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Estratégia

Jeep Avenger e Fiat entregam escala que a Stellantis precisava no país

Com novos turnos em fábricas e aposta no novo SUV compacto, grupo amplia produção para reduzir custos e enfrentar a pressão de concorrentes chineses no Brasil

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Bruno de Oliveira

10 jul 2026

5 minutos de leitura

Abordei o CEO da Stellantis, Herlander Zola, nos corredores do Anfavea Visions, no começo de junho. Falamos sobre o futuro das marcas do grupo, como Peugeot e Citroën, e como a empresa observava o redesenho da capacidade produtiva no país. “Nosso modelo de negócio é baseado em escala, e só dará certo se saturarmos todas as nossas fábricas”, disse o executivo naquele momento que era marcado pelo anúncio do novo plano estratégico da companhia, o Fastlane 2030.

Não demorou muito para que a empresa traduzisse em ações o discurso do executivo. Um mês depois, estive na fábrica que a montadora mantém em Porto Real (RJ), para ver de perto a produção do SUV compacto da Jeep na linha em que passam também modelos Citroën. Com ele, a empresa vai mais do que saturar, como disse Zola, a unidade do sul fluminense. O segundo turno aberto ali por causa do Avenger tira a fábrica de um estado de torpor que a mantinha letárgica desde os tempos de PSA.

A nova realidade da fábrica, inclusive, atraiu oito novos fornecedores para a região: S Riko, Nexteer, Pilkington, Vuteq, Cooper, Sodecia e PPG. Estas empresas se somam a outras cinco que já integravam o parque local de fornecedores de Porto Real: MA Automotive, Benteler, Forvia Seats, Fastplas e PO.

Stellantis abre terceiro turno em Betim

Foi também em junho que a empresa anunciou que vai abrir o terceiro turno da sua fábrica mais icônica na América do Sul, a de Betim (MG). A demanda por veículos Fiat no mercado doméstico aumentou no momento em que a marca completa 50 anos de operações no país. As demandas de frotistas pela picape Strada – automóvel mais vendido do país há cinco anos – e pelos compactos Mobi e Argo, levaram a empresa a saturar também as linhas da fábrica mineira, que passa a ter 19 mil funcionários.

A busca por mais escala, como podemos ver, é uma forma que a empresa considera como chave para manter alto o seu poder de competição em um mercado onde uma guerra por preços já ganha contornos com as montadoras reduzindo as cifras de suas tabelas.

Produzir mais, pela lógica industrial, reduz o custo necessário para a compra de componentes e, por consequência, o custo unitário de cada veículo produzido. Se atrelarmos isso ao fato de que os modelos Stellantis têm um alto nível de compartilhamento de peças – como o próprio Jeep Avenger, com importante conteúdo de peças Peugeot/Citroën em sua construção -, podemos concluir que a montadora está se preparando para defender sua participação de mercado da invasão chinesa com uma oferta de carros com um tíquete mais flexível.

Citroën segue relevante no plano industrial da Stellantis

Jeep Avenger compartilha peças com modelos das marcas francesas da Stellantis (foto: Bruno de Oliveira)

Com esta jogada, a montadora também mostra que a Citroën segue como personagem relevante em sua trama industrial na região, a despeito dos baixos volumes de vendas que os veículos da marca registraram nos últimos anos. As 39.890 unidades emplacadas pela marca no ano passado podem parecer pouco quando comparadas com as vendas da Fiat (533.710). Mas, no cômputo total, são cerca de 40 mil veículos que ajudam o grupo a ter um poder de negociação com fornecedores que nem todas as montadoras têm.

“Peugeot e Citroën nunca serão marcas de massa”, disse Zola na quarta-feira, 8, em encontro com jornalistas em Belo Horizonte (MG). Foi a primeira vez que alguém da companhia assumiu uma realidade exposta há muito tempo pelos balanços de vendas. “Erramos na estratégia lá atrás e agora precisamos reposicionar os produtos em nichos específicos do mercado”, seguiu o executivo na oportunidade.

As marcas da Stellantis, inclusive, podem ser consideradas o seu principal ativo se observarmos com atenção os seus planos industriais na região. Além de proporcionarem à companhia redução de custos e maior poder de barganha na cadeia de suprimentos, também viabilizam oportunidades de aumento de escala produtiva – e em tempo recorde. A costura da parceria industrial com a Leapmotor por aqui é um bom exemplo disso. Outra parceria que se desenha no horizonte é também com outra chinesa, a Dongfeng (DFM).

Stellantis e Dongfeng ainda discutem parceira no Brasil

Zola informou que ainda há muito a se discutir a respeito de como se dará essa parceria com os chineses antes de se bater o martelo. No entanto, sinalizou que a parceria com a DFM, assim como ocorre com a Leapmotor, também será industrial. Os modelos que a empresa desenvolveu na China para mercados emergentes vão desembarcar por aqui, contou o executivo. Resta saber se eles serão produzidos localmente e, também, se levarão na grade frontal a logomarca chinesa ou outra que integra o portfólio Stellantis.

“O mais importante desta parceria é a capacidade que ela nos dá de desenvolver rápido novos veículos e renovar a nossa oferta. Quem vai decidir tudo isso a respeito das marcas é a Dongfeng e eu ainda não sei o que eles querem. Agora, quem decide se esses modelos vão ser produzidos aqui ou não, somos nós”, contou o CEO da Stellantis na América do Sul.