
Se os conflitos globais elevaram o custo de insumos básicos na Europa, como eletricidade, gás e gasolina, por outro lado eles chamam a atenção de empresas do setor automotivo interessadas nas demandas do segmento militar por veículos e peças.
O movimento ficou claro há alguns meses, quando a Volkswagen anunciou que venderia uma de suas fábricas de automóveis na Alemanha para uma empresa do Oriente Médio que produz sistemas de defesa. Com o negócio, a montadora se desfaz de um ativo custoso em momento de forte reestruturação.
Mas há empresas que vislumbram outras oportunidades no contexto bélico que faz parte da realidade de algumas regiões. A Mercedes-Benz, por exemplo, apresentou no domingo, 13, durante o Salão de Hannover (IAA Transportation), na Alemanha, a marca com a qual vai atuar neste mercado, a Mercedes-Benz Defence.
O lançamento foi feito sem alarde na oportunidade. Afinal de contas, o aspecto econômico da guerra gera desconforto. Segundo Achim Puchert, CEO global da fabricante, não é possível dimensionar o tamanho deste mercado dada a volatilidade dos conflitos, mas a Mercedes pretende faturar € 1 bilhão até 2028 com negócios neste mercado.
A divisão militar da Mercedes não é algo novo dentro da companhia, que em outras oportunidades abasteceu o segmento militar com caminhões da sua oferta fora de estrada adaptados para aplicações severas. Desta vez, porém, a área foi reorganizada, ganhou marca própria e passou a desenvolver uma oferta específica para aplicações logísticas militares.
Mercedes fecha negócios com Canadá e França
A empresa recentemente negocia o fornecimento de caminhões para o sistema de defesa da Bélgica. Entre os contratos recentemente fechados, destacam-se um grande pedido da Bundeswehr para veículos de logística militar, na casa das centenas de unidades; um contrato com as Forças Armadas Canadenses para pelo menos 1.500 caminhões de logística, e um acordo com as Forças Armadas Francesas, para a venda de 7 mil caminhões.
Aproximadamente mil funcionários estão atualmente envolvidos no negócio de defesa da empresa. A estratégia de crescimento está sendo impulsionada principalmente pela fábrica de Wörth, na Alemanha, e espera-se que crie uma demanda adicional por especialistas nos próximos anos.
“O que vemos é que o mundo está enfrentando cada vez mais conflitos, e a necessidade de aplicações militares e de defesa está crescendo. Se colocarmos isso em perspectiva, os gastos atuais dos países com defesa estão voltando a níveis semelhantes aos observados durante a Guerra Fria”, disse o executivo à reportagem de AB.
“Durante os últimos 20 anos, os gastos com defesa vinham caindo, o que, no fim, é positivo para o mundo. Agora estamos voltando aos níveis anteriores. Por um lado, isso representa uma grande oportunidade de negócios, porque atualmente as atividades militares são muito focadas em logística”, completou.
A linha de caminhões para aplicações militares inclui versões do Arocs, Atego, Unimog e o recém-lançado Zetros.
O Zetros tem versões 4×4, 6×4, 6×6 e 8×8, com motores de 360 cv a 510 cv. Conforme a configuração, o peso bruto total varia de 16,5 a 40 toneladas, enquanto a capacidade máxima de carga vai de 11,6 a 29,3 toneladas. A transmissão automática Allison 4500 SP está disponível em parte da gama. Os pneus têm tecnologia run-flat, que permite rodar temporariamente mesmo após a perda de pressão.
Schaeffler e General Motors também apostam na defesa
A Schaeffler é outra empresa que se organiza para explorar o mercado de defesa. Em junho, a empresa anunciou que Celia Pelaz assumirá em 1º de outubro o comando da STech Defence, subsidiária criada no fim de 2025.
A empresa pretende atingir uma participação de receita de 10% em novas áreas fora de seu negócio principal até 2035. Estas incluem, entre outras, robótica humanoide, defesa e o novo setor aeroespacial.
Nos Estados Unidos, a General Motors negocia com a Lockheed Martin a produção de componentes para armas, com o objetivo de ajudar a ampliar a capacidade de fabricação de munições. A negociação aproveita a capacidade industrial da GM e sua experiência anterior no setor por meio da GM Defense, criada justamente para atuar em aplicações militares.
