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ESG

Brasil poderia bombar com hidrogênio verde, mas falta combinar com o mundo

Especialistas acreditam que falta de investimentos e escalabilidade ainda travam solução de descarbonização
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Vitor Matsubara

10 abr 2026

4 minutos de leitura

Honda CR-V em projeto de hidrogênio 1

Produzir hidrogênio ainda não está no topo da lista de soluções de descarbonização. Embora alguns países fomentem timidamente a tecnologia de célula combustível, o mercado ainda vê a solução com reticência.

O Brasil ocupa uma posição estratégica neste cenário. O país, que desenvolveu iniciativas como a tecnologia flex e abraçou o uso de biocombustíveis, poderia ser um grande produtor de hidrogênio verde – ou seja, gerado por eletrólise a partir de fontes renováveis.

Não poderia ser diferente, seja pela ampla disponibilidade de recursos naturais (muitos deles renováveis) quanto pela enorme frota circulante que, queira ou não, contribui negativamente neste cenário.

Dentro disso, a produção de hidrogênio em um país com recursos naturais em abundância elevaria o Brasil a protagonista na rota de descarbonização global. Só que esse cenário hipotético ainda está muito longe da realidade.

Hidrogênio precisa de incentivos no Brasil – e no mundo

Frota de caminhões a hidrogênio da Hyundai
Aplicação é recomendada em veículos pesados como os caminhões da Hyundai

Não faltam defensores das virtudes do hidrogênio como fonte de descarbonização.

“O hidrogênio tem potencial para ser um dos, se não o mais, poderoso recurso de descarbonização no mundo”, afirmou Ricardo Martins, vice-presidente administrativo da Hyundai Motor Brasil, em entrevista à Automotive Business.

João Irineu, diretor de meio-ambiente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), também enalteceu as virtudes do hidrogênio, que classifica como “fantástico”.

Porém, ele destaca que a aplicação do biocombustível em larga escala ainda está muito longe de ser viável.

“Quando se fala em uma fonte energética cuja produção ainda não atingiu escala e nem infraestrutura de distribuição, a aplicação fica limitada a algumas soluções específicas. Então, o desafio é encaixar o hidrogênio verde, que é fantástico, por meio de investimentos e de escala para reduzir custos e construir uma rede de infraestrutura”.

Por que o hidrogênio ainda não decolou?

Honda CR-V a hidrogênio
Hidrogênio sofre com falta de incentivos

João Irineu destacou que investir em uma solução como o hidrogênio não requer apenas tempo e dinheiro. Uma eventual mudança mexe com a indústria inteira, como já vem acontecendo na transição energética dos motores a combustão para os elétricos.

“Quando você migra de uma tecnologia A para a B, é necessário jogar fora toda uma cadeia de produção, tecnologias e procedimentos industriais. Até os ferramentais e fornecedores vão para o lixo”.

É justamente por isso que o diretor da AEA prega cautela neste processo.

“O hidrogênio verde seguramente vai ajudar bastante na descarbonização, mas ele precisa ser inserido de forma gradual para que possam ser feitos investimentos e dispor de soluções”, opinou.

Irineu concorda que o Brasil tem enorma potencial para produzir o hidrogênio verde, justamente por questões de fontes limpas e renováveis. Mas ressalta que é preciso ter um planejamento.

“É preciso transformar em escala e estabelecer um planejamento tecnológico. É necessário decidir ainda onde empregá-lo: ele substituiria o carvão mineral na produção de aço? Ou seria aplicado na produção de cimento ou de plástico, por exemplo?”.

Antes disso, João Irineu disse que o país ainda deve investir tempo e dinheiro em biocombustíveis mais viáveis e abundantes – como já vem fazendo.

“Acho que a mobilidade de veículos leves e comerciais leves ainda passa por sistemas de eletrificação e biocombustíveis. Etanol e biodiesel ainda têm papéis importantes e podem ajudar para que essa transição aconteça de forma equilibrada e responsável econômica e socialmente”.

Hidrogênio verde é chave para atingir metas de descarbonização

A produção de hidrogênio verde ainda engatinha no Brasil.

A Neoenergia é uma das poucas empresas que o fabrica dentro de uma estação em Taguatinga (DF). Lá, ele é feito a partir da quebra das moléculas de água, por meio de um processo químico chamado eletrólise.

Uma corrente elétrica é usada para quebrar as ligações químicas existentes entre o hidrogênio e o oxigênio. Esse é considerado um método verde, desde que a eletricidade utilizada seja obtida a partir de fontes de energia limpas e renováveis.

A planta de hidrogênio verde inclui uma usina fotovoltaica como fonte dedicada para fornecimento da energia renovável usada no processo de eletrólise. O projeto da Neoenergia integra o Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), regulado pela Aneel. Atualmente, o investimento ultrapassa a casa dos R$ 30 milhões.

O hidrogênio verde é visto como peça vital na transição energética. O Acordo de Paris e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU traçaram metas para a descarbonização do planeta.

Entre elas, os signatários acreditam que o hidrogênio verde substitua o petróleo e o gás natural como principal recurso energético até 2050.