
A cidade de Austin estava fria apesar do sol no horizonte quando um Jaguar F-Pace da Waymo, elétrico e cheio de sensores que mais pareciam alegorias futuristas presas à carroceria, apareceu na entrada do hotel para me buscar. Era um veículo autônomo. Minha primeira viagem em veículo do tipo.
A cena matinal acabou sendo no final da quinta-feira, 12, sendo o resumo perfeito do que foi o primeiro dia de conteúdo do South by Southwest (SXSW). Automação, Inteligência Artificial e interação humana com robôs foram a tônica dos principais debates realizados na estreia do evento.
Em resumo, especialistas de diversas áreas que conduziram conversas sobre esses temas defendem a ideia de que robôs ou sistemas automatizados já chegaram na sua maturidade tecnológica – há muito pouco, portanto, para se evoluir em termos de hardware e sua codificação para que ganhe vida.
O que sim ainda é vasto campo para ser explorado seria o ambiente no qual humanos e máquinas convivem lado a lado. A relação com os robôs precisa ser humanizada, argumenta o designer Afshin Mehin, da Card79. A medida é necessária para que haja uma quebra de paradigma no trabalho que ainda não ocorreu.

“Os robôs precisam sair da jaula”, disse em sua apresentação em uma sala do Hotel Hilton com cerca de 100 espectadores e mais outra dezena do lado de fora que não pôde entrar por causa da lotação máxima.
Quando o designer afirma que os robôs precisam sair da jaula ele diz sem qualquer tipo de figura de linguagem. Quem já entrou em uma linha de produção de veículos provavelmente já se deparou com um braço robotizado realizando uma operação em um ambiente cercado por grades.
Eu mesmo, por exemplo, lembro quando estive pela primeira vez na fábrica da Stellantis em Betim (MG) e o diretor da unidade, numa espécie de visita guiada chamada de plant tour, disse que aquele braço articulado gigante da Fanuc que soldava uma chapa em outra estava ali confinado por segurança.
Mehin, por outro lado, apontou em sua apresentação que a grande tendência no futuro da manufatura é justamente o contrário – o robô realizando tarefas sem qualquer tipo de barreira que o isole dos funcionários humanos.
E isso vai acontecer, explica o designer, para que haja resultados positivos em termos de produtividade. Se em uma equipe formada por seres humanos o ambiente de trabalho fica melhor quando há bom relacionamento entre as partes, o mesmo deveria ocorrer num grupo misto composto também por máquinas.
O cenário ainda é distante porque os robôs ainda são pouco amigáveis em termos estéticos, daí a crença de que ele precisa, antes que tudo e sobretudo, sair da jaula.
Mais do que isso, ele precisa ser humanizado. Mehin acredita que alguns pontos na aplicação e na programação dessas máquinas precisam ser melhorados nesse sentido para que a parceria homem-mulher-máquina se torne uma experiência mais completa.
Dentre os pontos, o que achei mais interessante foi a programação dos robôs para avisar as pessoas sobre o que vai fazer antes de realizar o movimento de fato. “O ser humano busca a previsibilidade. Se ele souber de antemão o que o robô vai fazer, a tendência é de tranquilidade no ambiente de trabalho”, disse o designer.
Enquanto argumentava, no telão passava um vídeo de um funcionário realizando uma montagem em uma bancada com um braço automatizado sobre ela. A máquina avisava “vou pegar esta peça”, ao que o trabalhador respondia “tudo bem, vá em frente”.
Em outro frame, o funcionário se aproximava de forma involuntária ao equipamento, que alertava: “estou no meio da operação e você está muito perto. Afaste-se”. Uma cena corriqueira em qualquer fábrica com postos de trabalho ocupados por humanos. A ideia é que essa interação parece familiar também com a presença dos robôs.
“O problema central não é fazer o robô funcionar, mas fazer humanos entenderem o que ele está fazendo. Humanos naturalmente atribuem intenção a qualquer coisa que se move, mesmo quando não existe intenção real”, explica Afshin Mehin. “Portanto, robôs precisam comunicar claramente suas intenções e ações.”
A automação, no entanto, apresenta certa dicotomia quando é discutida por especialistas em tecnologia. Se por um lado há uma ala que explora as maravilhas que ela proporciona a pessoas e empresas, por outro há o grupo que alerta para as mudanças que sistemas automatizados podem provocar no status quo.
Em outro debate do SXSW, Sanjay Sarma, professor do renomado Massachusetts Institute of Technology, o MIT, afirmou categoricamente que a humanidade flerta como nunca com a atrofia cerebral, dada a nossa dependência cada vez maior por inteligência artificial.
“Se a IA virar uma espécie de muleta permanente, vamos perder capacidades cognitivas elementares”, disse o professor também em uma sala lotada. Em linhas gerais, solicitar às máquinas que realizem tarefas básicas está tornando a nossa geração mais burra, uma vez que raciocinar menos enfraqueceria nossos cérebros a esse ponto.
E segundo o professor, tal fenômeno já acontece, por exemplo, com o uso do Google Maps. “Ele já destruiu nosso senso de direção. Você chega a uma cidade nova e se torna dependente do aplicativo. Não sabe mais distinguir norte de sul”, disse à plateia, que riu.
Ele explicou que as ferramentas baseadas em IA criam uma certa dependência que inibe a prática de certas habilidades. E quando isso acontece, as redes neurais tendem a enfraquecer.
A IA também mudou a forma como aprendemos as coisas, e isso foi expresso no debate do SXSW por Olivia Joseph, estudante de ciência da computação do MIT. “Os estudantes estão dependentes da IA em vários níveis. Não apenas na resolução de tarefas simples, mas na forma como interagem. Ninguém mais se junta em grupo para resolver problemas”, contou.
Seja uma ferramenta de IA, um robô automatizado ou um carro autônomo, como aquele que me trouxe até o centro de Austin pela manhã, o fato é que a tecnologia que os une é algo que veio para ficar e demanda adaptação em diversas frentes.
Talvez ainda não seja possível dimensionar os impactos que a aplicação deles poderão causar na sociedade e nem seja possível prever quais serão essas adaptações. O que já podemos dar como certo é que a sua presença será cada vez mais comum no nosso cotidiano. Seus benefícios e também as suas mazelas.
