
Até pouco tempo atrás, toda montadora de carros que desejava produzir na China precisava se aliar a um parceiro local. Essa regra foi derrubada em 2022, mas acordos firmados há décadas ainda resistem, como os da Volkswagen com as marcas FAW e SAIC.
Só que uma nova tendência toma conta do setor nos últimos anos – e deve crescer ainda mais em um futuro breve. Agora é a vez das fabricantes ocidentais procurarem as marcas chinesas para firmar parcerias. Essa aproximação acontece em todos os níveis, desde uma colaboração em determinados projetos até uma aquisição por qualquer uma das partes.
Tecnologia de ponta dos chineses seduz marcas ocidentais
É verdade que esse tipo de acordo não vem de hoje. A diferença é que, na maioria dos casos, eram parcerias pontuais. Nos tempos atuais, o acordo vai além e prevê compartilhamento de tecnologias, rebranding de projetos e até produção local de veículos.
Murilo Briganti, diretor de operações da Bright Consulting, elenca os motivos pelos quais as marcas chinesas vêm sendo assediadas por rivais do Ocidente.
“Essas parcerias estão se intensificando por razões estratégicas e mercadológicas. Os acordos são impulsionados por três fatores: a velocidade de desenvolvimento dos projetos, o domínio tecnológico (principalmente em eletrificados) e a pressão por preços menores”.
O professor Antônio Jorge Martins, da FGV, lembra que o cenário do mercado automotivo chinês é completamente diferente do restante do mundo. E é justamente isso que fez o país se destacar e liderar o setor.
“Na China criou-se um outro mercado automotivo muito diferente daquele que estamos acostumados no Ocidente. É um mercado totalmente voltado para a tecnologia. Não é à toa que temos veículos chineses ‘invadindo’ outros continentes com muita tecnologia embarcada. A veia principal é essa. Além disso, a alta competitividade exige que as demais empresas (ocidentais) se adequem fortemente à nova realidade do mercado”.
Para Martins, os chineses souberam explorar as parcerias firmadas com as empresas ocidentais para evoluírem a passos largos.
“Não houve um estreitamento suficiente de modo a permitir um relacionamento societário mais indicado às necessidades das (montadoras) ocidentais. Por outro lado, as empresas orientais souberam tirar proveito dessas parcerias, tanto é que, a partir de dois anos para cá, já não há mais necessidade de participação de capital externo (para atuar na China). Hoje, todas elas (empresas chinesas) estão preparadas para enfrentar o mercado interno e o internacional sozinhas”.
Marcas chinesas viraram referência em carros elétricos
O alto nível de conhecimento das montadoras chinesas em relação aos carros elétricos faz com que as fabricantes europeias, norte-americanas e japonesas busquem acordos.
“As marcas chinesas lideram globalmente o desenvolvimento de carros elétricos acessíveis, especialmente em motores, baterias e integração eletrônica. Enquanto isso, as montadoras ocidentais enfrentam desafios para alcançar essa maturidade tecnológica com agilidade própria”, diz Murilo.
“Fabricantes chinesas têm cadeias de suprimento verticalizadas e altamente otimizadas, permitindo custos mais baixos e ciclos de desenvolvimento mais curtos. Então, em vez de desenvolver um projeto internamente do zero, as marcas ocidentais usam plataformas chinesas para acelerar lançamentos e reduzir as despesas de capital”, completa o diretor da Bright Consulting.
Martins, da FGV, aponta que a disparidade cultural, sobretudo no desenvolvimento de novas tecnologias, joga a favor dos chineses.
“Eu diria que está instaurada na China uma cultura de evolução tecnológica contínua. Basta ver os carros de marcas que precisam se internacionalizar, como BYD e GWM. Seus modelos vêm carregados de tecnologia e nunca ficam estagnados. Eles evoluem a cada dois ou três meses. Isso difere fundamentalmente da cultura centenária que existe nas empresas de fora da China. Esse dinamismo atrai as marcas ocidentais”.
O professor ressalta que os investimentos milionários do governo chinês alavancaram a indústria local.
“As empresas chinesas estão muito adiantadas porque o governo local fomentou mais de 200 startups. O resultado é um grande número de ofertantes de veículos elétricos. Hoje cabe às (marcas) ocidentais buscarem parcerias e associações para tentar uma absorção (de conhecimento) ou ao menos formas de evoluir tecnologicamente”.
Marcas da China aproveitam parcerias para se internacionalizar
O recente acordo entre Stellantis e Leapmotor exemplica com perfeição esse “assédio” dos ocidentais às marcas da China. Aqui, porém, existe uma interessante contrapartida para os chineses.
“As (marcas) chinesas precisam de rede e confiança do consumidor em novos mercados, e as montadoras ocidentais podem oferecer tudo isso”, analisa Murilo, da Bright.
Para Antônio Martins, da FGV, a parceria vai acelerar o processo de internacionalização da Leapmotor e abrir portas em mercados onde a marca asiática não tem presença forte.
“A Leapmotor se associou à Stellantis porque, hoje, ela não tem uma estrutura mundial montada que seja condizente com sua tecnologia e capaz de dar vazão ao seu volume de produção. Então, nada melhor do que se valer de uma estrutura já consolidada mundialmente”.
De quebra, o ingresso em outros países também ajuda a “girar a roda” da produção de veículos em solo chinês.
“Vale lembrar que a escala de produção lá (China) é muito maior do que a nossa. Afinal, um país preparado para fabricar até 31 milhões de veículos anualmente tem um potencial mais do que 10 vezes maior do que o volume de produção de nosso mercado, que gira em torno de 2,8 milhões de unidades”.
E se os números não são suficientes para convencer quem ainda desdenha do potencial da indústria chinesa, o diretor da Bright Consulting joga a real.
“A China não é mais apenas um polo industrial, e sim um centro de desenvolvimento automotivo. As montadoras ocidentais, mesmo com sua tradição e forte imagem de marca, precisam se conectar às chinesas para sobreviver na transição elétrica e manter competitividade”, conclui.
Veja exemplos de acordos entre marcas ocidentais e chinesas no Brasil:
Geely e Renault
A Geely, gigante chinesa dona de marcas como Volvo e Zeekr, recorreu à Renault para ingressar no Brasil. As empresas fecharam um acordo de distribuição e comercialização dos carros da Geely no país.
A operação começa ainda em 2025, possivelmente em julho, e o SUV EX5 é um dos modelos confirmados. Futuramente, a ideia é que a marca chinesa aproveite a fábrica da Renault, em São José dos Pinhais (PR), para produzir veículos por aqui.
Leapmotor e Stellantis
A Stellantis foi inteligente ao adquirir a maioria do controle da Leapmotor fora da China. Com isso, ela assumiu as operações da marca fora de seu país natal e se responsabilizou por administrar a empresa e distribuir os modelos nos mercados ocidentais.
É o que acontecerá na América do Sul a partir do segundo semestre. A Leapmotor vai estrear, simultaneamente, no Brasil e no Chile. Inicialmente, a marca chinesa terá uma rede de 34 concessionárias no mercado brasileiro. A maioria delas será administrada por grupos que já trabalham com a Stellantis. Inclusive, algumas lojas vão dividir parede com as demais revendas de marcas como Fiat, Jeep e Ram. Futuramente, a Stellantis admite fabricar carros da Leapmotor no Brasil.
Ford e JMC
Faz alguns anos que a Ford recorreu à China para ampliar sua gama de produtos no Brasil. Assim nasceu o Territory, que estreou por aqui em 2020 – dois anos após ser apresentado no (até agora) derradeiro Salão do Automóvel de São Paulo, em 2018.
O Territory tinha a pretensão de enfrentar o Jeep Compass, mas nunca conseguiu incomodar o rival. Um modelo inteiramente novo (que na verdade se chama Equator Sport) foi lançado em 2023.
Chevrolet e SAIC
A General Motors também recorreu à China para ampliar sua gama de carros elétricos no Brasil. Por meio da Chevrolet, a empresa vai vender dois modelos chineses por aqui: o Baojun Yep Plus e o Wuling Starlight S.
Ambos são feitos por duas marcas que resultam da joint-venture firmada entre General Motors e SAIC. No mercado brasileiro, a dupla será comercializada com a logomarca da Chevrolet. O Yep Plus vai ser vendido como Spark EUV e o Starlight S vai reviver o nome Captiva.
Volkswagen e SAIC
A SAIC também mantém uma duradoura parceria com a Volkswagen na China. Nos próximos anos, essa joint-venture deve resultar, ainda que indiretamente, em um novo produto para a América do Sul.
A próxima geração da Amarok será um projeto exclusivo para o continente baseado na Maxus Terron. A Terron é uma picape de cabine dupla de porte intermediário/grande vendida no mercado chinês por uma das marcas da SAIC.
Até um esboço da nova Amarok já foi divulgado recentemente na Argentina, onde o modelo será fabricado a partir de 2027. Chamado de Projeto Patagônia, ele é resultado de um investimento de US$ 580 milhões na fábrica de General Pacheco.
A picape vai aproveitar apenas a plataforma da Terron, com design e todo o resto do projeto desenvolvidos pelo time da Volkswagen na América do Sul.
