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A evolução do trem-bala: o trem levitante do Japão

Projeto que começou nos anos 1990 traz composição que levita e é guiada e impulsionada por ímãs
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Victor Bianchin

12 mar 2025

8 minutos de leitura

Maglev, a nova geração do trem-bala japonês

A mobilidade e os deslocamentos de distâncias maiores sempre foram marcados por fases, e a evolução do trem-bala do Japão marca, agora, uma nova era neste sentido.

Se voltarmos no tempo, na década de 1960, a grande novidade era viajar de avião. O período foi marcado pelo uso crescente de aviões a jato para o transporte comercial, em substituição aos modelos a hélice. Aeronaves como o Boeing 707 (lançado em 1958) e o Douglas DC-8 ganharam popularidade e tornaram as viagens mais rápidas e eficientes, permitindo que o transporte aéreo fosse mais acessível e atraente.

Foi também uma época de rápida expansão das companhias aéreas, que implementaram novos voos internacionais e mais conexões domésticas. Com o aumento da oferta de viagens e a redução dos custos operacionais, a aviação comercial se tornou mais acessível para um número maior de pessoas, não sendo mais exclusividade dos ricos ou de viajantes de negócios. De repente, voar era possível.

Trem-bala nasceu no Japão para as Olimpíadas… de 1964

Em certo canto do mundo, porém, a história não foi bem assim. O Japão, na década de 1960, estava inaugurando aquela que seria uma de suas maiores marcas: o trem-bala.

O sistema Shinkansen (nome oficial) foi inaugurado em 1964, bem a tempo dos Jogos Olímpicos de Tóquio, com um único trecho de 515 km. Hoje, são cinco linhas somando 2.951 km, que atravessam todo o país e atingem entre 210 e 320 km/h — muito além do que consegue um trem tradicional, que não chega a 150 km/h.

Ou seja: enquanto o mundo criava asas, o Japão investia numa tecnologia “antiquada”, as ferrovias. Mas a aposta foi acertada: o Shinkansen foi o primeiro trem de alta-velocidade do mundo e, posteriormente, exportado para toda a Europa e para a Ásia também.

Agora, quase 50 anos depois, o Japão está próximo de surpreender o mundo de novo ao desenvolver a nova geração dessa forma tão importante de mobilidade: o maglev.

O que é o maglev

Maglev é uma abreviação para “magnetic levitation”. Trata-se de uma tecnologia de transporte que usa campos magnéticos para suspender, estabilizar e propulsionar um veículo, eliminando o contato físico com trilhos e permitindo velocidades muito mais altas do que os sistemas tradicionais de trens.

É um sistema muito mais veloz que o do trem-bala comum, pois consegue atingir 600 km/h. 

Essa velocidade jamais poderia ocorrer em um trem-bala tradicional devido à fricção entre as rodas do veículo e os trilhos. Para resolver esse problema, os técnicos japoneses desenvolveram o método do maglev.

Funciona assim: o trem tem rodas de borracha que ficam expostas apenas até ele atingir 150 km/h. Após isso, elas são recolhidas e o trem é mantido suspenso (ou levitando) por ímãs alocados ao longo do trilho.

Há um primeiro conjunto de ímãs encarregado de suspender o trem e um segundo conjunto tem o trabalho de propulsioná-lo para a frente. Como a pista é quem faz todo o serviço de orientação, os trens são autônomos, sem maquinista.

Em teoria, esse sistema é mais seguro que o tradicional, pois está menos propenso a acidentes. Ele seria também mais eficiente, pois a ausência de rodas na maior parte do trajeto faz com que ele consiga andar em qualquer condição climática, incluindo neve e chuva.

Assim como foi feito com os trens da Shinkansen, o maglev precisa de linhas específicas e exclusivas, tanto para atender aos requisitos da tecnologia quanto para não ser atrasado por trens mais lentos. Essas linhas são desenhadas com poucas curvas e baixa radiância nas que ocorrem, de modo a permitir que o trem não perca velocidade.

Japão já ergue estações para o trem-bala do futuro

Duas linhas de maglev estão sendo construídas: uma entre Tóquio e Nagoya e outra entre Nagoya e Osaka. O primeiro trecho, entre Tóquio e Nagoya, tem o nome oficial de Chūō Shinkansen, começou a ser projetado nos anos 1990 e deve ser inaugurado até 2027.

Quando estiver pronto, será possível viajar entre as duas prefeituras (o Japão tem “prefeituras” em vez de estados) em apenas 40 minutos, o que é mais rápido do que de avião.

O custo desse projeto é tão faraônico quanto sua ambição: US$ 64 bilhões. Mas, por incrível que pareça, não é o maior percalço. Esse obstáculo tem nome e sobrenome: Heita Kawakatsu, ex-governador da prefeitura de Shizuoka.

O percurso inteiro da linha Tóquio-Nagoya terá 287 km, mas há um trecho de 9 km que passa pela prefeitura de Shizuoka, perpassando uma região montanhosa. A ideia é atravessar esses alpes perfurando túneis (aliás, 86% da linha será subterrânea), mas Kawakatsu se opôs ferozmente a esse projeto.

Isso porque, segundo ele, a obra poderia afetar o fluxo do rio Oi, que é essencial para a atividade econômica da região — Shizuoka produz 36% do chá que é exportado do Japão. Além disso, há outras preocupações relacionadas ao impacto ambiental e ao impacto no fornecimento de energia.

Também não ajuda o fato de que Shizuoka não ganha nada com a chegada do maglev, pois a linha não terá nenhuma estação ali. Kawakatsu, que governava a prefeitura desde 2009, se recusou a conceder permissões para as obras e exigiu estudos mais detalhados sobre o impacto ambiental e as compensações ambientais da JR Central, empresa operadora de trens na região central do país e responsável pela obra.

Entre 2017 e 2023, houve várias rodadas de negociações entre a JR Central, o governo nacional e a província de Shizuoka, sem avanços significativos. Kawakatsu não cedeu e a linha, originalmente prevista para ser inaugurada em 2027, precisou ser adiada indefinidamente.

Tudo isso mudou em abril do ano passado, quando Kawakatsu anunciou que deixaria o cargo em junho do mesmo ano.

O motivo foi uma polêmica em que ele acabou envolvido quando declarou que os funcionários de seu governo “são todos inteligentes e cerebrais, diferentemente daqueles que vendem vegetais, cuidam de vacas ou fazem coisas”. Uma péssima declaração a se fazer quando você lidera uma região dominada pela atividade agropecuária.

Os efeitos do afastamento de Kawakatsu foram imediatos: as ações da JR Central subiram 10% nos dias seguintes à sua revelação de que iria sair. Curiosamente, poucos dias antes do anúncio, a empresa havia emitido um comunicado dizendo que o maglev só iria ser completado em 2034.

Ainda não se sabe o quanto a saída de Kawakatsu vai afetar esse cronograma para melhor. Mas o país retomou os testes com passageiros em dezembro.

Por que o maglev é importante?

Quando foi inaugurado, o sistema Shinkansen reduziu drasticamente o tempo de viagem entre Tóquio e Osaka, os dois maiores centros econômicos do país.

Antes, uma viagem de trem convencional levava cerca de 6 horas; com o Shinkansen, caiu para 4 horas (e depois para cerca de 2h30). Isso fortaleceu a economia ao permitir maior mobilidade da força de trabalho e circulação de mercadorias.

Com deslocamentos mais rápidos e seguros, empresas puderam expandir suas operações, melhorar a logística e aumentar a produtividade. O transporte rápido de executivos, funcionários e bens entre as cidades impulsionou a indústria e os serviços. As cidades médias espalhadas ao longo da rota do Shinkansen cresceram e se urbanizaram, criando novos polos econômicos no Japão.

A expectativa é que o maglev repita esses resultados, permitindo o transporte rápido de pessoas e mercadorias e, dessa forma, estimule a economia. 

Assim como aconteceu com o Shinkansen, o maglev é uma ideia boa demais para não ser copiada. A China tem o Shanghai Maglev, operacional desde 2003, um trem desenvolvido em parceria com a Alemanha e que atinge 431 km/h, conectando Xangai ao aeroporto de Pudong.

Em 2021, o país anunciou que sua estatal China Railway Rolling Stock Corporation está desenvolvendo um trem que ligará Xangai e Beijing a uma velocidade de 600 km/h. O veículo já está pronto, mas falta construir as linhas.

Fora Japão e China, o único país com maglevs operacionais é a Coreia do Sul, mas em trechos bem curtos, de 1 km e 6,1 km. Outros países, como Índia, França, Canadá, EUA e Alemanha têm projetos em fase de estudos.

O Brasil atualmente vive um possível renascimento de sua mobilidade ferroviária, com o governo de São Paulo anunciando quatro linhas longas atravessando diversos municípios, os chamados Trens Intercidades (TIC).

E o governo federal retomou o projeto do trem-bala Rio-SP, cujas obras devem começar em 2027. Por que não prestar atenção ao maglev e tentar aproveitar suas ideias?