
Em meio ao cinza do asfalto e às buzinas do congestionamento, eles surgem. Os riquixás, elétricos ou não, estão passando. A decoração, sempre em cores vibrantes, retrata estrelas do cinema, animais da natureza, histórias folclóricas ou imagens religiosas. As sinetas sempre anunciam a chegada desse símbolo da mobilidade de alguns países da Ásia.
Bangladesh tem pouco menos de 150 mil quilômetros quadrados, sendo menor que o estado do Ceará. Ainda assim, tem 162 milhões de habitantes, três quartos da população do Brasil, o que o torna um dos países com maior adensamento populacional do mundo. Essa aglomeração é visível nas ruas abarrotadas, em que ir e vir se tornaram tarefas muito difíceis.
Os riquixás são uma solução de mobilidade quase inevitável nesse contexto. Nas primeiras décadas do século 20, quando o país se chamava Bengala Oriental e era colônia do Império Britânico, esses veículos foram introduzidos em Daca, a capital, por comerciantes japoneses e chineses. Inicialmente, eram reservados às elites, devido ao seu alto custo — na sociedade rural da época, quem era pobre andava a pé ou de carroça. Para os aristocratas, era um luxo ser transportado sem precisar fazer esforço físico.
Riquixá foi da tração humana à elétrica
Inicialmente, os riquixás eram conduzidos por tração humana, com o “riksha-wala” (রিকশাওয়ালা em bengali), ou “condutor de riquixá”, usando a própria força para puxar o veículo. Com o tempo, esses modelos foram substituídos por aqueles com pedais, muito mais práticos, e que são predominantes até hoje.
Porém, desde o final da década de 2000, muitos riquixás do país têm sido adaptados pelos usuários para modelos elétricos: utilizando motores chineses importados e baterias de chumbo-ácido.
Essa nova onda de riquixás elétricos (ou e-riquixás) levou o Ministro de Energia e Recursos Naturais do país, Nasrul Hamid, a apelidar o fenômeno de “Tesla de Bangladesh” em fevereiro de 2024. Sua estimativa era de que havia 4 milhões de e-riquixás no país — para efeito de comparação, no Brasil, no final de 2023, havia cerca de 200 mil veículos elétricos em circulação.
Mobilidade por riquixá é problema e solução
Um estudo de 2008 apontou o riquixá como principal modal de mobilidade em Daca, provendo cerca de 7,6 milhões de viagens por dia. O metrô de São Paulo, em 2024, bateu o recorde do pós-pandemia em novembro ao transportar 3,2 milhões de pessoas em um só dia, ou seja, menos da metade das jornadas feitas via riquixá na capital de Bangladesh.
Mas, mesmo sendo uma parte essencial da mobilidade do país e também um símbolo cultural daquela sociedade, os riquixás sofrem com a falta de regulamentação. A maioria desses veículos não é registrada: “Em 2014, a Suprema Corte do país rejeitou petições de cinco associações de proprietários para legalizar seus veículos, efetivamente proibindo seu uso em duas grandes cidades. Isso fez pouco para impedir sua disseminação”, afirma o jornalista Omair Ahmad em artigo do Dialogue Earth. “Em 2021, o governo emitiu uma proibição nacional para melhorar a segurança nas estradas, mas ela foi rapidamente abandonada após protestos de associações de riquixás”.
Em 2024, e-riquixás chegaram a ser banidos
Bangladesh é um país muito carente em termos de mobilidade. Daca, com sua gigantesca população, tem uma única linha de metrô, inaugurada em 2022, com apenas 12 km de extensão. Os ônibus são a principal forma de transporte oficial na cidade, mas são conhecidos por serem superlotados, precários e operarem em horários irregulares, além de enfrentarem congestionamentos pesados.
Há também trens interurbanos, igualmente precários, e transporte fluvial, já que Bangladesh conta com muitos rios. Tanto em áreas urbanas como rurais, os riquixás são a opção de transporte mais barata, rápida e eficiente.
O assunto do banimento dos riquixás elétricos do cenário da mobilidade do país voltou a ganhar destaque no final de 2024 quando, em agosto, a Suprema Corte determinou sua proibição nas ruas de Daca. Houve nova onda de protestos, com os condutores bloqueando vias e complicando o já caótico trânsito da cidade. A proibição foi derrubada em novembro, mas a questão está longe de ser encerrada.
Problema ambiental
Em primeiro lugar, há a preocupação ambiental: muitos riquixás elétricos usam baterias de chumbo-ácido de baixa qualidade. O descarte inadequado desses itens resulta em poluição severa, especialmente na contaminação do solo e da água. Há também o impacto no sistema de energia, já que esses veículos precisam ser recarregados e o fornecimento de eletricidade em Bangladesh já é inadequado para a demanda.
Falta também regulamentação, o que leva a problemas de segurança: os riquixás elétricos geralmente não possuem equipamentos essenciais, como cintos ou iluminação adequada. Além disso, muitos motoristas não têm treinamento formal. Por fim, condutores dos riquixás tradicionais, movidos a pedal, reclamam que os modelos elétricos representam concorrência desleal, por serem mais rápidos, mas não atenderem os requisitos de segurança.
O impacto social dos e-riquixás
“Nós não queremos usar os riquixás de pedal, pois são muito difíceis de dirigir e exigem força física, [especialmente] durante tempestades e ondas de calor”, afirmou Raju, um motorista de riquixá elétrico de 18 anos em Daca, ao jornalista do Dialogue Earth. Ele acrescentou: “Três pessoas não podem sentar em um riquixá de pedal, mas podem viajar confortavelmente em um riquixá elétrico. Tenho meus pais e irmãos na minha família. Pago 500 taka (R$ 24) por dia como aluguel e fico com entre 700 a 800 taka (R$ 35 a R$ 40) por dia depois de pagar o aluguel”, explicou ele.
Mohammad Milon Sarkar, de 57 anos, possui uma garagem com 25 riquixás e 40-50 riquixás elétricos, que ele aluga. “A maioria dos motoristas é jovem”, disse ele ao Dialogue Earth. “Anteriormente, esses jovens costumavam andar pelas ruas. Eles não conseguiam dirigir riquixás de pedal, pois era difícil e acabavam se envolvendo com drogas e não ouviam seus pais. A vida deles mudou quando começaram a ganhar dinheiro dirigindo riquixás elétricos, e esses jovens estão agora ajudando suas famílias com esses ganhos”.
É difícil estimar uma resolução para a situação. Os riquixás elétricos vieram para ocupar uma lacuna importante na mobilidade de Daca, que supre a falta de investimentos do estado em transporte seguro e eficiente. Por outro lado, a falta de regulamentação vai gerar problemas no longo prazo, especialmente em relação ao meio ambiente. No trânsito caótico de Bangladesh, as filas de carros continuarão se formando. E as sinetas continuarão tocando.