
A nova moda na Argentina é o carro chinês. O mercado vizinho experimenta uma espécie de boom dos modelos elétricos depois que o país estabeleceu nova política de impostos para facilitar a entrada de modelos eletrificados. De forma que esses carros vão ganhando terreno e preferência na compra dos argentinos. E isso afeta a indústria automotiva no Brasil em várias frentes.
Para se ter uma ideia de como o carro chinês é a nova sensação, a participação das marcas chinesas na Argentina saltou de pouco menos de 3%, em março do ano passado, para 11% em março de 2026, revelou à reportagem de AB representantes da Adefa, a associação que representa os interesses das fabricantes que mantêm produção no país. Os números ilustram uma estratégia que pode ter caído como uma luva para as empresas chinesas.
A tal política adotada pelo governo de Javier Milei facilita quase que exclusivamente a chegada dos modelos que de certa forma cabem no bolso do argentino médio: US$ 16.000. Não demorou muito, portanto, para a BYD enviar o seu super navio a Buenos Aires e despejar ali cerca de 6 mil carros, dentre eles o compacto Dolphin Mini e os utilitários esportivos Yuan Pro e Song Pro.
“Não é um preço muito distante daquele que o consumidor está acostumado a pagar pelos modelos que já estão à venda no país há muito tempo”, disse um concessionário Toyota que estava presenta na Automechanika Buenos Aires, feira de autopeças que acontece na cidade portenha desde a última quarta-feira, 8. “É um preço abaixo do Corolla Cross, por exemplo, que até então vendia aqui muito bem.”
Mercado argentino de veículos cresceu no ano passado
Este distribuidor, que não quis se identificar por razões comerciais, revelou um dos primeiros reflexos na indústria brasileira que a moda chinesa no mercado automotivo argentino pode provocar. Com o aumento da participação das marcas chinesas, veículos produzidos no Brasil que são exportados para a Argentina, como é o caso do SUV da Toyota, passam a sofrer pressão no varejo disputando fatias num bolo que cresceu, mas não é tão grande.
Dados da Acara, que é a associação dos concessionários argentinos, mostram que no ano passado foram licenciados no país um total de 612 mil unidades, cerca de 48% a mais do que em 2024. Na lista dos dez mais vendidos no período, liderada pela picape Toyota Hilux (produzida na Argentina), figuram uma maioria de modelos produzidos no Brasil, como os Toyota Yaris e Corolla Cross, Volkswagen Polo e Chevrolet Tracker.
Apesar da liderança, o aumento da participação das marcas chinesas no mercado causa desconforto entre fabricantes e fornecedores de componentes que atendem aos mercado argentino.
Na solenidade de inauguração da Automechanika, realizada na quinta-feira, 9, os discursos proferidos por representantes da indústria local continham muitos elementos comuns aos de seus pares brasileiros. Martín Rappallini, presidente da Unión Industrial Argentina (uma entidade similar a Fiesp, por exemplo), pediu comércio justo no país para não desestruturar a cadeia de valor local.
Existe assimetria industrial, diz Sindipeças na Argentina

Pedido similar ao feito pelo CEO global da Stellantis, Antonio Filosa, no início da semana. O regresso do executivo ao país coincidiu com dois fatos relevantes no mercado: o registro da montadora de 1 milhão de unidades vendidas na América do Sul no ano passado e a chegada de 11 marcas chinesas ao mercado brasileiro apenas em março – talvez esse o seu motivo de visita, a qual aproveitou para mandar recados.
Também participaram da abertura do evento o presidente da Anfavea, Igor Calvet, e o presidente do sindipeças, Claudio Sahad, que endossaram no país vizinho um coro que já é recorrente no Brasil há mais tempo – a necessidade de se exigir das montadoras chinesas produção local de carros com processos e componentes nacionais.
“Existe uma assimetria estrutural e competitiva entre o nosso bloco e os principais competidores locais. A diferença de escala entre nós e a China condiciona tudo”, comentou Sahad. “Se não exigirmos o mesmo nível de integração industrial [nas montadoras chinesas], depois vai ser tarde demais”, completou o presidente do Sindipeças no evento.
A preocupação do setor de peças mora no aumento da quantidade de veículos chineses importados na Argentina e no Brasil porque tais veículos, obviamente, chegam por aqui com peças oriundas de fornecedores instalados na China. Nem o fato do mercado de reposição no país vizinho ter crescido nos últimos anos pareceu animar o setor.
Números da Afac, que é associação representante dos fabricantes de autopeças na Argentina, mostraram que no ano passado a frota circulante no país cresceu 1% ante 2024, somando mais de 15 milhões de veículos. A maioria com idade média acima de 15 anos, música para os ouvidos dos reparadores locais.
Chegada dos chineses movimenta concessionárias
No campo dos distribuidores de veículos, o avanço chinês na Argentina tem provocado uma onda de troca de bandeiras nas lojas, muitas delas agregando as marcas chinesas às suas redes. Há uma certa celeuma, comentou o concessionário ouvido pela reportagem, em off. Isso porque algumas convenções de marca estabelecida com os distribuidores vetam a representação de marcas asiáticas.
“Concessionário Toyota, por exemplo, não pode ter uma loja da BYD. Ele vê o vizinho diversificando, ganhando mais dinheiro, e não pode fazer nada. Isso ocorre porque no passado, na Argentina, se tentou proteger o mercado da chegada dos veículos coreanos e os acordos seguem vigentes assim até hoje”, comentou.
Lá como cá, o avanço dos carros chineses no mercado balançou as estruturas da indústria e todos pedem que algo seja feito em termos regulatórios por parte do governo.
Na volta para o hotel, após intenso dia de trabalho na Automechanika, solicitei um carro por aplicativo. A bordo de um MG 3 híbrido, o motorista comentou que Javier Milei não é muito afeito aos pedidos industriais. Sobre o carro chinês eletrificado que dirigia, disse estar “muy contento” com a aquisição. E então seguimos pela Avenida del Libertador, dobrando depois, à direita, na 9 de Julio rumo ao centro.
