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65 anos

Karl Deppen, o presidente do ano 65 da “estrela” no Brasil: “Mercedes-Benz construiu aqui um futuro bem-sucedido”

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pedro

29 set 2021

14 minutos de leitura

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Karl Deppen: “Sempre gostei de trabalhar com o time brasileiro, gosto da sinceridade e hospitalidade que as pessoas demonstram e os altos níveis de competência, conhecimento e motivação”

Ele estava quase se tornando mais um dos vários alemães do Grupo Daimler que também falam português – em 65 anos de operações da Mercedes-Benz do Brasil, algumas centenas deles vieram expatriados e voltaram falando o novo idioma. Karl Deppen é um desses exemplos, foi um aluno aplicado, mergulhou em aulas intensivas, já fazia questão de ler discursos à imprensa e funcionários em português. 

Mas o tempo de Deppen no País acabou sendo muito mais curto do que ele imaginava quando, no começo de 2020, foi indicado para vir substituir Philipp Schiemer (outro alemão que fala a língua dos brasileiros) na presidência da empresa na América Latina. Apenas 15 meses depois de assumir o posto na subsidiária brasileira, em São Bernardo do Campo (SP), Deppen foi promovido ao comando dos negócios da Daimler Trucks na Ásia e está de mudança este mês para Tóquio, no Japão. 

Deppen também vai ocupar um assento no conselho de administração do Grupo Daimler, no ápice de uma carreira iniciada há 31 anos na companhia, onde ingressou em 1990 e já ocupou diversos cargos de liderança nas áreas de compras, logística, operações e finanças. Em 2007 ele assumiu a gestão estratégica de projeto para os caminhões Atego e Atego BlueTec Hybrid. De 2011 a 2014 foi responsável pela capacitação de novas lideranças do grupo em todo o mundo, antes de assumir o cargo de CFO na China. Em 2017 assumiu a posição de vice-presidente de controle de custos da Mercedes-Benz AG, na Alemanha, até ser indicado para comandar a operação no Brasil e na América Latina.

O tempo no Brasil foi curto, mas intenso: Deppen chegou em julho de 2020, no início do ano 65 da empresa no País e no auge da primeira onda da pandemia de coronavírus que atingiu o Brasil a partir de março do ano passado, quando a maioria das empresas ainda tentava entender como enfrentar a Covid-19, garantir a saúde dos empregados e dos negócios duramente atingidos. Nesse cenário de quase caos, o executivo lançou mão de seu temperamento sereno e da humildade de aprender com o que ele chama muitas vezes de “grande time” da Mercedes-Benz do Brasil, bastante acostumado a lidar com alta volatilidade e crises cíclicas. Dessa forma, conseguiu manter e endereçar o programa de investimentos de R$ 2,4 bilhões de 2018 a 2022.

Em pouco mais de um ano aqui, Deppen teve tempo de participar de alguns resultados do cilco de investimentos e de marcos importantes da empresa no País, como a inauguração há um ano da nova linha de produção de chassis de ônibus com sistemas de manufatura digital da indústria 4.0, o lançamento em agosto passado do eO500U, primeiro chassi elétrico de ônibus que será produzido em São Bernardo a partir de 2022, além do próprio aniversário de 65 anos da Mercedes-Benz do Brasil, completados em 28 de setembro, dias antes de deixar o escritório. 

Nessa entrevista que concedeu a Automotive Business antes de partir, Deppen conta que teve uma curta e “ótima experiência”. Ele foi categórico em afirmar que confia em um futuro bem-sucedido da empresa no Brasil, porque construiu aqui uma reputação de qualidade, tem amplo portfólio de veículos comerciais de grande demanda e uma base sólida de clientes, concessionários e fornecedores.

Deppen está feliz com a promoção, mas diz que vai com saudades da equipe e da subsidiária que já admirava antes mesmo de assumir a presidência no País, nos diversos postos que ocupou desde que ingressou no Grupo Daimler, em 1990. Nesses seus 31 anos na empresa, o executivo já tinha trabalhado com membros da equipe brasileira, visitou a filial algumas vezes e já conhecia a história de pioneirismo, a importância e a força que a subsidiária construiu em 65 anos de operação, mas afirma que aprendeu ainda mais com os brasileiros liderando o time em um dos momentos mais problemáticos da indústria no mundo todo. 


Este texto integra a cobertura especial dos 65 anos da primeira fábrica da Mercedes-Benz no Brasil
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Foi um tempo curto, você chegou há pouco mais de um ano e já está indo embora, deixando a presidência da Mercedes-Benz do Brasil e América Latina e vai para o outro lado do mundo assumir as operações da Daimler Trucks na Ásia, com sede em Tóquio, Japão. Por que está partindo tão cedo? 
São sentimentos contrastantes. Estou feliz pela promoção, claro, é uma grande honra receber uma responsabilidade ainda maior no grupo, mas ao mesmo tempo é triste deixar um grande time. Eu realmente gosto daqui, foi uma ótima experiência. Quando reuni a equipe para comunicar minha partida, vi lágrimas nos olhos de alguns, é um ótimo reconhecimento, eu acho… Mesmo em tão pouco tempo, conquistamos muitas coisas e ainda temos muitos planos, não alcançamos tudo quanto gostaríamos. Mas em um grande grupo internacional essas mudanças acontecem, é uma questão de prioridades e também de oportunidades. Havia a necessidade de encontrar um sucessor para nosso colega Hartmut Schick na Ásia e eu acredito que houve uma convergência em relação ao meu nome, devido à minha experiência e habilidades, então fui o escolhido. 

Quando o Grupo Daimler decidiu nomeá-lo presidente da Mercedes-Benz do Brasil e América Latina, no início de 2020, qual foi sua primeira reação? Desde 2017 você era o vice-presidente de controle de custos na Mercedes-Benz AG na Alemanha. O que o levou a aceitar sua posição na operação brasileira?
Eu me senti honrado de ser lembrado e pela oportunidade. Eu comecei minha carreira no setor de caminhões, sempre gostei dessa área, e foi uma grande oportunidade de voltar ao mundo dos caminhões e, ao mesmo tempo, adquirir maiores responsabilidades de atividades regionais inteiramente integradas, que envolvem desde o desenvolvimento até a produção, vendas e pós-vendas. 

Quais eram as suas referências, o que você sabia sobre o País e a subsidiária brasileira antes de chegar aqui? E mais de um ano depois, qual sua impressão?
Eu já havia trabalhado com a equipe brasileira, quando eu estava no comando da gestão de produtos básicos, e tive uma boa experiência. Também já estive algumas vezes no Brasil e sempre gostei de trabalhar com o time daqui, gostei da sinceridade e hospitalidade que as pessoas demonstram e os altos níveis de competência, conhecimento e motivação, então tudo foi inspirador. Eu acho que fizemos bastante progresso, mas ainda há muito a ser feito e, claro, a pandemia é uma situação única que impôs novas condições de funcionamento e nós tivemos que nos adaptar rápida e prontamente a diversos cenários. 

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Devido à sua longa história no Brasil, a Mercedes-Benz provavelmente é a empresa alemã que tem mais alemães que falam português. Era que você estava aprendendo rápido, até já estava lendo alguns discursos em português. Acho que estaríamos falando em português daqui a seis meses se ficasse por aqui…
Obrigada pelo comentário, mas eu também estou a par das minhas limitações, então não vamos exagerar. Eu também teria muito dever de casa a fazer. 

O Brasil é um país com um ambiente de negócios muito volátil. Inflação, taxas de câmbio, juros, impostos, política… Tudo muda muito rápido por aqui e o seu predecessor, Philipp Schiemer, disse que comandar uma empresa aqui é viver sob fortes emoções. Depois de apenas um ano, você concorda com ele?
Acho que sim, mas nós devemos nos adaptar à volatilidade. Parte dessa instabilidade pode ser bastante extrema, ou acontecer rápido demais, mas nós não podemos mudá-la e todos os nossos competidores precisam lidar com essas mesmas coisas. O segredo é estar preparado para o que vier e saber como lidar com a situação. Para isso nós temos um time forte e capacitado aqui. Mas no Brasil as pessoas em geral são muito emotivas e isso é bom, porque traz empatia e paixão ao que se está fazendo.

Muitos dizem que por causa dessa volatilidade, o Brasil é uma excelente escola para executivos. Muitos que vêm para cá são depois promovidos a posições mais altas na empresa – esse é exatamente o seu caso após somente um ano. Você se considera melhor preparado e mais flexível para enfrentar adversidades do que antes?
Eu certamente eu aprendi muito neste tempo no Brasil. Lidar com uma pandemia foi algo que fez todos aprenderam a se adaptar rápido [a uma nova situação] nos últimos 18 meses ao redor do mundo. Aqui eu tive o apoio de um grande time para isso e aprendi com isso.

Após 65 anos, o que o Brasil representa para o Grupo Daimler no mundo hoje?
O Brasil é um mercado importante. Temos aqui um grande reconhecimento de marca graças ao legado que construímos em mais de 65 anos, sempre com um forte compromisso com os mercados da região. Somos claramente conhecidos como líderes em tecnologia, confiança e qualidade, o que valoriza os negócios de nossos clientes e assim nós construímos uma imagem forte, colocamos muito investimento e por isso garantimos uma fatia de mercado relevante para os negócios de veículos comerciais do Grupo Daimler. 
(Nota da Redação: a subsidiária brasileira é atualmente responsável por 25% das vendas de caminhões Mercedes-Benz no mundo e o País é o segundo maior mercado global da marca, atrás somente da Alemanha; também é o maior fabricante de ônibus do grupo e centro mundial de desenvolvimento de chassis.)

Para a empresa, o que significa completar 65 anos de produção de caminhões e ônibus no Brasil? Quais são as principais contribuições da subsidiária brasileira para o Grupo Daimler?
Aqui nós aumentamos o alcance e o reconhecimento dos caminhões e ônibus Mercedes-Benz na região, onde a marca se tornou amplamente conhecida e bem qualificada. Trazer uma operação industrial da empresa para o Brasil 65 anos atrás foi uma grande declaração de força e pioneirismo, é isso que temos feito desde então, com novas e pioneiras maneiras de resolver problemas, de auxiliar nossos clientes em suas necessidades de transporte, esse é o legado que procuramos manter. A subsidiária entrega muitas contribuições ao grupo. Exportamos veículos produzidos no Brasil para mais de 50 países, inclusive para fora da região. Aqui fica sediado o centro mundial de competência para o desenvolvimento de chassis de ônibus. Muito do que a engenharia faz aqui também é aproveitado pela matriz, como a nova versão da cabine do [caminhão extrapesado] Actros. Temos muitos talentos que ajudam no desenvolvimento global da companhia.

Nessas mais de seis décadas, quais são as maiores conquistas da empresa no Brasil?
Primeiramente, ter estabelecido uma sólida rede de consumidores, distribuidores, fornecedores para a família Mercedes-Benz. Acredito que nós trouxemos de maneira contínua produtos muito competitivos para a região. Recentemente, com o novo Actros, estabelecemos mais um marco em termos de produto do ramo de caminhões para trabalho pesado, com uma excelente eficiência de consumo de combustível, qualidade e conectividade. Ainda recentemente apresentamos o chassi elétrico do ônibus eO500U (que será produzido na fábrica de São Bernardo do Campo a partir de 2022), outro passo pioneiro em direção ao futuro, selo da marca no Brasil, trazendo tecnologia para atender às necessidades do setor de transportes.

Qual a sua avaliação da atual situação da Mercedes-Benz no Brasil? A empresa é lucrativa e viável?
Nós somos viáveis e estamos também nos beneficiando de uma boa demanda pelos nossos produtos, esse é um sinal bem claro de que nossos clientes enxergam os benefícios de nosso trabalho aqui. Mas ainda não alcançamos todas as metas, por isso estamos trabalhando em mais melhorias, temos um plano claramente traçado para o futuro e estamos no caminho para chegar lá. Lembro também que fomos atingidos pelos impactos [da pandemia] que toda a cadeia global de fornecedores sofreu, o que nos impediu de ter resultados tão sólidos quanto desejávamos. 

E quanto ao futuro, como você prevê que a empresa esteja nos próximos anos? 
Bem-sucedida. Eu vejo que estamos entrando em um futuro promissor, porque temos uma excelente linha de produtos, temos com o Actros um ótimo modelo pesado, temos também ótimos caminhões no segmento de semipesados e médios. E quanto aos ônibus, o mesmo e o novo chassi elétrico será um novo passo para o futuro, trará tecnologia de ponta para nossos clientes. Em 2023 teremos motores Euro 6, estamos preparados para isso e nossos clientes também irão apreciar essa nossa nova missão, com a já bem conhecida e confiável tecnologia da Mercedes-Benz. 

Quanto à tecnologia de propulsão para veículos comerciais pesados, quais você acha que serão as principais apostas para o Brasil? A Mercedes já está lançando o novo chassi de ônibus elétrico, mas pretende tomar o caminho de tornar elétricos outros ônibus e caminhões aqui também? Como essa evolução se desenvolverá?
Esta é, acredito, uma grande pergunta para todos os figurões dessa indústria. É muito difícil instalar um sistema elétrico em um caminhão pesado, por causa do alcance, do peso da bateria, tudo isso a um preço competitivo. Mas nós também estamos buscando opções diferentes. Como uma fabricante internacional de caminhões, a Daimler é muito engajada na tecnologia de células de combustível e na tecnologia elétrica. Então estamos avaliando quando será o tempo e contexto certo para trazer mais desses avanços ao Brasil. 

O próximo ano é o último ano do ciclo de investimentos de R$ 2,4 bilhões que a Mercedes-Benz aplica no País no período 2018-2022. O que já foi gasto e o que ainda resta a se fazer?
Nós já gastamos uma grande parcela desse montante, porque temos investido muito em nosso padrão de indústria 4.0 para produção de caminhões e chassis de ônibus. Também investimos no novo Actros [que começou a ser entregue aos clientes em 2020]. Estamos também nos preparando e investindo para estarmos prontos para o Euro 6 em 2023. Então, uma grande parte dos recursos já foi aplicado e agora nós também estamos trabalhando para ver algum retorno do investimento. Paralelamente estamos agora fazendo planos em como seguir daqui em diante.

Um novo plano de investimento que está sendo negociado agora? 
É muito cedo para falar a respeito.

Você chegou ao Brasil no meio da pandemia de coronavírus, que gerou uma das mais profundas crises econômicas no mundo, mas aqui a indústria de caminhões se recuperou muito mais rápido do que era esperado e hoje ultrapassa os resultados anteriores à pandemia. Esse crescimento é sustentável?
Sim. Tivemos um mercado excepcionalmente baixo no ano passado devido à pandemia. Acredito que todos conseguem entender que nós caímos nesse período de praticamente nenhuma venda, porque todo mundo estava esperando para ver o que aconteceria. Então, desde setembro/outubro do ano passado observamos as vendas em crescimento, o que demonstra uma demanda estrutural para a reposição de caminhões. Também observamos uma grande demanda do agronegócio e do setor de matéria-prima, esses foram nichos do mercado brasileiro que se beneficiaram da demanda global aquecida e nós ficamos felizes em ser parte desse desenvolvimento. Vemos também que para o próximo ano um resultado positivo do mercado e estamos confiantes de que esse momento pode ser mantido.