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Hyundai quer usar etanol e até lixo para fazer hidrogênio no Brasil

Produção de hidrogênio em larga escala ainda é inviável por diversos fatores – e não apenas no Brasil
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Vitor Matsubara

19 fev 2025

6 minutos de leitura

Hyundai Nexo, SUV movido a hidrogênio, está no Brasil
Hyundai Nexo tem célula combustível abastecida com hidrogênio e está no Brasil

Pouca gente se lembra que o hidrogênio poderia ser o biocombustível mais apropriado para a descarbonização das frotas de veículos no mundo. Afinal, estamos falando do elemento químico mais abundante do universo e o terceiro mais abundante na superfície da Terra.

Só que a realidade na indústria automotiva não é bem assim. Poucas montadoras investem em projetos de célula combustível a hidrogênio por dois motivos principais: a falta de infraestrutura de abastecimento e principalmente os altos custos.

A Hyundai é uma exceção e investe bilhões de dólares em projetos que usam o hidrogênio como combustível para veículos de todos os tipos, inclusive automóveis de passeio.

Neste segmento, quem representa a marca é o Nexo, SUV vendido em alguns mercados desde 2018 e que tem uma única unidade no Brasil.

Nexo participa de eventos no Brasil, mas venda está descartada

Hyundai Nexo a hidrogênio no Brasil
Feito na Coreia, Hyundai Nexo produz energia elétrica pelo hidrogênio

Só que, por enquanto, o Nexo faz apenas presença VIP por aqui. O modelo não está nos planos da Hyundai para cá, justamente pelas razões que impedem a popularização dos veículos movidos a hidrogênio pelo mundo.

Para se ter uma ideia, a única estação capaz de realizar o abastecimento do Nexo fica em Itajubá, Minas Gerais. Lá, os três cilindros de hidrogênio são enchidos sob uma pressão de 700 bar em aproximadamente cinco minutos.

Hyundai Nexo, SUV movido a hidrogênio, está no Brasil
Cabine do Nexo tem telas para painel e central multimídia

É uma pena, já que o Nexo é um SUV bastante interessante. Apesar de ter sido lançado em 2018, ele vem com itens de segurança e conforto presentes nos modelos mais completos da atualidade.

O carro tem um pacote de assistências à condução (ADAS) com piloto automático adaptativo, alerta de colisão frontal, frenagem autônoma de emergência, assistente de permanência em faixa de rolamento com correção de trajetória e alerta de tráfego cruzado traseiro, entre outras funções.

O Nexo tem até um avançado sistema de estacionamento autônomo que não demanda a presença do motorista atrás do volante. As manobras são comandadas por botões na própria chave e o veículo é capaz de estacionar em vagas paralelas e perpendiculares.

Hyundai Nexo, SUV movido a hidrogênio, está no Brasil
Água é tudo que sai do escapamento do Hyundai Nexo

O veículo funciona por meio de uma reação eletroquímica entre o hidrogênio e o oxigênio captado da atmosfera. Os prótons geram o vapor d’água que sai do escapamento e os eletrons geram a eletricidade que faz o motor elétrico funcionar.

O SUV entrega 163 cv e torque de 37,1 kgfm. A autonomia declarada pela Hyundai é de 666 km pelo ciclo WLTP.

HWTO é marca da Hyundai para projetos com hidrogênio

Soluções da HTWO, marca de hidrogênio da Hyundai
Soluções da HTWO, marca de hidrogênio da Hyundai

A Hyundai não esconde a vontade de produzir hidrogênio em países como o Brasil. A montadora sul-coreana, inclusive, criou uma divisão destinada a projetos que usam o gás como fonte de energia.

A HTWO (belo trocadilho com H2, aliás) tem escritórios em regiões estratégicas do planeta, incluindo no Brasil. Anderson Suzuki, gerente executivo de desenvolvimento de negócios com hidrogênio da Hyundai Motor Central & South America (HMCSA), é quem lidera as operações por aqui.

A empresa participa de eventos relacionados ao uso do hidrogênio como fonte de descarbonização da frota e estuda formas de produzir o gás a partir de fontes renováveis e sustentáveis.

Atualmente, 96% do hidrogênio gerado no país é realizado através de base fóssil, já que esse processo ocorre pela queima do gás natural. Evidentemente não é o cenário ideal para quem pretende fomentar a descarbonização.

A proposta seria produzir o hidrogênio por meio do uso do etanol. O projeto realizado em conjunto com a Shell propõe a produção do gás por uma reação com a água dentro de um reator químico. Esse processo poderia até ser realizado em equipamentos instalados nos próprios postos de combustível, o que eliminaria gastos excessivos com o transporte do hidrogênio.

Entre os projetos da HTWO também se destacam o Waste-to-Hydrogen (ou W2H) e Plastic-to-Hydrogen (P2H). Enquanto o primeiro prevê o uso de resíduos orgânicos para produzir hidrogênio, o segundo aproveita plásticos não-recicláveis para gerar o gás.

A Hyundai já possui uma estação de W2H que utiliza restos de comida para fazer hidrogênio que é fornecido para estações de abastecimento nos arredores de Chungju, na Coreia do Sul.

Hyundai vende caminhão a hidrogênio que roda mais de 400 km

Caminhão Hyundai Xcient
Xcient é o primeiro caminhão grande movido a célula combustível de hidrogênio feito no mundo

Embora invista em automóveis de passeio, como o Nexo, a Hyundai admite que o hidrogênio é um combustível mais viável para os veículos pesados, como ônibus e caminhões.

A fabricante estima que o break even point (ou ponto de equilíbrio, momento no qual a empresa não tem lucro nem prejuízo) acontece com 15 veículos pesados, ao passo que o mesmo ocorre apenas com 700 automóveis de passeio.

Caminhão Hyundai XCient
Autonomia do XCient com cilindros abastecidos passa dos 400 km

É por isso que a Hyundai também oferece o XCient Fuel Cell, o primeiro caminhão pesado movido a hidrogênio fabricado em larga escala no mundo.

Ele é disponibilizado nas configurações 4×2 e 6×2 em vários países, como Alemanha, Suíça, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos, além de outros mercados na América do Norte, Europa, Ásia Pacífico e Oriente Médio.

O pesado tem potência de 475 cv e duas células combustível de 90 kW cada, que resultam em uma autonomia acima de 400 km.

Ainda é cedo para dizer se a aposta da Hyundai no hidrogênio pode render frutos em países como o Brasil. Mas uma coisa é certa: a marca sul-coreana não pretende abrir mão dessa ideia tão cedo.