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Nova tendência, terceirização industrial ganha corpo no Brasil

Capacidade ociosa e demanda por baixos volumes das marcas iniciantes formam cenário propício para uma modalidade que é bem-sucedida na Europa
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Bruno de Oliveira

21 fev 2025

6 minutos de leitura

Com a chegada de novas marcas no país, e com elas a vontade de se produzir veículos localmente, surge uma tendência que pode ganhar corpo nos próximos anos: a terceirização industrial. Ou seja, a fabricação via empresas parceiras já instaladas em solo brasileiro.

O movimento não é novo, nem tão inovador, mas não há como negar que ele passa a se tornar viável uma vez que investimento em linha de produção é algo dispendioso para quem planeja operação comercial por aqui com baixos volumes.

Por conta disso, marcas novatas no mercado doméstico têm buscado alternativas para produzir veículos no Brasil, fugindo, portanto, de alguns riscos cambiais que a importação pura e simples proporciona a quem apenas embarca veículos em navios.

Alguns exemplos recentes mostram que essa busca por terceirização industrial e por produção de baixo volume é real. No ano passado, a Comexport arrematou a fábrica que era da Ford onde produzia veículos Troller, em Horizonte (CE).

Com investimento de R$ 400 milhões, a unidade será uma planta multimarcas com capacidade prometida de 80 mil veículos/ano, com expectativa de início de produção no segundo semestre deste ano. A chinesa Neta deve ser uma das marcas com fabricação por lá.

Terceirização industrial alivia necessidade de investimento

Para o consultor David Wong, da Alvarez & Marsal, faltam no Brasil empresas que proporcionam essa produção em baixo volume. O que representa uma oportunidade de negócio desde que o preço do serviço prestado seja viável para uma fabricação de poucas unidades por ano.

“No Brasil, o investimento na armação de carrocerias com robôs é algo caro, de forma que uma estrutura já existente ou subutilizada acaba e tornando atrativa às empresas que buscam uma produção pequena”, explicou o consultor.

“Fazer uma fábrica do zero, sem ter um plano consolidado de longo prazo, demanda um investimento muito alto”, completou.

Se por um lado ainda são poucas as empresas que prestam serviço de produção multimarca, como é o caso da Comexport, as linhas com capacidade subutilizada têm, digamos, oferta maior. E as marcas novatas estão de olho nisso.

Membros do governo do Ceará e a diretoria da Comexport apresentaram detalhes do empreendimento a ser implantado na antiga fábrica da Troller, em Horizonte (Divulgação)

A Omoda & Jaecoo, por exemplo, já confirmou que produzirá veículos no país e que procura um espaço para tal. A empresa mira a fábrica da Caoa Chery em Jacareí (SP), desativada desde 2022. A Chery, inclusive, é controladora da marca na China.

De concreto dentro deste tema temos a produção da Geely confirmada na fábrica da Renault instalada em São José dos Pinhais (PR). Nesse mesmo molde, a chinesa Leapmotor também deverá ter uma produção pequena dentro dos domínios da Stellantis.

Mercado local complexo viabiliza parceria produtiva

Afora a questão do espaço produtivo disponível, pesa também na questão da terceirização industrial a complexidade do mercado brasileiro em termos fiscais. Nesse sentido, parcerias com empresas já consolidadas no país também faria sentido às pretensões das iniciantes.

“O mercado brasileiro é muito complexo em termos de produto, conteúdo local, regulamentação, taxas de importação, ou seja, o Brasil não é para iniciantes e esse cenário assusta quem chega. Se existe um fornecedor que pode trabalhar com várias marcas, ele terá demanda”, comentou Cassio Pagliarini, da Bright Consulting.

Esse cenário, inclusive, levou a Kia a produzir em uma fábrica que presta serviço de montagem em baixo volume, no caso, a uruguaia Nordex.

À reportagem, José Luiz Gandini, presidente da Kia Brasil, disse que um dos fatores que levaram a empresa a buscar a produção via parceiro foi o ambiente fiscal. Produzir e exportar a partir do Uruguai é uma operação mais barata do ponto de vista fiscal.

Kia não desistiu de produzir veículos no Brasil

Por outro lado, o executivo afirma que ainda existe interesse em constituir uma produção da Kia no Brasil, uma vez que a produção no exterior oferece obstáculos cambiais e logísticos, e no Brasil isso seria de alguma forma mitigado. Inclusive, o executivo diz que a empresa está em negociação com três fabricantes instaladas aqui.

“Nós levamos muitos insumos da Coreia do Sul até o Uruguai, onde montamos e pintamos as carrocerias. O custo logístico aumentou muito com a escalada do dólar, fora problemas de disponibilidade de frete, por isso a produção no Brasil ainda está no radar”, disse.

Ainda que a localização de produção possa ser mais viável do ponto de vista do custo – fugindo do dólar e dos imbróglios logísticos globais -, produzir no país ficou mais caro do que antes.

A Anfavea, a associação que representa as montadoras instaladas no Brasil, já confirmou que o custo produtivo aumentou. E isso também pode ser visto refletido no Índice de Preços ao Produtor (IPP) que o nstituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga periodicamente.

Os preços da indústria nacional registraram crescimento de 1,23% em novembro de 2024 frente a outubro último, mostrou o levantamento mais recente do IBGE. Foi a décima alta consecutiva.

O Índice de Preços ao Produtor (IPP), assim, acumula alta de 7,59% em 12 meses, o maior resultado desde setembro de 2022 (9,84%). Já o acumulado no ano ficou em 7,81%. A maior variação vista em novembro foi a do setor de metalurgia (3,62%), setor no qual está inserido boa parte da indústria automotiva.

Matéria-prima ficou mais cara

O preço em elevação de insumos importantes, como o aço e resinas plásticas, por exemplo, acabou exercendo pressão sobre o custo produtivos das fabricantes, disse a Anfavea em fevereiro.

“O grupo de maior influência em metalurgia foi o de metais não ferrosos. Novamente, a depreciação do real é importante, mas o aquecimento do mercado internacional, com o aumento de preços tanto do minério de ferro quanto de seus derivados, e, principalmente, o aumento dos não ferrosos, em particular do óxido de alumínio, por várias paralisações da produção em muitas partes do mundo, são igualmente importantes”, observou o IBGE, em nota.

Com tantos prós e contras, a hora é propícia aos cálculos. Produzir em locais estratégicos ganhou ainda mais relevância a partir do momento em que a indústria global tenta se reorganizar – protecionismo, cadeia de fornecedores e insumos ditam as regras nesse contexto.

De qualquer forma, o modelo de produção de veículos por meio desta terceirização industrial e parceria na manufatura obteve êxito mundo afora.

Na Europa, temos a Valmet Automotive, que já produziu na Finlândia veículos Mercedes-Benz, Porsche, dentre outros. A Magna Steyr é outro exemplo europeu de produção por demanda. Por suas linhas austríacas já passaram modelos Audi, BMW, Fiat, Jeep, Jaguar e Toyota. A ver se no Brasil dará certo.