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Caminhoneiros Surdos do Brasil querem mais espaço e inclusão nas estradas

Iniciativa quer alterar lei para incluir todos os motoristas
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Natália Scarabotto

16 set 2025

5 minutos de leitura

Mais inclusão, oportunidade e acessibilidade: é isso que os Caminhoneiros Surdos no Brasil querem neste Dia Nacional do Caminhoneiro. A efeméride é celebrada nesta quarta-feira, 16. 

Segundo o IBGE de 2022, cerca de 1,3 milhão de pessoas têm problemas permanentes para ouvir, mesmo usando aparelhos auditivos. 

Criado em 2020, o movimento Caminhoneiros Surdos do Brasil tem como objetivo lutar por mais direitos e inclusão das pessoas surdas no mercado de trabalho. Já são mais de 150 caminhoneiros engajados e o movimento está em processo de conseguir um CNPJ para ser um instituto. 


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Projeto de Lei quer habilitar surdos em categorias C, D e E

Uma das primeiras ações dos Caminhoneiros Surdos do Brasil foi a criação do Projeto de Lei 2634/21. Ele propõe uma alteração na concessão da habilitação em todas as categorias para surdos e pessoas com deficiência auditiva. 

Atualmente, a lei determina que, para dirigir veículos, a pessoa seja capaz de escutar, ao menos, 40 decibéis e utilizar aparelho auditivo. Essa regra exclui as pessoas com surdez severa (surdos totais).

O PL 2634/21 tramita no Senado e foi aprovado em diversas comissões. Entretanto, está parado desde 2023, enquanto aguarda designação de relatoria na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. 

“Com essa lei antiga, a gente não atinge os surdos profundos. Os surdos podem tirar carteira de habilitação A e B, mas agora queremos os mesmos direitos nas categorias C, D e E”, contou Raquel Moreno, fundadora dos Caminhoneiros Surdos do Brasil.

Criadora do Caminhoneiros Surdos do Brasil é porta-voz da causa

Raquel é a criadora do CBS, mas, apesar da paixão por caminhão vir da infância, não é caminhoneira.

Ela é uma surda oralizada que perdeu a audição após uma doença. Desde então, Raquel se encontrou na comunidade surda. Há cinco anos, ela implantou um ouvido biônico que permite a escuta de forma robotizada. 

Sabendo falar português e LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais), Raquel adotou a causa e se tornou uma porta-voz das necessidades dos caminhoneiros surdos. E mais do que isso: ela é a ponte entre o mudo surdo e o mundo ouvinte. 

 “Pertenço ao mundo dos ouvintes, que eu uso o implante pra facilitar a vida de vocês, mas eu me encontrei nas mãos por meio das Libras. Quando aprendi Libras e entrei na comunidade surda, perguntei o que eu poderia fazer para ajudá-los e comecei a me dedicar à isso. ”

Caminhoneiros surdos enfrentam desafios nas estradas

Raquel fala das diversas barreiras que os caminhoneiros surdos ainda enfrentam, mesmo dentro das grandes transportadoras.

“Como o surdo vai ouvir o pneu estourando lá atrás? É uma pergunta que eu recebo diariamente das transportadoras, mas o surdo sente a carroceria do caminhão na vibração. Ele vai perceber se houver algo errado”, explicou. 

Outro problema é adaptar os locais de abastecimento. Ela conta que um dos caminhoneiros do grupo pega carga no Porto de Santos (SP), onde todos os avisos são sonoros.

“Ele fica lá na fila enquanto apitam duas, três ou quatro vezes, e ele não sabe”, contou. “Às vezes me ligam de chamada de vídeo só para eu intermediar uma conversa entre o caminhoneiro surdo e um funcionário do porto, do posto de gasolina ou outro atendimento.”

A descarga do caminhão também é um desafio. Em muitos locais, o local de atendimento tem vidros fechados e escurecidos. Nestes casos, a comunicação só é realizada por microfone. 

É por isso que, em muitas situações, os caminhoneiros surdos optam pela comunicação escrita. Escrevem em um papel ou no celular. No entanto, a maioria deles não foi alfabetizada em português, resultando em dificuldades de escrita e comunicação no geral. 

“Ele escreve o português na estrutura gramatical da Libras, que é completamente diferente do português que conhecemos. Aí o atendente lê aquele papel com a escrita errada e acha que o motorista está bêbado. Tivemos casos de motoristas fazendo o bafômetro por conta disso”, contou ela. 

Caminhão: uma paixão de pai para filho

Um dos membros do Caminhoneiros Surdos do Brasil é Daniel Valler.

Diferentemente de Raquel, ele não é oralizado. Sendo assim, marcamos uma chamada de vídeo e pedimos para que ela desempenhasse o papel de intérprete. 

Apaixonado por caminhões desde criança, Daniel acompanhava seu pai em viagens do interior de Santa Catarina ao Paraná. Quando fez 18 anos, ele pulou para o banco do motorista e passou a fazer viagens supervisionadas pelo pai para buscar barris de pinga ou melaço. 

Conseguir a habilitação foi difícil. Na primeira vez, o pai o acompanhou tanto na autoescola quanto no Detran para fazer todas as etapas necessárias. Assim, ele conseguiu a habilitação do tipo C.

Depois, tentou mudar para E. Teve dificuldades e conseguiu o documento com validade de apenas quatro anos. 

Depois desse tempo, Daniel sofreu para conseguir médicos em sua cidade para estender o prazo da CNH. Foram dois anos tentando até conseguir a habilitação E com validade de 10 anos, o que para ele foi um grande alívio.

Caminhoneiro surdo revela as dificuldades de comunicação diária

A família de Daniel tem uma pequena frota com três caminhões que se revezam para buscar arroz na safra. Os pesados são carregados em Guaramirim (SC) para descarregar em Jaraguá do Sul. 

Daniel também vai cerca de três vezes por semana de Santa Catarina à São Paulo para buscar melaço. Ele realiza essa rota há 10 anos. Por estar acostumado com o trajeto, o caminhoneiro não vê muitas barreiras por conta da surdez. 

Ele explica que, quando chega a um posto de combustível, ele se comunica emite um som verbal para pedir para encher o tanque de gasolina ou gesticula com as mãos para o frentista entender.

Mas às vezes outros desafios aparecem. Daniel lembra de uma das primeiras vezes em que viajou sem o pai e o caminhão quebrou de madrugada.

Ele transportava bananas e precisou descarregar e carregar outro caminhão sozinho. Sem conseguir se comunicar, Daniel aguardou por ajuda pela madrugada toda até decidir, sozinho, o que fazer. 

Esse episódio foi, sem dúvida, um dos momentos mais marcantes da sua jornada como caminhoneiro surdo no Brasil.