
Poucos executivos na indústria automotiva são tão carismáticos quanto Alexander Seitz.
O chairman executivo da Volkswagen para a Região América do Sul foge do sisudo perfil de seus conterrâneos e fala português com desenvoltura invejável para quem está na região há apenas quatro anos.
Seitz esteve em Barretos para a revelação da Tukan, a nova picape da Volkswagen que será lançada apenas em 2027. Devidamente trajado a caráter para a Festa do Peão, o alemão falou com Automotive Business sobre vários assuntos. Entretanto, um deles dominou a conversa: a China.
“Ninguém iguala a velocidade dos chineses”, elogiou, com a experiência de quem trabalhou cinco anos em Xangai a serviço da SAIC-Volkswagen, joint-venture histórica responsável pelo desenvolvimento e produção de muitos modelos da VW.
Por que o chairman da VW diz que é preciso ter humildade

Seitz reconhece o avanço das montadoras e fornecedores chineses. Citou, inclusive, a BYD como exemplo de verticalização de processos. A empresa produz diversos componentes de seus veículos, incluindo baterias e chips.
O executivo, inclusive, disse que as montadoras do Ocidente podem e devem aprender muito com seus concorrentes asiáticos.
“Os chineses eram muito humildes há 30 ou 40 anos quando convidaram os europeus a trazerem tecnologias para trabalharem juntos. Agora é hora de (os ocidentais) mostrar a mesma humildade para reconhecer que os chineses fizeram um bom trabalho e que podemos desenvolver novas tecnologias em conjunto”.
Como a queda na demanda da China pode ser positiva para cá

O chairman da VW sabe que a indústria chinesa vive dificuldades pela queda na demanda interna. Surge aí uma oportunidade para captar novos fornecedores.
“Eles estão sofrendo com a queda do mercado (chinês), que foi de 30 milhões de carros para 22 milhões, 24 milhões. Então existe um nível de ociosidade muito alto, e isso causa uma queda nos preços dos fornecedores. É por isso que, a cada dois meses, vou para a Ásia com meu time para identificar as melhores tecnologias e trazê-las para a nossa operação”.
Seitz revelou que a participação chinesa é cada vez maior nos projetos da Volkswagen, sobretudo nos novos produtos.
“Hoje já usamos muita coisa de eletrônica, software e sistemas híbridos. Toda montadora inteligente faz isso”, afirmou.
“Nos projetos novos, especialmente nos casos dos híbridos, a participação das peças chinesas aumentou de 3% há alguns anos para 30% no caso dos novos projetos que vêm por aí”.
Ideia é aproveitar virtudes sem desprezar o Brasil
A expertise da China é explorada no que eles fazem de melhor: eletrificação. Seitz disse que a ideia é aproveitar tecnologias chinesas no desenvolvimento de sistemas híbridos plenos e híbridos plug-in.
Apenas a tecnologia híbrida leve, como a que estará na Tukan, não vem de lá porque a indústria brasileira já nacionalizou componentes e processos.
Apesar de aproveitar o que a Ásia oferece de melhor, Seitz reiterou que o objetivo não é desprezar a mão de obra brasileira. Muito pelo contrário.
“É claro que quero usar a vantagem da China, mas também pretendo aproveitar o conhecimento do nosso time aqui (no Brasil). Posso adaptar esses módulos às necessidades do Brasil, que exigem virtudes, como robustez e versatilidade”.
“Por exemplo, e sem citar nomes, as picapes chinesas são boas ou na terra ou no asfalto. Não conheço nenhum produto tão versátil porque falta-lhes a experiência que temos”.
Nova Amarok deriva de projeto chinês, mas terá DNA Volkswagen

A Tukan não foi a única novidade apresentada na Festa do Peão de Barretos.
A nova Amarok também foi exibida pela primeira vez, ainda que camuflada. A segunda geração da picape será completamente diferente da atual, tanto no porte quanto no visual.
A VW promete que a nova Amarok será a mais potente da história, inclusive por conta da tecnologia híbrida plug-in que estará debaixo do capô. O projeto da picape será baseado na Maxus Terron 9, desenvolvida pela SAIC, uma marca… sim, chinesa.

Seitz afirmou que o know-how chinês foi vital para acelerar o desenvolvimento do projeto. Mas o executivo garante que a picape terá muito do DNA da Volkswagen.
“Fico sempre muito chateado quando dizem que só pegamos um carro da SAIC e pronto. Para construir um projeto como a nova Amarok são necessárias cinco mil peças. Nós mudamos 2.500. Isso não é papo furado. Se você pegar a lista de componentes do projeto esse índice chega a 50%”.
“Mudamos não só as peças do exterior, mas também do interior. Mudamos o ADAS, o sistema de infotainment porque a comunicação do carro no Brasil é diferente da comunicação do chinês. Existem também outras alterações: o chinês gosta de porta com abertura elétrica, mas o latino não. Ele quer ouvir um barulho, um ‘clec’, e nós fazemos”, complementou.
