
A indústria automotiva local passa por um momento de transformação sem paralelo em sua história. De todos os aspectos que dão cara a esse período, chama a atenção um que nada tem a ver com novos métodos de produção, inéditas tecnologias ou requalificação dos quadros. A bola da vez é a ocupação da capacidade ociosa do parque fabril.
Grandes players globais estão procurando espaço para produzir localmente em mercados estratégicos. Hoje, se em algum canto do mundo existir uma fábrica operando a duras penas com um turno, ou uma instalação inativa, é provável que alguma montadora chinesa esteja de olho para iniciar os trabalhos ali.
Nesse contexto, a indústria brasileira, que comemora o seu dia na segunda-feira, 25, se mostra de certa maneira como terreno propício para tal estratégia — e não é de hoje. Segue em curso um movimento que começou não faz muito tempo, com a ocupação por parte de BYD e GWM das instalações que, durante algum tempo, era ocupadas respectivamente por Ford (Camaçari, BA) e Mercedes-Benz (Iracemápolis, SP).
Ocupação chinesa: de Ford e Mercedes a BYD e GWM
A chegada de outros nomes na sequência, como a Geely na fábrica da Renault em São José dos Pinhais (PR) e a Leapmotor na fábrica da Stellantis em Goiana (PE), mostram que a tendência, de certa forma, tem tudo para seguir ganhando proporção. Sobretudo porque há espaço para ser ocupado.
Pelas projeções da consultoria Bright Consulting, atualmente as montadoras utilizam 56% da capacidade instalada para produzir veículos no país, configurada para uma produção total de 4,6 milhões de unidades por ano, em jornada de três turnos. Ou seja, as montadoras hoje podem produzir no máximo cerca de 2,6 milhões de unidades/ano.
Projeção: produção pode chegar a 2,86 milhões de unidades até 2030
O movimento de ocupação da capacidade por parte das chinesas deverá ser responsável pela elevação desse volume para 2,86 milhões de unidades até 2030, ainda segundo a consultoria. Nessa conta não entram apenas os volumes de produção divulgados pelas montadoras até o momento, como também envolve o de outras que ainda não estabeleceram manufatura no país.
Nessa onda, chegam a GAC, por meio de parceria produtiva com a HPE em Catalão (GO). Outra chinesa, a Changan, terá seus veículos produzidos na fábrica da Caoa em Anápolis (GO). Omoda Jaecoo ainda busca uma instalação pronta para produzir no país, assim como a Dongfeng. Todas de olho na parcela ociosa de 44% da indústria automotiva nacional.
Espaço disponível em fábricas de JLR, Nissan e Stellantis
Uma fatia que existe não apenas no espaço vago na jornada de algumas fabricantes, como é o caso da Jaguar Land Rover em Itatiaia (RJ), da Nissan em Resende (RJ) ou da Stellantis em Porto Real (RJ), mas também no espaço disponível de algumas unidades, como a fábrica inativa da Chery em Jacareí (SP). Chery que, inclusive, controla a Omoda Jaecoo.
Essa busca por unidades produtivas pelos chineses é vista como algo positivo para a indústria local, e também como algo que demanda acordos fechados entre matrizes na esfera global.
“É uma tendência essa chegada de outras montadoras, mas não vejo como algo acordado localmente. As próximas marcas chegam por meio de parcerias como a da Renault com a Geely, ou como a da Leapmotor com a Stellantis. É algo positivo para a indústria desde que haja produção de fato e não apenas montagem”, comentou o consultor Fernando Trujillo, da S&P Global.
Para David Wong, da Alvarez & Marsal, o movimento não é algo visto apenas no Brasil, como em outras partes do mundo. “A Stellantis vai reduzir sua força de produção na Europa, assim como fez na América do Norte, e isso poderá servir às pretensões de montadoras chinesas que buscam produção local para driblar as barreiras protecionistas impostas aos produtos importados nessas localidades”, contou.
Em seu Investor Day, a Stellantis informou que vai reduzir sua capacidade em 800 mil unidades. No Canadá, a empresa deixou de utilizar a fábrica de Brampton, em Ontário, na qual especula-se que será ocupada por linhas de veículos da Leapmotor. Na Alemanha, a Volkswagen, em caso mais extremo de ocupação de capacidade, estuda converter a fábrica de Osnabrück em uma unidade que produz armas.
Brasil como destino seguro para investimentos
Não é apenas a ociosidade que torna o Brasil atraente. De acordo com Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos, o país hoje oferece um certo cenário de segurança que é interessante ao investimento estrangeiro. “Não somos afetados por questões geopolíticas que afetam produção e oferecemos segurança energética, por exemplo”, disse. “Temos um petróleo que não passa por nenhum estreito.”
Hoje, o Brasil tem 53 fábricas de 26 montadoras de veículos espalhadas por 9 estados. A disputa pelos espaços vagos nas linhas de montagem mostra que, em vez de erguer novas fábricas, a nova lógica da indústria é reaproveitar estruturas prontas. E o parque fabril brasileiro, hoje em parte subutilizado, pode se transformar em protagonista dessa nova fase. Pelo menos é o que a indústria nacional quer.
