
A Dongfeng (DFM) negocia com Stellantis e Nissan parcerias que possam dar vida à sua produção local de veículos por meio de esquema SKD, com kits de peças importados da China. Para Wang Jiong, CEO da operação da empresa no Brasil, a montagem de carros no Brasil será algo concreto a partir do final de 2027. Enquanto as conversas ocorrem, uma coisa é vista como certa para o executivo: faz sentido costurar parceria com as duas empresas.
“Negociar com as duas empresas é positivo. A Stellantis é líder na América do Sul e tem mais de 2 mil pontos de venda. A Nissan em Resende, por outro lado, tem uma ótima estrutura produtiva, controle de qualidade e cadeia de suprimentos. Podemos aproveitar o melhor de cada lado para construir uma relação de benefício mútuo”, disse Jiong na segunda-feira, 3, naquela que foi a sua primeira entrevista no Brasil. E a AB estava lá.
Ainda de acordo com o executivo, a parceria está sendo costurada pelas matrizes. Mas, provavelmente, o melhor formato para a operação brasileira seria a constituição de uma joint venture, com aporte de capital das partes. Esse modelo, inclusive, já é praticado no Brasil pela Renault Geely do Brasil, na fábrica de São José dos Pinhais (PR). Ali, além dos modelos Renault, sairão das linhas ainda este anos os modelos da marca chinesa EX5 e EX2.
Produção local da DFM ficará para 2027
“Não é uma decisão simples, mas o progresso é positivo. Para 2026, devemos operar com veículos importados [CBU]. Talvez no fim do próximo ano ou no segundo semestre de 2027 tenhamos uma visão mais clara sobre a produção local. Nas conversas, há indícios de que a Stellantis prefira uma parceria exclusiva, enquanto a Nissan parece mais aberta”, contou Jiong à reportagem.
A montadora também avalia manter produção local em países vizinho, como Peru e Chile, o que de alguma forma afasta a ideia de que a produção brasileira da DFM representaria uma espécie de hub para a região, algo que é buscado por outras montadoras chinesas com operação no país, como GWM e BYD. “O Brasil é prioridade, mas custos logísticos podem justificar outras alternativas”, disse o CEO.
A Stellantis confirmou que a parceria que está sendo discutida com a DFM deverá ser industrial, com compartilhamento de linha de produção e de modelos desenvolvidos na China que desembarcam no mercado doméstico pelas mãos da montadora franco-italiana, assim como já acontece em seus domínios com a marca chinesa Leapmotor.

“Quem vai decidir tudo isso a respeito das marcas é a Dongfeng e eu ainda não sei o que eles querem. Agora, quem decide se esses modelos vão ser produzidos aqui ou não, somos nós”, afirmou Herlander Zola, CEO da Stellantis na América do Sul, em julho. A Nissan, por sua vez, ainda não se manifestou oficialmente a respeito do assunto.
Enquanto a Stellantis busca crescimento no mercado por meio de parcerias, e também formas de ocupar a capacidade de seus ativos industriais no futuro – como a fábrica de Porto Real (RJ), com incertezas a respeito da renovação da oferta Peugeot/Citroën, e a inativa fábrica de motores de Campo Largo (PR) -, a Nissan poderia ter entrado nas conversas com a intenção de fortalecer a sua operação na região e ocupar mais a fábrica de Resende (RJ).
Conversas entre as montadoras ocorrem desde abril
De qualquer forma, enquanto as conversas seguem – e elas já ocorrem pelo menos desde abril, quando representantes locais da Nissan, como o ex-CEO Gonzalo Ibarzábal, se reuniram com a DFM na China – a Dongfeng dá início a sua operação comercial no mercado local com veículos importados.
A operação começará com a venda dos modelos DFM Vigo e Box, um SUV e um hatch compacto, respectivamente.
O Vigo chega para brigar no segmento SUV B, onde reinam hoje modelos com motor de combustão, como Volkswagen T-Cross e Chevrolet Tracker, mas também mira concorrentes chineses elétricos com mais tempo por aqui, como o Geely EX5 e o BYD Yuan Pro.
Já o Box é um hatch elétrico compacto que tem porte e predicados para disputar mercado com o BYD Dolphin Mini, que tem registrado volumes expressivos de vendas no Brasil, além do Geely EX2.
A operação comercial de pré-venda começa por meio de lojas oficiais em marketplaces como Mercado Livre e Webmotors. As marcas subsidiárias que compõem a oferta da empresa no país são: DFM, mais generalista e principal aposta da companhia no mercado brasileiro; Voyah, com modelos de luxo, e a Mhero, de utilitários com apelo fora de estrada.
O primeiro lote de veículos composto por cerca de 300 unidades chegará em setembro e será destinado a test-drives e showrooms nas lojas da rede que estiverem prontas. O lote seguinte, previsto para outubro, deverá trazer entre 1.000 e 1.500 carros.
O processo de homologação dos dois modelos deverá ser concluído até o final do mês, informou o CEO. Ambos serão lançados simultaneamente, e oficialmente, no Festival Interlagos 2026.
