.

Restrições ao crédito no Brasil

Para o mercado brasileiro, ainda há agravantes. De acordo com o levantamento da S&P, o crédito para aquisição de veículos se deteriorou no Brasil nos últimos anos. Segundo Trujillo, a alta da Selic para 11,75% faz com que o crédito para aquisição de veículos atinja 27% ao ano, e ainda há uma perspectiva de que a taxa de juros suba para 13,5% em setembro.

“O aumento da Selic deve continuar para conter as pressões inflacionárias e cambiais. Então, como consequência, podemos esperar um aumento da taxa de juros no setor automotivo também”, acredita.

Além disso, a disponibilidade de crédito é outro ponto negativo para o mercado de automóveis. A alta da inadimplência, de aproximadamente 4%, faz com que os bancos fiquem mais cautelosos e direcionem as carteiras para classes mais altas. “Na nossa visão, está havendo uma restrição de crédito para a grande massa de consumidores de veículos no Brasil”, revela o consultor.

Tem ainda a alta desenfreada dos preços, especialmente após o início da pandemia, em março/abril de 2020, agravada pelos lockdowns, quebras de fornecimento de componentes e aumento dos custos logísticos. Além disso, houve pressão do crescimento do conteúdo tecnológico dos carros, do aumento no custo de produção e da mudança de estratégia das montadoras, que passaram a priorizar segmentos com margens maiores.

Diante deste conjunto complexo de fatores, o mercado brasileiro de veículos leves deve amargar pelo terceiro ano consecutivo um desempenho abaixo das 2 milhões de unidades. A perspectiva da S&P é para um 2022 com um total de 1,99 milhão de unidades, com projeção de 2,18 milhões para 2023.

Nem mesmo a redução IPI surtiu efeito prático na venda de veículos. “Não adianta reduzir três, quatro por cento no preço do veículo se o público perdeu poder de compra e acesso ao crédito”, critica Fernando Trujillo.

Na mão dos semicondutores

Quanto à produção, a S&P trabalha com um cenário de normalização no abastecimento de semicondutores só para meados de 2023. Desta forma, projeta uma produção de 2,27 milhões de unidades, caso o aumento da capacidade de fornecimento de chips se confirme. 

Diante disso, a S&P trabalha com dois cenários diferentes. No “otimista”, a previsão é de incremento na produção de 120 mil unidades entre 2022 e 2024, com uma retomada mais acelerada nas linhas de montagem. A base para essa projeção é o abastecimento de semicondutores vindos da Malásia e a expectativa de a indústria automotiva ser mais priorizada nessa cadeia de fornecimento. 

O cenário “pessimista” leva em consideração mais interrupções na produção de chips, como consequência da guerra na Ucrânia, e o não cumprimento da expansão de capacidade na fabricação de semicondutores. Neste panorama, serão menos 565 mil unidades nos próximos dois anos.

“As perspectivas podem ser atrapalhadas pela alta inflação e pioradas pela guerra. O poder de compra está diminuindo e o Banco Central está respondendo com política monetária muito restritiva. A taxa de desemprego, preço de veículos e falta de componentes vão puxar a demanda para baixo. A baixa taxa de juros, que ainda suportava as vendas no ano passado, virou outro problema”, diz.