
A BYD busca dominar o mercado mundial. Depois de superar as tradicionais Ford e Honda em volume de vendas globais, agora o objetivo da fabricante chinesa é ultrapassar as vendas mundiais da líder Toyota e ficar com o título de maior fabricante de veículos do mundo. A meta foi anunciada pelo presidente da marca, Wang Chuanfu, que espera que o resultado seja alcançado nos próximos cinco anos.
Solidez da Toyota no mundo
A reportagem de AB repercutiu o objetivo da montadora com consultores do setor automotivo para entender o que falta para superar a japonesa Toyota. Para Milad Kalume, da consultoria K.Lume, o principal desafio da BYD vai ser enfrentar a posição consolidada da Toyota no mundo, com restrições de mercado na América do Norte e na Europa, por exemplo, mesmo com um complexo industrial em expansão na Hungria.
“Uma fábrica não se levanta de um mês para o outro, então tem que aguardar um pouco mais para essa fábrica ser construída. E tem uma barreira de entrada alfandegária, de imposto de importação no mercado norte-americano. Potencial a BYD tem, mas isso vai ser concretizado num prazo um pouco maior”, disse.
Com a presença global da Toyota, a chinesa também vai ter que bater de frente com um mercado mais tradicional em outros continentes. “A Toyota já tem esses predicados de regionalização. Ela já está enraizada em outros mercados onde a BYD sequer entrou. Tem a Toyota atuante nos cinco continentes sem qualquer tipo de restrição, e a BYD encontra restrição em alguns determinados mercados, então acho que o processo da BYD vai demorar um pouquinho”.
Oferta de veículos também é um desafio
Um outro desafio para a BYD será superar o portfólio da japonesa. Milad Kalume explica que, além da credibilidade conquistada pela Toyota, a marca apresenta produtos específicos para cada um dos mercados. “Uma Hilux, por exemplo, é produzida em todo lugar no mundo, mas ela tem as suas peculiaridades. Na Toyota, a Hilux produzida aqui para a América do Sul é diferente da produzida na Ásia ou para a África. Ela tem essa força que ninguém tira dela tão fácil, acho que a BYD precisa ainda galgar alguns passos até ter essa credibilidade que a Toyota já tem há muito tempo”, completou.
Murilo Briganti, da Bright Consulting, acredita que existem pontos a serem levados em consideração nessa discussão, como a dimensão da Toyota no mercado norte-americano. Para ele, conseguir abertura no continente é o maior desafio da chinesa, sendo considerado um mercado essencial para o protagonismo global de qualquer montadora.
“A BYD acaba tendo essa barreira no mercado norte-americano por ser uma montadora chinesa, então não é à toa que ela está buscando novos mercados e tem encontrado no Brasil uma oportunidade de começar, pelo menos, a desovar a parte do excedente de produção que ela tem”.
O Brasil é um dos países onde a marca ampliou a atuação e atingiu a marca de 100 mil veículos produzidos. “Esse ano eles já devem fechar cerca de 200 mil carros com produção local, então obviamente eles estão procurando um hub tanto para vender carro quanto um hub de exportação para toda a América Latina. Então é essencial que a BYD cresça nesse mercado para conseguir esse protagonismo que ela tanto procura”.
Meta é ambiciosa e esbarra em mercados estratégicos
Fernando Trujillo, da Mobility Global, considera ambiciosa a meta da montadora e acredita que ela não deve ser alcançada seja dentro ou fora do prazo de cinco anos indicado pelo presidente da marca. “Eles tem um hub muito forte que dá todo esse volume pra eles na China, lá faz bastante sentido eles serem líderes de mercado, e eles estão expandindo globalmente para atingir essa meta, mas na nossa visão isso não deve acontecer”.
Para ele, um dos motivos pelo qual a BYD pode não conseguir chegar no objetivo de ser a maior do mundo é o portfólio limitado a veículos elétricos e plug-ins, além da ausência no mercado americano, se comparado com a Toyota ou outras montadoras mais tradicionais.
“O mundo não está seguindo essas regulamentações tão agressivas como a gente tem visto na China. No mercado americano, as regulamentações de emissões foram todas derrubadas pelo governo”, afirmou Trujillo.
Ele ressalta que um mercado como o americano é considerado expressivo e poderia levar a empresa alcançar a meta, caso ela conseguisse entrar nele. “Nos Estados Unidos, a gente não enxerga uma abertura para as montadoras chinesas, então é um mercado que a gente não vê a BYD entrando, a não ser que tenha uma mudança muito drástica no governo e comecem a abrir o para as chinesas, coisa que a gente não está prevendo”, completou.
Protagonismo na China e expansão global
Por outro lado, David Wong, da Alvarez & Marsal, afirma que não será tão difícil para a BYD superar a Toyota dentro da meta de cinco anos, especialmente levando em conta o tamanho do mercado chines, onde a montadora é protagonista. “Como as não chinesas estão perdendo muito o mercado dentro da China, e o país é um mercado que hoje seria acima de 25 milhões, e a BYD só cresce, o peso de ser a maior montadora do mundo depende do crescimento dela dentro do mercado chinês”.
Ele destaca que para além do crescimento doméstico, a BYD tem uma ampliação internacional agressiva, principalmente em continentes como a América do Sul, no sudeste asiático e na Oceania. “Tem a questão de que a BYD está colocando fábricas fora da China, fábricas também na Europa e isso permite a maior expansão dela, então não é difícil, sob o ponto de vista lógico e matemático, ela passar a Toyota.”, disse.
O consultor acredita que essa meta pode ser alcançada até antes da expectativa da marca, mas isso depende do quanto o mercado chinês cresce. “O mercado chinês esse ano não está crescendo, tem uma guerra muito forte de preços dentro dele, mas à medida que a China já é mais da metade eletrificada, essa conversão acelera e auxilia as vendas da BYD. Na medida que a China volta a crescer, facilita a BYD atingir isso antes de 2030.”.
Para ele, esse protagonismo é ainda mais amplificado com montadoras tradicionais perdendo para as chinesas que investem na produção de elétricos. No caso da Toyota, ele explica que, apesar de se destacar no mercado americano, ela não tem protagonismo dentro de outros países, o que dificulta que a marca se mantenha no topo por tanto tempo.
“O mercado americano também não tem crescido. A Toyota depende do mercado americano crescer e depende menos do mercado europeu. estamos falando dela perdendo no sudeste asiático, onde ela sempre foi forte, na Oceania. A Toyota não é forte dentro da África e países árabes. No Brasil ela está andando em alguns segmentos, mas anda lateralmente, onde os chineses estão dominando praticamente”, completou.
