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Carro elétrico envelhece e redesenha aftermarket na Europa

Presença chinesa também motivou mudanças nas estratégias das principais fabricantes de peças de reposição no mercado europeu

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Bruno de Oliveira

14 set 2026

5 minutos de leitura

O mundo muda muito e o tempo todo. Se há dois anos a grande preocupação das empresas na Automechanika era ter uma oferta de componentes para atender frotas de veículos elétricos, e também ficar de olho – ainda com certo ceticismo – no avanço asiático sobre o setor de reposição, na edição de 2026 da feira que aconteceu até sábado, 12, na Alemanha, o cenário foi outro.

Pois bem, a frota europeia de veículos elétricos envelheceu e já demanda os primeiros reparos. Nesse sentido, o que se viu nos estandes dos grandes nomes da reposição foi uma grande diversidade de componentes para a manutenção desses automóveis, além de toda uma sorte de serviços e equipamentos para oficinas independentes.

Até porque não basta apenas tornar a peça disponível no mercado, é preciso também se atentar para o fato de que as oficinas mecânicas não estão de todo preparadas para receber este tipo de veículo. E este panorama levou grandes companhias como Bosch, Schaeffler, Mahle, dentre outras alemãs, a destacar em seus estandes vasta gama de serviços de capacitação profissional.

Reparador mecânico no centro da estratégia

A lógica é simples. Se o reparador prestar um serviço repleto de equívocos, não apenas a sua oficina cairá no conceito do cliente. A experiência avaliada como ruim poderá respingar também na reputação do fabricante do componente. Todos perdem no processo, e as autopeças querem sair dessa mira justamente dando uma força qualificando o mecânico.

Afora a capacitação, toda uma grande leva de novos equipamentos para reparação de veículos elétricos foi vista pela reportagem nos meandros da feira. Chamaram a atenção as ferramentas para extração e manuseio de baterias, carregadores, extratores de fluídos e sistemas eletrônicos de diagnóstico veicular que usam IA para detectar falhas e indicar como corrigir o problema.

Mas se a indústria europeia parece olhar para frente com essa oferta, ela mira também para o lado e exerga que não está sozinha como antes nessa corrida pelas demandas do aftermarket local. Muitos dos movimentos apresentados na Automechanika por esses nomes tradicionais do setor automotivo da região tiveram a ver com a presença chinesa cada mais ostensiva no mercado.

Já mencionamos por aqui em AB a reorganização das marcas que atuam na reposição. Mas podemos mencionar também um intenso movimento de diversificação dos negócios causado pelo acirramento da concorrência com novos competidores. As pressões exercidas pelo produto importado levou as companhias a apostar em novos produtos e aplicações.

Diversificar para sobreviver na reposição

A gigante sueca SKF, por exemplo, seguiu por esse caminho – e não é de hoje. Se décadas atrás a companhia se mostrava como um dos principais produtores de rolamentos do mundo, hoje a faceta da empresa está muito mais plural e multicultural nesse sentido.

Em seu estande na feira, vimos em exposição os tradicionais rolamentos da marca ao lado de pastilhas de freios, polias, correias, bombas d’água e vedações, uma série de novos componentes – produzidos em sua maioria na China – que, lá atrás, se mostraram como alternativa de proteção para o aumento futuro da concorrência com novos players.

A concorrente Schaeffler, por sua vez, mostrou na feira que também pretende buscar novas oportunidades. O caminho escolhido foi o de oferecer peças e conjuntos para manufatura robotizada. Mas não estamos falando aqui sobre equipamentos tradicionais de linha de produção, mas de robôs humanóides que, em breve, deverão integrar o quadro de funcionários da indústria global.

Vale ressaltar que esse novo desenho do aftermaket europeu não tem a ver apenas com a pressão chinesa no segmento, mas também por causa das tensões vistas também no segmento de peças originais (OEM). Isso, claro, é uma outra história, mas vale o registro e a reflexão: com os volumes diminuindo em montadoras que vivem momentos difíceis na região, como é o caso da Volkwagen, a reposição acaba ganhando mais importância na cadeia de suprimentos dessa indústria.

De todo modo, se por um lado há certa tensão em torno do número de fatias que aumentam no mesmo bolo, por outro há um certo alento pelo fato de que, independente das tecnologias que vão surgir no futuro, determinados componentes mecânicos que seguem como as grandes vedetes dessas autopeças globais ainda terão espaço para existir. A dúvida é sobre quem vai vender mais e por menos.

Automechanika também teve que mudar

Com todo esse panorama observado pelas empresas a própria feira teve de se ajustar em função da nova realidade. A presença chinesa ajudou a turbinar o número de expositores, que chegou a 4,4 mil empresas neste ano, o que levou a Messe Frankfurt, organizadora do evento, a criar espaços temáticos para abrigar delegações de outros países afora a Alemanha.

A organização também teve de propor conteúdos ligados aos temas mais quentes, como inovação e capacitação profissional. Em uma espécie de arena denominada HighTech4Mobility, empresas de software, startups e representantes de oficinas, varejistas e da indústria debateram dados veiculares, inteligência artificial, cibersegurança e novos modelos de negócios.

Também houve uma premiação na área de inovação. Venceram Borg Automotive, Knorr-Bremse, Maha, Meyle, Cartec, Polytop, Engate Gen-Y, SKF, Bosch, Rema e Autocraft. Cerca de 112 mil pessoas frequentaram as dependência da feira nos cinco dias evento, informou a organização.