
Pouca gente se lembra que o hidrogênio poderia ser o biocombustível mais apropriado para a descarbonização das frotas de veículos no mundo. Afinal, estamos falando do elemento químico mais abundante do universo e o terceiro mais abundante na superfície da Terra.
Só que a realidade na indústria automotiva não é bem assim. Poucas montadoras investem em projetos de célula combustível a hidrogênio por dois motivos principais: a falta de infraestrutura de abastecimento e principalmente os altos custos.
A Hyundai é uma exceção e investe bilhões de dólares em projetos que usam o hidrogênio como combustível para veículos de todos os tipos, inclusive automóveis de passeio.
Neste segmento, quem representa a marca é o Nexo, SUV vendido em alguns mercados desde 2018 e que tem uma única unidade no Brasil.
Nexo participa de eventos no Brasil, mas venda está descartada

Só que, por enquanto, o Nexo faz apenas presença VIP por aqui. O modelo não está nos planos da Hyundai para cá, justamente pelas razões que impedem a popularização dos veículos movidos a hidrogênio pelo mundo.
Para se ter uma ideia, a única estação capaz de realizar o abastecimento do Nexo fica em Itajubá, Minas Gerais. Lá, os três cilindros de hidrogênio são enchidos sob uma pressão de 700 bar em aproximadamente cinco minutos.

É uma pena, já que o Nexo é um SUV bastante interessante. Apesar de ter sido lançado em 2018, ele vem com itens de segurança e conforto presentes nos modelos mais completos da atualidade.
O carro tem um pacote de assistências à condução (ADAS) com piloto automático adaptativo, alerta de colisão frontal, frenagem autônoma de emergência, assistente de permanência em faixa de rolamento com correção de trajetória e alerta de tráfego cruzado traseiro, entre outras funções.
O Nexo tem até um avançado sistema de estacionamento autônomo que não demanda a presença do motorista atrás do volante. As manobras são comandadas por botões na própria chave e o veículo é capaz de estacionar em vagas paralelas e perpendiculares.

O veículo funciona por meio de uma reação eletroquímica entre o hidrogênio e o oxigênio captado da atmosfera. Os prótons geram o vapor d’água que sai do escapamento e os eletrons geram a eletricidade que faz o motor elétrico funcionar.
O SUV entrega 163 cv e torque de 37,1 kgfm. A autonomia declarada pela Hyundai é de 666 km pelo ciclo WLTP.
HWTO é marca da Hyundai para projetos com hidrogênio

A Hyundai não esconde a vontade de produzir hidrogênio em países como o Brasil. A montadora sul-coreana, inclusive, criou uma divisão destinada a projetos que usam o gás como fonte de energia.
A HTWO (belo trocadilho com H2, aliás) tem escritórios em regiões estratégicas do planeta, incluindo no Brasil. Anderson Suzuki, gerente executivo de desenvolvimento de negócios com hidrogênio da Hyundai Motor Central & South America (HMCSA), é quem lidera as operações por aqui.
A empresa participa de eventos relacionados ao uso do hidrogênio como fonte de descarbonização da frota e estuda formas de produzir o gás a partir de fontes renováveis e sustentáveis.
Atualmente, 96% do hidrogênio gerado no país é realizado através de base fóssil, já que esse processo ocorre pela queima do gás natural. Evidentemente não é o cenário ideal para quem pretende fomentar a descarbonização.
A proposta seria produzir o hidrogênio por meio do uso do etanol. O projeto realizado em conjunto com a Shell propõe a produção do gás por uma reação com a água dentro de um reator químico. Esse processo poderia até ser realizado em equipamentos instalados nos próprios postos de combustível, o que eliminaria gastos excessivos com o transporte do hidrogênio.
Entre os projetos da HTWO também se destacam o Waste-to-Hydrogen (ou W2H) e Plastic-to-Hydrogen (P2H). Enquanto o primeiro prevê o uso de resíduos orgânicos para produzir hidrogênio, o segundo aproveita plásticos não-recicláveis para gerar o gás.
A Hyundai já possui uma estação de W2H que utiliza restos de comida para fazer hidrogênio que é fornecido para estações de abastecimento nos arredores de Chungju, na Coreia do Sul.
Hyundai vende caminhão a hidrogênio que roda mais de 400 km

Embora invista em automóveis de passeio, como o Nexo, a Hyundai admite que o hidrogênio é um combustível mais viável para os veículos pesados, como ônibus e caminhões.
A fabricante estima que o break even point (ou ponto de equilíbrio, momento no qual a empresa não tem lucro nem prejuízo) acontece com 15 veículos pesados, ao passo que o mesmo ocorre apenas com 700 automóveis de passeio.

É por isso que a Hyundai também oferece o XCient Fuel Cell, o primeiro caminhão pesado movido a hidrogênio fabricado em larga escala no mundo.
Ele é disponibilizado nas configurações 4×2 e 6×2 em vários países, como Alemanha, Suíça, Estados Unidos e Emirados Árabes Unidos, além de outros mercados na América do Norte, Europa, Ásia Pacífico e Oriente Médio.
O pesado tem potência de 475 cv e duas células combustível de 90 kW cada, que resultam em uma autonomia acima de 400 km.
Ainda é cedo para dizer se a aposta da Hyundai no hidrogênio pode render frutos em países como o Brasil. Mas uma coisa é certa: a marca sul-coreana não pretende abrir mão dessa ideia tão cedo.
