
A Mercedes-Benz ampliou a sua oferta de caminhões elétricos com o eActros Lowliner, anunciado oficialmente em junho mas que teve uma primeira aparição pública no domingo, 13, no evento de estreia que a montadora tradicionalmente realiza na véspera do Salão de Hannover (IAA Transportation), a maior feira de pesados do mundo que acontece em Hanover, na Alemanha. Com ele, já são cinco modelos eletrificados no seu line-up global.
A aposta da empresa neste tipo de powertrain, no entanto, contrasta com a realidade do mercado europeu que, ao lado do Brasil, é um dos seus principais em termos de volumes. De acordo com a fabricante, a instalação de pontos de recarga na região não acompanha o ritmo com o qual desembarcam os caminhões elétricos no mercado local. Esse cenário, ao lado de uma alegada falta de incentivos, estariam travando as vendas no segmento.
Pelas contas da montadora, a União Europeia (UE) precisaria ter 35 mil pontos de recarga para caminhões elétricos em 2030 para atender às regulamentações ambientais do bloco. Atualmente, seriam 2 mil pontos instalados na região. O paralelo dá uma dimensão do cenário de vendas de pesados elétricos na Europa. Sem a infraestrutura necessária, o frotista não se anima a comprar esses veículos. E isso, claro, reverbera nas pretensões das Mercedes.
“Atualmente, os caminhões elétricos a bateria ou de emissão zero representam cerca de 2% do mercado europeu total”, disse Achim Puchert, CEO global da Mercedes-Benz. “Os produtos estão prontos. Temos a linha eActros, eArocs, eEconic e agora também a Lowliner. Estamos ampliando o portfólio e investimos bastante nesses produtos. Mas eles, por si só, não resolvem o problema. É preciso infraestrutura.”
Recarga segue como entrave na Europa
Não é de hoje que a empresa expõe os problemas com a infraestrutura de recarga na Europa. Na edição passada da IAA Transportation, realizada em 2024, o tema também foi explorado à exaustão por interlocutores da companhia. O discurso também estava ensaiado na edição da feira em 2022, quando os primeiros modelos elétricos deixaram de ser protótipos para se tornarem produtos oficiais da oferta.
Karin Radström, CEO da Daimler Truck, afirma que no bloco europeu pouco se fez desde então a respeito dos carregadores, apesar da vigência das regras estabelecidas de emissões veiculares. “Os países se comprometeram a construir essa infraestrutura, mas não aconteceu muita coisa. Passo bastante tempo em Bruxelas [sede da UE] e com diferentes ministérios para aumentar o conhecimento sobre o tema e elevar o senso de urgência. Estou esperançosa de que, depois destes dias, haja algum movimento para fazer algo positivo acontecer.”
A alta executiva da Daimler – que além da Mercedes controla as marcas Western Star, Freightliner e BharatBenz, no segmento de caminhões, além de Setra e Thomas Built, no de ônibus – também aponta a falta de incentivos locais como um gargalo para a evolução do mercado de caminhões elétricos na Europa.
“Havia uma determinação na Europa para cobrança diferenciada de pedágio para veículos comerciais elétricos. Essa regra foi implementada em menos da metade dos estados membros. E, em muitos deles, quando a diferença é de apenas dois centavos por quilômetro, isso não faz muita diferença para o cliente. Apenas três ou quatro países implementaram essa diferenciação de maneira significativa”, disse Karin à reportagem. “Se não houver alguma vantagem, o cliente vai preferir o caminhão a diesel”, completou.

Além de estar presente nas negociações em Bruxelas, como mencionou a CEO do grupo, a Mercedes-Benz pretende demonstrar ao mercado de forma criativa que o problema para a ascensão dos elétricos é a falta de infraestrutura. Foi criada uma ação na qual uma unidade do caminhão eActros 600 realizará uma espécie de volta ao mundo em 80 recargas. O veículo, com implemento preparado para a jornada com carregador próprio, dentre outros equipamentos, partirá em breve da Alemanha rumo à Turquia, para depois chegar à Ásia e, por fim, nas Américas. Serão mais de 45 mil quilômetros rodados em 30 países.
A mensagem é clara. Com energia disponível, o caminhão elétrico se mostra como opção viável de transporte de cargas nas rotas mais variadas em termos de distância. Há outros fatores que jogam contra, como o preço da energia elétrica em muitas regiões, sobretudo a Europa, que viu a tarifa disparar após a eclosão do conflito entre Ucrânia e Rússia. Mas, por ora, e de novo, a Mercedes-Benz mirou da falta de carregadores. Quando o cenário é amplo e complexo, talvez seja melhor mesmo avançar em etapas.
eActros Lowliner pode rodar até 500 quilômetros
O eActros Lowliner tem duas versões que se difereciam pelas características do conjunto de baterias. A primeira opção é a eActros 400 Lowliner, equipada com duas baterias de 207 kWh, com totais 414 kWh de capacidade. Já a versão eActros 600 Lowliner soma três conjuntos de baterias e 621 kWh. A autonomia prevista para a configuração com maior capacidade energética é de até 500 quilômetros.
Outro diferencial dos modelos está no sistema de recarga de 800 volts. Com ele, os caminhões podem ter uma recarga de 10% a 80% em cerca de 46 minutos na configuração com duas baterias e de 70 minutos, na variante com três. Segundo a Mercedes-Benz, os modelos elétricos começam a ser vendidos na Europa no fim de setembro. A produção deve começar no segundo trimestre de 2027 na fábrica de Wörth am Rhein, na Alemanha.
