
Era começo de noite em São Caetano do Sul (SP), e Flávio Figueiredo Assis parecia entusiasmado com a inauguração da primeira concessionária da Lecar. A startup aspira ser uma montadora nacional a partir de 2026, data em que deverá começar a produzir veículos híbridos em fábrica instalada em Sooretama (ES).
O CEO da companhia, oriundo do mercado financeiro, fala na ocasião com firmeza a respeito de assuntos que são caros aos experts do setor automotivo: desenvolvimento de powertrain, prospecção de fornecedores e processos de fabricação.
Também comentou com a reportagem de Automotive Business como pretende financiar uma operação produtiva no país, erguer a primeira fábrica e, também – talvez isso seja o mais importante -, como pretende modelar o preço dos seus veículos para que eles sejam competitivos em um mercado que está cada vez mais acirrado.
Primeiro, os recursos. Assis mantinha negócios no mercado financeiro com duas empresas, a Le Card, de meios de pagamentos online, e o Lebank. Em determinado momento ele desmobilizou os seus ativos para outros players do segmento. Logo depois, decidiu investir na montagem de veículos no país.
Uma vez capitalizado, o autointitulado Elon Musk brasileiro saiu em busca de recursos para custear o seu novo empreendimento.
Executivo vendeu outros negócios para viabilizar a Lecar
A venda de seus antigos negócios lhe deu lastro para viabilizar financiamento nos bancos de varejo. Partes importantes do processo produtivo de veículos, como equipamentos de pintura e de soldagem, podem ser comprados via Finame, uma das linhas de financiamento do BNDES.
Completou o pacote de R$ 870 milhões uma parcela não revelada do seu próprio capital. Na Lecar, o executivo afirma ser o único investidor. Parceria mesmo só em desenvolvimento de produto. Aqui, vale ressaltar, encontra-se um aspecto importante para o modelo de negócio da startup ficar de pé.
Isso porque o outsourcing, também conhecido como terceirização, representa um pilar importante em vários aspectos para a empresa que está iniciando os seus trabalhos.
Assis conta que o Senai Cimatec, da Bahia, colaborou com testes de validação. As áreas de engenharia de seus fornecedores, como Horse (motor), Suspensys (suspensão) e Frasle (sistemas para freios) também colaboraram com o projeto do hatch Lecar 459 – o primeiro modelo da marca a sair das linhas. Na sequência é esperada a picape Campo.
Hatch híbrido da Lecar é “multimarca”
O esquema colaborativo, segue o CEO da empresa, proporcionou economia de recursos e ganho de tempo. Mas talvez a principal vantagem desse modelo em termos de otimização de dinheiro e horas de desenvolvimento seja o fato de que o projeto do 459 envolva a aplicação de componentes já disponíveis no mercado.
O motor flex da Horse, produzido no Paraná, já é um item de prateleira, como se costuma dizer na indústria. Assim como o sistema range extender, da WEG. Também os componentes da Suspensys, da Frasle, e assim por diante.
O executivo afirma que nenhuma dessas partes do trem de força foram desenvolvidas de forma exclusiva para a Lecar – a empresa paga apenas pelo lote.
Os componentes estampados, por envolver design, sim, demandam certo nível de customização e nesse ponto se abriu uma exceção. Assis diz que ter uma prensa in house envolve um investimento que a empresa não dispõe no momento, por isso o plano é recorrer a um fornecedor local.
E por que a peça de prateleira é considerada uma vantagem? Em linhas gerais porque a montadora não precisa garantir volumes aos seus fornecedores, algo que ainda não dispõe e condição quase que imperativa para que um sistemista possa sentar na mesa de negociação com montadoras.
Lecar 459 é um dos híbridos mais baratos do mercado
Com o desenvolvimento e o fornecimento de peças diluído no mercado, mais o apoio de programas de fomento à produção local, a Lecar acredita que seja possível criar condição para oferecer o seu hatch híbrido no mercado por um preço pelo qual o consumidor médio pode pagar.
O Lecar 459 tem preço promocional válido até dezembro de R$ 159,3 mil. O preço de um Toyota Corolla Cross, modelo similar em porte e motorização, parte R$ 203.990.
A empresa aposta todas as suas fichas no Salão do Automóvel deste ano para tornar a marca mais conhecida entre os consumidores. A promessa é de que na oportunidade seja possível apresentar ao público uma primeira versão do 459 homologada para testes. Por ora, o modelo que todos já vimos em fotos de divulgação é apenas um mockup.
O CEO da Lecar também fala com entusiasmo a respeito da expansão da rede de distribuição. Em agosto a empresa terá um representante em Brasília (DF). Até o fim do ano a ideia é que a rede tenha 20 lojas espalhadas pelo país.
Apesar dos planos e estratégias traçados, tudo na Lecar existe apenas no campo das ideias, e isso de alguma forma deixa o mercado em compasso de espera e ao mesmo tempo aumenta a pressão sobre os trabalhos da startup.
Mas isso não parece ser um problema se olharmos em retrospecto a saga do doutor Carlos Alberto Oliveira Andrade para tirar do papel a fábrica da Caoa. As circunstâncias podem ser diferentes, mas não há como negar que o sonho, pelo menos, é o mesmo.
