
Antigo presidente da Stellantis na América do Sul, e hoje CEO global da montadora, Antonio Filosa esteve no Brasil na terça-feira, 7, para comentar os bons resultados que as marcas subsidiárias registraram aqui e na Argentina – um contraponto à realidade da empresa em outras praças, como Estados Unidos e Europa. A visita não foi estratégica apenas por isso. O executivo também trouxe na bagagem alguns recados.
Filosa falou sobre como os custos operacionais aumentaram nos últimos anos, a ponto de elevar o tíquete de modelos básicos como é o caso do compacto Fiat Mobi. Comentou também os reflexos da conjuntura global, sobretudo a ofensiva bélica liderada pelos Estados Unidos no Irã, nos negócios automotivos. Mas o principal assunto envolveu o desempenho das marcas chinesas no mercado brasileiro.
A montadora já vinha comentando em algumas oportunidades que a montagem de veículos no país por meio de kits de peças importados da China estava desequilibrando a competição com as montadoras que fazem o mesmo mas com peças e processos locais.
O atual CEO na região, Herlander Zola, chegou a comentar no lançamento do Jeep Renegade híbrido que a Stellantis poderia estudar uma eventual produção CKD por aqui caso “as regras do jogo não mudem”, em menção clara a uma certa vantagem competitiva que as marcas chinesas teriam no mercado local por importarem os componentes dos carros que montam no Brasil.
Filosa foi além. Reconheceu que a superioridade chinesa na manufatura em relação a outras montadoras no mundo é fruto de planejamento e políticas públicas, fugindo de um certo pensamento coletivo que existe hoje na indústria que suscita a prática de dumping. Mas que isso, no entanto, provocou ruídos na indústria local e sugeriu a adoção de travas fiscais para equilibrar a competição na indústria global.
“Esse gap competitivo nasce de duas coisas. Primeiro, uma ociosidade industrial muito forte na China, que precisa de outros mercados para dar vazão. O segundo ponto é que, muito bem feito, o governo chinês e as montadoras chinesas trabalharam durante 20 anos de planejamento para desenhar e implementar um ecossistema de produção lá que gera uma competitividade estrutural muito elevada”, contou Filosa.
“Acredito que o que deve ser feito, junto com a Anfavea e um corpo técnico do governo, é medir esse gap e depois decidir quais são os mecanismos de equalização, se houver interesse”, completou.
O executivo disse, ainda, que há vários mecanismos que poderiam ser utilizados, mas citou com exemplo apenas a elevação das tarifas que incidem sobre produtos importados, assim como fez o governo Trump nos Estados Unidos. Vale lembrar que o Brasil, não faz muito tempo, também fez valer esta ferramenta no mercado local, uma medida que, no final das contas, não inibiu o apetite das montadoras chinesas no mercado local, pelo contrário.
O fato do BYD Mini Dolphin ter liderado as vendas no varejo em março – pela primeira vez um modelo elétrico no topo da lista – é uma boa ilustração para explicar um cenário onde as marcas chinesas experimentam desempenho comercial em ascensão apesar dos pesares, ameaçando o status quo que, no caso, é representado na figura da Stellantis e a sua marca best-seller Fiat.
De forma que, a retenção desse avanço das rivais chinesas no mercado brasileiro volta a ser tratada pela indústria local como uma questão de estado. Apesar da criação do tal corpo técnico para avaliar um gap no setor ter sido mais uma sugestão do que algo formal por parte da Stellantis, não seria algo descolado da realidade supor que tais conversas já permeiam os meandros do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em Brasília (DF).
Até porque isso já ocorreu em passado recente. Dessa forma, as montadoras tiram de si uma pressão que passa a ser do poder público, o que deverá pavimentar o caminho para uma nova discussão regulatória no país. Resta saber se em ano eleitoral o governo dará ouvidos para esta causa setorial.
Stellantis lidera no Brasil e Argentina
De janeiro a março, a companhia emplacou mais de 232 mil veículos e deve fechar o período com cerca de 21,2% de participação de mercado, mantendo a primeira posição em países estratégicos, como Brasil e Argentina. Somente em março, foram comercializadas mais de 89 mil unidades no mercado sul-americano, alta de 29% em relação a fevereiro, garantindo participação de 20,7% na região.
No Brasil, a Stellantis emplacou mais de 174 mil veículos no acumulado do ano, alcançando 29,1% de participação no mercado, avanço de 0,3 ponto percentual em relação ao 4º trimestre de 2025. Em março, a companhia somou mais de 70 mil unidades, crescimento de aproximadamente 29% na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Na Argentina, manteve a liderança no primeiro trimestre do ano, com mais de 42 mil veículos emplacados e 28,9% de participação no mercado, avanço de 1,8 ponto percentual em relação ao 4º trimestre de 2025. Em março, a companhia comercializou mais de 12,5 mil unidades no mercado argentino, com destaque para o Peugeot 208, que foi o modelo mais vendido no mês, com 2,2 mil unidades.
