
A Stellantis apresentou na quinta-feira, 21, o seu novo planejamento para os próximos cinco anos, que tem como principais pontos o direcionamento dos investimentos para o seu maior mercado, os Estados Unidos, e o rebaixamento da marca Citroën para uma espécie de segunda prateleira, deixando de ser uma marca global para a companhia.
O novo planejamento, batizado de Fastlane 2030, substitui outro anunciado em 2022, o Dare Forward 2030. O ajuste na bússola, representado na troca de um pelo outro, se deu em função das novas prioridades que a montadora adotou, todas elas impostas pelas dificuldades que enfrenta no mercado em meio à concorrência com marcas chinesas.
Novo plano reduz metas de eletrificação
Não que as metas do Dare Forward tenham sido abandonadas. O plano versava sobre a aposta em economia circular e produção neutra em carbono até 2030, e as coisas andaram bem nesse sentido com uma série de iniciativas relacionadas aos dois assuntos.
O avanço das chinesas e mudanças no perfil de consumo nos EUA e sobretudo na Europa, a casa de muitas das marcas do portfólio da Stellantis, tornaram difícil o alcance de outras metas do seu antigo planejamento.
O plano indicava 100% das vendas na Europa e 50% das vendas nos Estados Unidos compostas por veículos elétricos a bateria (BEVs) até o final da década. Também ter mais de 75 BEVs em sua oferta e atingir vendas globais anuais de cinco milhões de veículos BEVs até 2030.
O mercado mudou, e a montadora também. Não demorou muito para a empresa, por exemplo, resgatar veículos com motores de combustão que havia deixado de lado por causa de suas pretensões no campo dos eletrificados.
Nos Estados Unidos, por exemplo, voltaram ao line-up dois modelos que haviam sido deixados de fora das linhas de produção em 2023. No caso, a versão híbrida do SUV médio Jeep Cherokee e o possante Dodge Charger Sixpack.
Resgatou também o aclamadíssimo propulsor Hemi V8 de 5,7 litros – que tinha saído de cena para dar lugar a uma versão híbrida do motor Hurricane – na picape Ram 1500 em sua versão 2026.
Parcerias com chinesas no centro da estratégia
No Fastlane 2030, as correções foram feitas. A montadora, claro, segue antenada no futuro elétrico, mas agora por meio de parcerias estratégicas. Nesse sentido, primeiro veio o acordo com a Leapmotor, que permitiu vender modelos da marca fora da China e acessar know-how dos chineses no campo industrial.
Depois, formou joint venture com a Dongfeng, com quem vai produzir modelos elétricos Peugeot e Jeep para o mercado chinês, sem mencionar colaboração em áreas como engenharia, compras e, mais importante, compartilhamento de capacidade produtiva. Com o acordo, os chineses poderão ocupar a capacidade ociosa que a Stellantis tem no mundo. Na Europa, América do Norte e, claro, no Brasil.
A empresa também aposta na simplificação da sua operação global para focar seus esforços onde, no momento, importa. Na Europa, enxugou sua capacidade produtiva em 800 mil unidades. Nos EUA, por outro lado, pretende ocupar 80% da sua capacidade instalada até 2030.
Grupo divide marcas entre globais e regionais
A Stellantis também simplificou a atuação das suas marcas de forma a também focar nas que proporcionam melhores números. Jeep, Ram, Peugeot e Fiat ficam na primeira prateleira, recebendo a maior parte dos investimentos nos próximos anos. Só nos EUA, a empresa pretende investir US$ 60 bilhões até 2030.
Na prática, os veículos dessas marcas consideradas globais estarão na vanguarda do grupo em termos de tecnologia e plataformas, recebendo primeiro as novidades que serão desenvolvidas pela Stellantis e suas parceiras. Como por exemplo a plataforma STLA One, que será lançada em 2027 e que tem como principal atrativo a versatilidade, podendo dar vida a veículos nos segmentos B, C e D.
No segundo escalão figuram Chrysler, Dodge, Opel, Alfa Romeo e Citroën, que ganharam status de marcas regionais. Seus veículos serão equipados com plataformas e tecnologias que, antes, figuravam nas irmãs globais. Os veículos dessas marcas também terão certa liberdade para receberem elementos requeridos pelos mercados nos quais ainda apresentam relevância comercial.
Ainda que pareça uma definição bastante vaga, o novo caráter dessas marcas de alguma forma representa um fôlego para que sigam no portfólio da Stellantis. Todas representam mais dúvidas do que certezas no mercado por conta de seus desempenhos comerciais erráticos na comparação com as marcas do grupo agora chamadas de globais.
Futuro da Citroën no Brasil preocupa concessionários
A continuidade da Citroën no mercado brasileiro, por exemplo, foi algo dado como incerto por concessionários ouvidos pela reportagem de Automotive Business nas últimas semanas, sobretudo depois que a produção do Jeep Avenger foi alocada na fábrica de Porto Real, onde historicamente eram produzidos veículos da marca francesa.
Em off, alguns grupos concessionários com operação no eixo Sul-Sudeste comentaram que existe uma espécie de vácuo estratégico na Stellantis quando o assunto é o futuro da Citroën no mercado doméstico. Alguns avaliam o fechamento de lojas diante de uma alegada falta de produto nos próximos anos. Outros pretendem recorrer à representação de marcas chinesas alegando maiores ganhos.
No ano passado, segundo dados do Renavam divulgados pela Fenabrave, a associação que representa o setor de distribuição de veículos, o Citroën Basalt foi o 29º veículo mais vendido no país, com 19,7 mil unidades. No caso do C3, na 39ª posição, foram vendidas 13,3 mil unidades. Já o C3 Aircross não figurou entre os 50 mais vendidos em 2025. Foram emplacadas 4,5 mil unidades do modelo.
Dentro das categorias, o Basalt foi o 16º SUV mais vendido. O C3, por sua vez, foi o 8º hatch mais vendido. O C3 Aircross foi o 31º mais vendido.
Oficialmente, no entanto, a Citroën segue ativa no mercado local. Por meio de comunicado, a montadora informou que a marca “segue como parte relevante da estratégia da Stellantis no Brasil e América do Sul”.
E por falar em América do Sul, a empresa também apresentou novidades em termos de produtos para a região. Destaque para a nova linha Fiat de SUVs, que vai contar com os novos Fastback e Pulse, além do compacto Argo. Há também no horizonte a renovação das linhas Jeep e Ram.
