
O boom do comércio eletrônico visto ao longo da pandemia ainda reverbera pelo mercado e há uma série de indícios que configuram o e-commerce como algo perene. Um deles é a forma como o varejo eletrônico transformou o setor de caminhões, que segue adaptando a oferta de veículos das fabricantes segundo duas demandas.
As mudanças começaram pelo powertrain, com muitas montadoras anunciando novas configurações de trem de força para atender às aplicações da distribuição de carga urbana. A Scania, por exemplo, inseriu um motor de 11 litros na sua linha Super de pesados justamente para tentar explorar novos negócios entre clientes do comércio eletrônico.
A Volkswagen Caminhões (VWCO), por sua vez, ajustou a sua linha de caminhões leves Delivery pelos mesmos motivos. Uma nova versão do elétrico e-Delivery também surge no mercado com a proposta de ser uma opção a mais em um leque de modelos dedicados à distribuição urbana que só cresce no país.
A montadora, que mantém produção em Resende (RJ), foi além pelo e-commerce e apresentou o seu primeiro furgão para o mercado doméstico, o qual foi desenvolvido em parceria com a chinesa Saic e que deverá chegar às concessionárias no ano que vem.
Mas o comércio eletrônico produziu efeitos mais profundos nas fabricantes, efeitos que extrapolam seus produtos e que hoje respingam também na oferta de serviços dessas empresas – um quadro que gera uma série de oportunidades para um setor que precisa faturar a despeito do cenário difícil de vendas.
De acordo com Jefferson Ferrarez, vice-presidente de vendas da Mercedes-Benz, serão as vendas de modelos médios e leves para frotistas que atuam no e-commerce o pilar de sustentação do mercado em 2027. Um mercado que deverá ser similar ao deste ano. As projeções da indústria indicam algo em torno de 110 mil unidades.
Contudo, o executivo chama a atenção para as mudanças que surgem na esteira do comércio eletrônico, e como elas afetam o modelo de negócio das fabricantes.
“O e-commerce está trazendo não apenas oportunidades, mas aprendizado para todos nós. Principalmente na parte de serviços”, disse Ferrarez na quinta-feira, 21, em evento que marcou os 70 anos da Mercedes no país, em São Bernardo do Campo (SP).
“Nós estávamos acostumados normalmente a trabalhar no mercado com 96% ou 97% de disponibilidade de veículos na operação do cliente. Um nível alto. Esse cliente do e-commerce, por exemplo, está solicitando veículos que proporcionam 98% de disponibilidade”, completou.
Na prática, essa demanda dos clientes impõe desafios em vários aspectos. Principalmente no desenho da proposta comercial. As montadoras passaram o considerar revisões e manutenções, disponibilidade de peças, como fatores ainda mais críticos para que o caminhão desses frotistas praticamente não parem de rodar.
2026 como um espelho de 2027
A perspectiva de juros ainda elevados e de restrições na concessão de crédito deve continuar pressionando o mercado brasileiro de caminhões em 2027, afirma o executivo. Por outro lado, apesar das dificuldades econômicas, a necessidade de renovar frotas antigas deve se manter ativa no ano que vem.
Na visão de Ferrarez, chega um momento em que manter o caminhão em operação deixa de ser economicamente vantajoso diante dos gastos com manutenção e do custo financeiro de adquirir um veículo novo.
“Tem uma demanda reprimida também de vários caminhões que não foram substituídos nos últimos dois, três anos pelas situações econômicas que a gente teve no Brasil. E agora o custo de manutenção está muito alto para os clientes”, afirmou.
A expectativa é a de que parte dos transportadores poderá optar pela compra de veículos, enquanto outros devem recorrer à locação, alternativa que também gera demanda por caminhões novos por parte das empresas do setor.
O executivo destacou, ainda, que o agronegócio, o principal cliente de modelos pesados no país, enfrenta dificuldades adicionais em razão do aumento das recuperações judiciais, movimento que leva os bancos a adotarem critérios mais restritivos ou aprofundar as análises antes de conceder financiamentos.
“Eu não vejo, em relação ao que temos hoje agora, somente nesse último trimestre, um cenário muito mais grave no ano que vem”, disse.
Ele avalia que o próprio sistema financeiro tende a se adaptar às condições do mercado, desenvolvendo novas formas de análise e exigindo garantias diferentes para viabilizar as operações. Nesse contexto, consórcios e locadoras também ganham importância como alternativas para os transportadores.
“O setor de locação tem sido algo que também tem trazido bastante solução para aqueles que não conseguem adquirir um caminhão, adquirir dívidas de longo prazo”, afirmou.
Move Brasil ajudou a sustentar o mercado
O programa Move Brasil, que estimulou a aquisição de caminhões em 2026, também foi citado como um fator importante para a sustentação dos negócios. Segundo o executivo, a situação do mercado no início do ano era preocupante, com vendas em queda e perspectivas de redução da produção.
A deterioração do cenário levou as montadoras, por meio da Anfavea, a negociarem com o governo mecanismos para facilitar a compra de veículos comerciais. O movimento resultou no programa, que ajudou a reverter parte das dificuldades enfrentadas pelo setor.
Para 2027, porém, a expectativa é de continuidade dos juros elevados, ainda que com perspectiva de queda. Por isso, o executivo defende que as fabricantes e o governo mantenham o diálogo para desenvolver instrumentos capazes de viabilizar novos negócios, tal qual foi o programa federal de incentivo.
“Para o ano que vem, a gente continua vislumbrando alta taxa de juros, independente, com viés de queda, felizmente, mas ainda alta, e a gente tem, sim, que desenvolver, inclusive junto com o governo, seja ele qual for, novas formas de viabilizar a aquisição dos nossos clientes”, disse.
Fenatran menos aquecida em 2027
A Fenatran, principal feira de transporte rodoviário de cargas da América Latina, que acontecerá em novembro, deve ajudar a impulsionar os negócios no primeiro semestre de 2027. No entanto, a projeção da Mercedes-Benz é a de que o volume negociado no evento este ano seja 10% menor do que o visto na última edição, há dois anos.
“Na nossa projeção aqui interna, a última Fenatran teve números muito expressivos, muito fortes. Então, nessa Fenatran, estou vislumbrando números em torno de 10% mais baixos do que houve na última”, afirmou.
A comparação, contudo, depende também do comportamento dos compradores e da confiança do mercado. O executivo ressaltou que o ambiente político e econômico pode influenciar as decisões de investimento, especialmente em um ano marcado pelas eleições.
Outro fator é a antecipação de compras proporcionada pelo Move Brasil. Parte dos transportadores que adquiriu caminhões por meio do programa já encerrou seus negócios para 2026, mas deve voltar à feira para negociar veículos com entrega prevista para o próximo ano.
“Mesmo esse cliente que veio e aproveitou o Move Brasil, ele vai para a Fenatran para fechar coisa para o ano que vem. Para esse ano está encerrado”, disse.
