
Recomeçar a vida em outro país é sempre um grande desafio. Por isso, no Brasil, cada vez mais empresas do setor automotivo apoiam a chegada de imigrantes e refugiados através de iniciativas com oportunidades de trabalho e desenvolvimento, curso de português, assessoria jurídica e acolhimento.
A presença de executivos estrangeiros em montadoras multinacionais e grandes fornecedores é comum. Mais recentemente, porém, o setor também passou a olhar com mais atenção para a inclusão de refugiados, que hoje representam 0,12% da força de trabalho, segundo a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo 2025, de Automotive Business.
Desde 2020, empresas automotivas como Lear, Localiza e Belgo Arames passaram a ter políticas e ações de inclusão estruturadas para esse público, com o objetivo de quebrar barreiras de entrada no mercado, como o idioma, a validação de documentos, a adaptação cultural e até a reunião familiar, facilitando a integração pessoal e profissional desses talentos.
Principais barreiras para refugiados e imigrantes
As principais barreiras para a maioria dos refugiados e imigrantes quando chegam ao Brasil são com o português e a documentação, por isso, empresas automotivas oferecem curso de idioma e apoio jurídico.
É o caso da Lear, por exemplo, que emprega 155 imigrantes e refugiados no Brasil, a maioria venezuelanos e haitianos.
A empresa oferece bolsa de estudo de português, assessoria de documentação e revalidação de diploma. Além de contar com grupo de afinidade, apadrinhamento profissional e parceria com ONGs para contratação de refugiados.
Em 2018, o operador de máquinas Danny Rocca, 44 anos, foi o primeiro venezuelano a entrar na planta de São Bernardo do Campo (SP). Ele veio para São Paulo no programa de interiorização de refugiados venezuelanos do governo federal e foi contratado pela Lear após a empresa solicitar currículos ao centro de acolhida onde ele estava.
“Não sabia nada de português, aprendi com os companheiros de trabalho que me ajudavam com as palavras”, contou. “Eles me receberam muito bem e depois de quatro meses trabalhando, comprei passagens pra minha esposa e os filhos se mudarem para cá e os colegas se reuniram pra ajudar a buscar minha família no aeroporto. Hoje meu filho trabalha na Lear comigo.”
Inclusão estruturada na Localiza
Na Localiza, dos 151 colaboradores refugiados e imigrantes, 52% são venezuelanos. Também há um bom número de pessoas haitianas e cubanas.
“A gente foca aqui em três grandes avenidas, que é a capacitação e desenvolvimento dessas pessoas, uma outra camada que é empregabilidade e, por último, comunicação e pertencimento”, explicou o gerente de sustentabilidade da Localiza, Fernando Vilela.
A empresa tem parceria com ONGs, como o Acnur da ONU, a OIM (Organização Internacional para Migrações) e a ONG Refúgio 343, para ampliar a participação de refugiados nos processos seletivos.
Também oferece curso de português, trilhas de desenvolvimento profissional e desenvolve ações para fortalecimento da cultura inclusiva e conscientização de lideranças.
“A iniciativa fortaleceu a cultura de acolhimento, respeito e pertencimento aqui dentro da Localiza. Quando a gente convive com diferentes histórias, sotaques e experiências, isso amplia a visão dos times e estimula a empatia e contribui aqui para um ambiente mais colaborativo e inovador”, disse Vilela.

Para o senegalês Mouhamadou Coulibaly, 36, compartilhar sua cultura com os colegas é motivo de orgulho. Ele trabalha como especialista em agile coach na Localiza Labs, o laboratório de tecnologia e ciências de dados da Localiza.
“Desde que entrei aqui recebi todo o suporte possível. As pessoas já sabem que eu não sou brasileiro, então, se esforçam pra me atender”, contou Coulibaly. “Sempre me perguntam sobre o meu país e a minha cultura, isso deixa as pessoas com a mente mais aberta e é muito importante a gente como estrangeiro trazer essa outra percepção, e a Localiza valoriza isso.”
Acolhimento gera pertencimento
Quando encontram um ambiente acolhedor, imigrantes e refugiados tendem a trazer familiares e conterrâneos para integrar a equipe.
É o caso do venezuelano Yossy Alejandro, 40, que entrou na produção de Belgo Arames há cinco anos e depois trouxe a esposa Yulimar Marques, 39, para trabalhar no almoxarifado. Para eles, o emprego no setor foi a chance de reconstruir a vida no Brasil e oferecer tratamento de saúde para o filho.
“Saímos da Venezuela porque meu filho tinha problemas de saúde, mas quando chegamos, em 2019, moramos na rua por meses até que o meu bebê teve complicações e o Acnur nos acolheu em um acampamento em Pacaraima (RR). Eu pegava latinha e a gente comia um pão com salame todos os dias”, contou Alejandro.
O casal mudou para Itaúna (MG) com o programa de interiorização e conseguiu vaga na Belgo.
“Aqui as pessoas foram compreensivas com a gente porque a língua é diferente, os costumes e o ambiente são diferentes. Tem que recomeçar e aprender uma coisa por vez. Você sai do seu país com conhecimento, mas no outro país não tem valor e você precisa reaprender as coisas”, disse Alejandro.

A Belgo, empresa especializada na produção de arames e soluções em aço, ligada ao grupo ArcelorMittal, desenvolve ações para a inclusão de colaboradores refugiados e imigrantes, com foco na cultura corporativa e na adaptação cultural.
“Quando chega um novo empregado, ainda mais quando a gente tem no início da jornada a questão da adaptação cultural, compreensão do ambiente de trabalho, e a Belgo busca superar esses pontos por meio de conversas abertas, apoio da liderança, atuação do grupo de afinidade, de um programa estruturado de apadrinhamento que é aplicado nesses novos empregados”, disse a gerente de comunicação da Belgo, Liene Maciel.
Em 2024, a empresa reforçou o seu compromisso publicamente ao assinar, junto ao Fórum Global de Refugiados, uma carta sobre recrutamento, direitos e deveres trabalhistas e aspectos da cultura brasileira para esse público.
Cultura, pertencimento e valorização
A valorização e o respeito à diversidade cultural também são importantes para gerar pertencimento nos colaboradores imigrantes e refugiados.
Na Lear, são realizadas rodas de conversa e atividades culturais, como o dia do cardápio temático. No ano passado, todas as unidades da empresa fizeram um almoço venezuelano.
O desenhista de produto Wilber Salazar, 35, foi o responsável por preparar arepas, prato típico venezuelano, para a planta em que trabalha em Navegantes (SC). “Tinham pessoas que saíram da Venezuela e ficaram anos sem experimentar esse prato e ao experimentar foram transportados por lembranças da família e da infância.”
Ele chegou no Brasil com a esposa, em 2018, e teve dificuldades em outras empresas. “Quando vim, cheguei a trabalhar em lugares que às vezes tinha muito preconceito”, disse. “Depois vim para a Lear, que tem uma cultura focada nas pessoas e que incentiva a inclusão. Eu me sinto grato por hoje poder ajudar outros imigrantes e refugiados aqui.”
Mudar de país para Salazar, assim como a maioria dos refugiados, foi uma decisão extrema. “Imigrar não foi uma decisão fácil, foi o último recurso quando já não tínhamos escapatória, já não me sentia seguro e precisava arriscar. Não podia desistir, precisei assumir riscos que nunca imaginava assumir.”