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As 4 principais mudanças da mobilidade no Brasil em 2021

Da chegada dos carros voadores aos impactos da pandemia, assunto ganha novos contornos no Brasil
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Natália Scarabotto

22 dez 2021

7 minutos de leitura

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O ano de 2021 marcou a mobilidade urbana. O mercado de carros elétricos cresceu, ao passo que as empresas automotivas passaram a dar mais atenção para a agenda ESG (Governança Ambiental, Social e Corporativa). Com tantas transformações, Automotive Business destaca as 4 principais mudanças deste ano que vão impactar a mobilidade daqui para frente.

1 – A ascensão dos carros elétricos no Brasil

Ainda que com desafios, a eletrificação da mobilidade no Brasil ganhou força em 2021 e a venda de veículos elétricos cresceu quase duas vezes em comparação com o ano anterior. Até novembro, foram vendidos 30.445 veículos elétricos puros e híbridos. Em 2020, o total de vendas do ano foi de 19.745. As informações são da ABVE (Associação Brasileiro do Veículo Elétrico) com base em dados do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores).

Antes de encerrar o ano, o volume já ultrapassa a projeção inicial da ABVE, que era de 28 mil veículos. Assim, a frota de automóveis e comerciais leves eletrificados em circulação chega a quase 73 mil.

Os modelos híbridos lideram o mercado, representando 58% das vendas no ano. Apenas de modeloss híbridos plug-in os emplacamentos respondem por 34% do total, com 10,3 mil veículos.

O mercado de elétricos puros surpreendeu no desempenho, com crescimento de 5% para 7% do total de eletrificados vendidos no país. Nos primeiros onze meses do ano foram 2,1 mil unidades, volume muito maior do que em 2020, que registrou 801 carros emplacados, e em 2019, que teve 538 licenciamentos de modelos com a tecnologia.

Em comparação com mercados desenvolvidos como Estados Unidos, Europa e China, o Brasil caminha devagar. Segundo estudo da Anfavea (Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores) em parceria com o BCGG, até 2035, enquanto esses países terão praticamente zerado as vendas de veículos a combustão, o percentual de emplacamentos do Brasil estará abaixo de um terço.

No mercado nacional, algumas fabricantes se destacam na corrida pela eletrificação, como a Toyota e a Stellantis. A montadora japonesa sai na frente e tem como meta tornar todo o seu portfólio em modelos híbridos até 2025. Enquanto Stellantis tem planos para se transformar na primeira grande montadora a produzir veículo 100% elétrico em grande escala.

Se depender dos consumidores, o mercado será aquecido. Segundo a pesquisa SAE Mobilidade 2021, realizada pela consultoria KPMG em parceria com a SAE Brasil e com a Autodata, quase 90% dos brasileiros gostariam de ter carros elétricos e híbridos à disposição para compra no país.

Nos próximos cinco anos, 73% dos consumidores têm interesse em adquirir veículos elétricos híbridos (HEV), enquanto 54% se interessam por híbridos plug-in (PHEV), 50% carros com motor de combustão interna (ICE) e 43% por veículos a bateria (BEV). 

2 – Agenda ESG transforma a mobilidade

Durante a pandemia, a agenda ESG (sigla em inglês para governança ambiental, social e corporativa) ganhou força e se tornou assunto estratégico de empresas automotivas e montadoras.

Toyota, Basf, Volkswagen, General Motors, entre outras, apostam na descarbonização do transporte por meio da expansão do mercado de veículos elétricos e novas rotas tecnológicas para descarbonização.

Os esforços pela agenda ESG também viraram compromissos públicos. Durante a COP-26 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), Ford, GM, Jaguar, Mercedes-Benz, Volvo e BYD assinaram um acordo que prevê que, a partir de 2040, sejam comercializados apenas veículos que não emitam gases estufas. A cidade de São Paulo foi a única administração brasileira signatária do documento. 

Além disso, as empresas buscam alternativas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa por fontes de energia renovável nas fábricas e na frota utilizadas pelos colaboradores, com práticas como o car sharing. O desafio ainda é envolver os fornecedores nesse movimento verde.

Em conjunto, a Anfavea e demais entidades do setor lançaram, em outubro, o movimento Mobilidade Sustentável de Baixo Carbono (MSBC), com o objetivo de desenvolver um plano para ampliar o uso dos biocombustíveis, acelerar a descarbonização do transporte no Brasil e tornar exportáveis as soluções locais de baixa emissão.

Uma das estratégias é unificar iniciativas como Rota 2030, Proconve e RenovaBio, além de trabalhar para ampliar a presença internacional das soluções de baixa emissão desenvolvidas aqui. Também é proposta uma nova metodologia de cálculo de emissões para as emissões de CO2 dos veículos, garantindo que a métrica englobe toda a cadeia de produção de combustíveis e de energia, do poço à roda.

Para empresas de outros segmentos, como Amazon, Ambev, Americanas, DHL, Mercado Livre e Via Varejo, os veículos elétricos se tornaram estratégia-chave redução de emissão de CO2 de suas frotas. A Ambev, por exemplo, aposta em uma das maiores frotas corporativas de elétricos. Da Volkswagen Caminhões e Ônibus, comprou 1,6 mil caminhões elétricos e-Delivery, ideal para entregas do last-mile, até 400 km. 

3 – A era eVTOL: o mercado de carros voadores decolou

O ano de 2021 foi essencial para os ‘’carros voadores’’ se tornarem uma realidade cada vez mais próxima no Brasil e no mundo. Fabricantes como Embraer, Boeing, Airbus, Azul e Gol aqueceram o novo mercado com parcerias para compra dos eVTOLs (veículo elétrico de decolagem e pouso vertical) e para sua operação comercial. Fabricantes como Boeing, Airbus, Embraer e Bell

No Brasil, os eVTOLs têm data para decolar: 2026. A partir desse ano, a Eve Urban Air Mobility, startup de tecnologia da EmbraerX, entregará as primeiras unidades do seu modelo de carro voador para a Flapper, empresa privada de aviação, que desenvolve esse novo mercado na América Latina. Serão entregues 25 eVTOLS e até 25 mil horas de voo por ano nas principais cidades da América Latina, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A principal aposta de todas as empresas para a utilização dos eVTOLs é o serviço de táxi aéreo sob demanda, ou seja, como um Uber que voa. Em novembro, a Flapper iniciou operações com helicópteros no Rio de Janeiro, para testar a operação comercial dos veículos.  

Segundo a vice-presidente de experiência do usuário da Eve, Flávia Ciaccia, disse em outubro, a viagem de eVTOL, que por enquanto é apenas para distâncias de até 20km, será “na faixa de preço do Uber Black.”

O carro voador da Eve ainda não está pronto, mas no início deste ano, um protótipo levantou voo em São Paulo. Além da América Latina, a empresa firmou contrato para a venda de centenas de unidades do eVTOL para empresas que vão operar nos Estados Unidos, Reino Unido, países do mercado na Ásia e na África.

A operadora aérea Gol Linhas Aéreas e a Azul também entraram no mercado e devem iniciar suas operações ainda antes da Eve, em 2025. A Gol comprará 250 eVTOLs com autonomia de 160km e velocidade máxima de 320km/h da irlandesa Avolon. Enquanto a Azul firmou parceria bilionária para aquisição de 220 unidades da Lilium.
Com tantas empresas envolvidas, um estudo da Frost & Sullivan aponta que em 2040 o mercado de eVTOLs deverá valer US$ 1,5 trilhão.

 

4 – O legado da Covid-19

O transporte foi um dos principais afetados pela pandemia e a herança deixada pelo período da Covid-19 será de uma série de desafios. Sem sair de casa, ou com receio de contaminação ao sair, a relação dos brasileiros com a mobilidade precisa se reinventar.

O transporte público foi o que mais sentiu o impacto. Segundo pesquisa do instituto de pesquisa WRI Brasil em parceria com o Centro de Excelência BRT+ (braço de pesquisa e educação da Volvo), mais de 50% das pessoas deixaram de utilizar o transporte público com frequência. Em São Paulo, o número chega a 82% dos respondentes.

A pesquisa aponta ainda que o uso de bicicleta e a caminhada a pé diminuiu no Brasil. Em cidades do exterior como Lima, Buenos Aires e Bogotá esses modos de transporte aumentaram, resultado do investimento em infraestrutura de ciclovias e calçadas.

Os brasileiros deram preferência ao carro próprio, meio de transporte que teve menos redução. Uma pesquisa da Webmotors aponta que a preferência pelo carro próprio cresceu de 6% na pandemia.

Para o transporte privado, como Uber e a 99, a demanda só voltou a crescer com o avanço da vacinação no país. Os aplicativos se tornaram uma alternativa mais segura, do ponto de vista sanitário, ao transporte público.

Na fase atual da pandemia, com a retomada do trabalho presencial, setor de turismo, comércios e outros voltando à normalidade, a mobilidade enfrentará velhos desafios ainda não resolvidos, como a ineficiência do transporte público, o trânsito e custos do carro próprio.