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Licença-paternidade: setor automotivo se prepara para nova lei

Legislação passa a valer a partir de 1º janeiro e muda rotina das empresas, além de ampliar a discussão sobre paternidade responsável e equidade de gênero

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Natália Scarabotto

12 ago 2026

6 minutos de leitura

Neste ano, o Brasil aprovou a licença-paternidade, que passará de cinco para 10 dias em 1º de janeiro de 2027, 15 dias em 2028 e 20 dias em 2029. A nova regra também cria o salário-paternidade.

A medida impacta o setor automotivo, que tem 70% da força de trabalho masculina, e dessa fatia, ao menos 38% são pais, segundo a pesquisa Diversidade no Setor Automotivo, de Automotive Business e MHD Consultoria.

Vinicius Bretz, que é psicólogo, conselheiro e cofundador da Copai, grupo que defende a licença-paternidade por período mais longo, afirma que é necessário que as empresas com quadros regidos pela CLT se preparem para a mudança com antecedência.

“Estamos sentindo no mercado que já tem empresas querendo implementar, não vão esperar até 2029 para conceder os 20 dias de licença. A VWCO e a Volkswagen Financial Services já aderiram a Copai, estamos em contato com outras montadoras também para treinamentos”, disse Bretz.

Empresas precisam de planejamento para dar segurança aos funcionários

Ele afirma que existem algumas variáveis a serem decididas por cada empresa. Uma delas é o Programa Empresa Cidadã. No setor automotivo, ao menos 52% das companhias aderiram ao benefício, que concede 15 dias a mais, além dos cinco já definidos por lei, totalizando 20 dias. Essas empresas vão precisar decidir se vão manter o benefício, estendendo a licença total para 35 dias, ou não.

Outra variável, por exemplo, são as férias coletivas adotadas em algumas empresas. Bretz questiona se será possível ao pai esse período para coincidir com a licença-paternidade.

“Em geral, pouco se está falando sobre isso porque o RH agora está preocupado com a NR-1. Vão começar a pensar em licença-paternidade apenas em outubro. Mas preocupa, porque essas empresas estão atrasadas pra se decidirem. Quem vai ser pai em março ou abril já sabe que vai ter que tirar os dias, mas precisa ter uma diretriz clara da empresa para se programar.”

NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) é a regra principal de Segurança e Saúde no Trabalho no Brasil. Ela define as diretrizes gerais para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e a criação do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) nas empresas, exigindo a inclusão formal de riscos à saúde mental e fatores psicossociais.

Além disso, Bretz cita a necessidade de fiscalização para garantir que a lei funcione e também o letramento dos futuros pais para que, de fato, possam exercer a paternidade responsável.

“Estamos vivendo a fase de regulamentação, mas temos que ter uma vigilância pra não ficar só no papel, né?! É importante que a empresa faça também o letramento e a educação desse homem que vai ser pai, além do apoio da liderança que é essencial. A liderança não pode boicotar ou desestimular os homens do time a tirarem esses dias por direito.”

Paternidade também molda a forma de liderar

O diretor executivo de engenharia de operações globais da Cummins, Rafael Torres, pela primeira vez pôde acompanhar de perto os primeiros dias de vida da filha, Ayla, de 9 meses.

“Tive o privilégio de ter esses 20 dias de licença, não só para ajudar minha esposa nesse período, mas também vivi algumas coisas que não tive oportunidade de experienciar quando os meus outros dois filhos nasceram 15 anos atrás”, contou Torres.

Na Cummins há 22 anos, ele conta que a paternidade mudou todo o sentido da sua vida e até da sua carreira. Uma das principais decisões foi em 2022, quando liderava a operação da empresa nos Estados Unidos e pediu para ser repatriado para morar perto dos filhos mais velhos, que estavam voltando com a mãe para o Brasil.

Para ele, assim como outros executivos do setor, a paternidade trouxe aprendizados valiosos. “Percebi o poder da influência. Às vezes os filhos nos observam e a gente nem percebe, mas eles reproduzem”, disse. “E quando você lidera é a mesma coisa. Sempre vão ter os olhares do time, então você precisa ser mais pensativo, mais empático, pensar mais no impacto das suas atitudes, porque os outros estão observando e aprendendo com elas.”

Na visão de Torres, paternidade responsável significa estar presente e ser o exemplo. “Não é ter o nome no documento ou pagar as contas. Ser pai é admiração e a influência que os seus filhos podem contar com você para ter carinho, conversar, ter orientação, confiança, esse tempo de qualidade conta muito.”

Volvo oferece seis meses de licença para pais e mães

A Volvo Cars está na fatia de 5% das empresas do setor que oferece licença parental igualitária para pais e mães, de 6 meses. A empresa adotou a medida em 2021, conforme diretriz da matriz sueca.

Desde então, dez colaboradores já usufruíram da licença, sendo ao menos dois gerentes, diretores e CFO. “Só tivemos ganhos com a implementação desse benefício. Os colaboradores que usaram esse tempo de licença mostraram resultado positivos, o que impacta no clima da empresa, reforça a cultura e a questão da equidade entre os gêneros”, afirmou a gerente de RH da Volvo Cars Brasil e América Latina, Rita Leme.

Ela afirma que para conceder o benefício, a empresa de 65 funcionários se reorganiza nos próprios times para cobrirem os colegas. “A gente redistribui as responsabilidades do Head que tira a licença, redistribui funções. Isso é bom também porque as pessoas passam por outros setores, passam por outras tarefas e podem se descobrir muito boas em coisas que nunca tinham feito antes,” afirmou.

O head de eletrificação e diretor de digital da Volvo Car Brasil, Guilherme Galhardo, se tornou pai de gêmeos no ano passado e teve seis meses para ficar com os pequenos Anthony e Bernardo.

“Não é tão simples no começo porque sua cabeça fica no trabalho, você fica preocupado, mas depois se acostuma. Foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. Minha esposa precisava de mim como rede de apoio e acompanhar eles por esses seis meses foi muito importante. Eles não vão lembrar, mas eles sentiram que eu estava ali com eles”, contou Galhardo.

“Estar presente no primeiro banho, primeiro engatinhar, no primeiro passo, faz toda a diferença. Sei que não vou conseguir participar de tudo, mas quero estar presente mesmo que eles não lembrem, eu vou lembrar.”

Para ele, todos os pais deveriam poder ter esse tempo com os filhos. Mais do que isso, ele acredita que a paternidade responsável é ser um pai ativo.

“Se organizar direito, não sobrecarrega a mulher. A partir do momento que eu chego em casa, sou eu quem assumo as crianças para ela poder fazer as coisas dela. O pai precisa estar presente e fazer a sua parte, dar banho, dar comida. Saber a rotina das crianças e da casa”, completou.