
A ofensiva da Anfavea contra as marcas chinesas ganhou mais um capítulo. A entidade que reúne as montadoras “investiga” se empresas do país asiático praticam dumping. O movimento da associação é visto como uma forma de pressão, mas que pode não ser tão efetivo assim.
A intenção da Anfavea em investigar – e, eventualmente, processar – as chinesas por dumping foi revelada em uma reportagem da jornalista Cleide Silva publicada no “O Estado de S. Paulo” na segunda, 27.
A entidade confirmou a informação. E disse que estudos estão sendo feitos para avaliar questões de preço e mercado, similares aos já feitos na Europa e nos EUA.
“Há estudos de mercado em andamento. A Anfavea defende a livre concorrência e a prevenção de práticas que prejudiquem o mercado automotivo brasileiro, zelando pelos clientes, empregados, concessionários, fabricantes e indústria de autopeças”, afirmou o presidente da Anfavea, Marcio de Lima Leite, por meio de comunicado.
Estudo sobre chinesas pode reforçar lobby da Anfavea
A reportagem da Automotive Business ouviu consultores automotivos para entender a estratégia da Anfavea com esses estudos. Para eles, é mais uma forma de a associação exercer pressão para a volta imediata do imposto de importação (II) “cheio” para eletrificados.
“A Anfavea quer que as alíquotas de importação subam imediatamente. O estudo seria uma boa ferramenta de base para essa solicitação. O objetivo óbvio é proteger as empresas já instaladas”, avalia Cassio Pagliarini, sócio da Bright Consulting.
Em 2024 a Anfavea aumentou o lobby para a volta integral do tributo. Isso porque a alíquota só voltará a sua totalidade em julho deste ano.
Desde então, a cada apresentação de resultados a associação aproveita para reclamar da avalanche de importados que chegam ao país. Coletiva de imprensa sim, coletiva de imprensa também, números são apresentados para reforçar o discurso.
Mercado teve explosão de importados
Segundo dados da entidade, mais de 466 mil veículos foram importados pelo Brasil em 2024. O número representou o maior volume importado pelo setor nos últimos 10 anos, além de alta de 33% na comparação com 2023.
Deste volume, mais de 120 mil foram veículos chineses, especialmente da BYD e da GWM: 180% a mais que o total do ano anterior.
“A Anfavea está fazendo todos os movimentos possíveis para coibir a chegada das chinesas. Estão utilizando os argumentos que a União Europeia utilizou para sobretaxar os veículos chineses”, diz o consultor automotivo Milad Kalume Neto.
Porém, é consenso também que a tarefa não será nada fácil para a associação.
“Acho difícil conseguir comprovar, pois temos restritas informações internas do mercado chinês. Uma comprovação poderia ser a comparação entre os preços no mercado doméstico e os preços de exportação, isso tudo sem impostos”, explica Cassio, da Bright.
Além da pressão, a investigação de dumping da Anfavea sobre as chinesas também é vista com ressalvas.
“A China fez a lição de casa. Sem condições de brigar com o modelo tradicional, foram para os elétricos e dominaram os processos produtivos”, compara Milad.
Para o consultor, em paralelo, a indústria nacional pouco fez para avançar na eletrificação nos últimos anos.
“A indústria nacional desenvolveu muito pouca coisa relacionada à eletrificação, mesmo com taxação zero por cento. Ficou no aguardo de ajuda na regulação de estoques via IPI, que não deixa qualquer legado na cadeia produtiva ou de distribuição”.
Chinesas se pronunciam
Procuradas, as marcas chinesas GWM e BYD, que estão em processo de conclusão de suas primeiras fábricas de automóveis no país, emitiram comunicados sobre o assunto.
A GWM foi diplomática e diz que vê a ação com “tranquilidade”.
“A GWM segue estritamente as regras internacionais e a legislação brasileira para comércio exterior. Além disso, a empresa está aumentando o ritmo de contratações no Brasil visando o início de produção dos seus primeiros carros eletrificados na fábrica de Iracemápolis, no interior de São Paulo, prevista para o primeiro semestre deste ano.”
Por sua vez, a BYD reafirmou ser uma empresa ética e aproveitou para dar uma alfinetada em montadoras tradicionais.
“A BYD do Brasil reafirma seu compromisso com a ética e a transparência em suas práticas comerciais. Negamos categoricamente qualquer prática de dumping na venda de nossos veículos no Brasil. A BYD é agora uma empresa brasileira. Estamos comprometidos com o desenvolvimento da indústria automotiva brasileira que, por décadas, foi deixado em segundo plano pelas montadoras tradicionais que tentam de todas as formas utilizar artimanhas para esconder a falta de competitividade.”
O que é dumping?
Dumping é o nome dado quando uma empresa comercializa produtos a preços abaixo do custo de produção. A tática é vista como uma forma de “comprar mercado” e enfraquecer a concorrência.
A prática é prevista no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gatt, na sigla em inglês), que regula as relações comerciais internacionais.
