
A indústria de motocicletas passa por um momento bastante positivo no Brasil. Em 2024, o setor vendeu mais de 1,86 milhão de unidades. Esse volume representa alta de 18,6% frente ao ano anterior. E mais: o resultado foi o melhor desde 2011.
As exportações, porém, caíram em relação a 2023. Foram 30.986 motocicletas vendidas para outros países ao longo do ano passado, leve retração de 5,9%.
A redução nas exportações para importantes mercados, como Austrália, Estados Unidos e França, foi a causa da queda no volume vendido para fora.
Quem está familiarizado com o setor automotivo pode até estranhar, mas as fabricantes exportam milhares de motocicletas para países mais desenvolvidos do que o Brasil.
Essa prática é rara entre as montadoras de automóveis de passeio e veículos comerciais, uma vez que as regras para exportar veículos para esses mercados são bastante rígidas.
Motos feitas no Brasil seguem padrão de primeiro mundo
Automotive Business procurou Honda, Yamaha e BMW Motorrad para falar sobre as razões de a indústria de motos no Brasil seguir um padrão compatível aos países de primeiro mundo – leia-se mercados da Europa e Estados Unidos.
Das três empresas com fábrica no Polo Industrial de Manaus (AM), a BMW Motorrad foi a única que não retornou aos pedidos realizados pela reportagem.
Produção e qualidade seguem normas internacionais
A Honda destaca a exportação de motos para mais de 15 países nas regiões da América do Sul, América Central (Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Panamá) e América do Norte (Canadá, México e EUA), além da Austrália e Nova Zelândia, estes na Oceania.
“Isso demonstra que a engenharia brasileira está alinhada tecnologicamente para atender aos exigentes mercados internacionais. Além disso, reforça o quanto as regulamentações brasileiras estão equiparadas aos mais altos níveis internacionais”, disse a Honda por meio de sua assessoria de imprensa.
A Yamaha destaca que todas as motocicletas fabricadas no Polo Industrial de Manaus “se destacam por seus elevados padrões de produção e qualidade”.
Entre os motivos estão a adoção de processos verticalizados. O que, segundo as montadras, permite adotar tais padrões de qualidade e desenvolver novas tecnologias para as motocicletas.
A empresa ressalta, ainda, que adota padrões semelhantes ou iguais aos utilizados no Japão, em países europeus e demais países asiáticos nos testes de emissões, ruídos e durabilidade realizados em suas motocicletas.
Promot segue regras adotadas na Europa
Honda e Yamaha atribuíram a boa penetração das motocicletas brasileiras no exterior à regulamentação do Promot, que, desde 2003, estabelece limites máximos de emissões de poluentes e níveis de ruído.
Atualmente, o programa está na fase M5 do programa, que pode ser equiparada ao Euro 5, conjunto de normas europeias que também visa reduzir a emissão de poluentes.
Os requisitos desta fase devem ser atendidos por todos os projetos lançados a partir de 2023 e, desde o começo de 2025, por todos os modelos novos vendidos no país.
O alinhamento do Promot M5 com as normas adotadas no primeiro mundo abre as portas de países da Europa e outras regiões para as motos feitas no Brasil.
Entretanto, esse nível de exigência não é visto na maioria dos países da América do Sul. Vários têm legislações em estágios anteriores ou sequer têm regulamentações.
É por isso que as motocicletas brasileiras exportadas para os países vizinhos “acabam tendo um nível de tecnologia superior e, portanto, um valor que reflete tal avanço”, segundo a Honda.
Abraciclo sugere padronização na América do Sul
Essa condição levantou até uma questão importante na Abraciclo. O presidente da associação, Marcos Bento, classificou as motos fabricadas no Brasil como “de primeiro mundo”.
Bento, inclusive, sugeriu que o governo brasileiro cobrasse a adoção de padrões igualmente rígidos nos outros países da América do Sul.
Essa falta de rigor nas normas de emissões de poluentes e segurança prejudica diretamente as exportações brasileiras na região.
Como as motocicletas produzidas no Polo Industrial de Manaus adotam padrões compatíveis com mercados mais desenvolvidos, o Brasil perde competitividade diante de fabricantes que produzem motocicletas menos seguras e mais poluentes, porém mais baratas.
Isso explica a “invasão” de marcas chinesas com produtos de qualidade questionável em vários mercados vizinhos ao Brasil. Essas motocicletas, inclusive, são inferiores em termos de segurança e qualidade de produção às trazidas para cá por outras empresas da China.
Honda e Yamaha endossam proposta da Abraciclo
Tanto Honda quanto Yamaha apoiam a ideia de padronizar as normas regulatórias na América do Sul.
A Yamaha acredita que a padronização favorecerá o desenvolvimento de motocicletas com limites de emissões de gases e ruídos “mais adequados à realidade ambiental atual”.
“Isso também aumentará a competitividade das motocicletas fabricadas no Brasil e a eficiência operacional em âmbito regional”, afirmou a empresa à Automotive Business.
A Honda também defende uma uniformidade nas regras dentro da região.
“Uma padronização nas regulamentações pode trazer ganhos no volume de exportação e também equiparar a indústria regional às grandes cadeias de comércio”.
