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O que a paternidade ensinou para esses executivos do setor

Dia dos Pais: executivos contam como a paternidade mudou suas vidas e sua forma de liderar e trabalhar no setor automotivo

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Natália Scarabotto

09 ago 2026

9 minutos de leitura

“O verbo mais perto de liderar é parentar”, costuma dizer o palestrante e consultor americano, Simon Sinek. No setor automotivo, a liderança ainda é masculina e pelo menos 40% dos profissionais do setor são pais, segundo a pesquisa de diversidade organizada por Automotive Business e a MHD Consultoria.

Neste Dia dos Pais, a AB conversou com diversos executivos do setor para saber como essa relação entre liderança e parentalidade se entrelaça e quais lições a paternidade trouxe para eles que mudaram a forma de enxergar a carreira, a liderança e o trabalho.

1. Liderar pelo exemplo e colocar a família em primeiro lugar

O dia 19 é especial para o diretor executivo de engenharia de operações globais da Cummins, Rafael Torres. Todos os seus três filhos, que são gêmeos, nasceram neste dia. Theo, o mais velho, nasceu há 15 anos.

Ele veio de surpresa e, um ano e meio depois, nasceu a segunda filha, Giovana. Ao se tornar pai, Rafael desenvolveu novas habilidades de liderança, empatia e senso de responsabilidade. O executivo aprendeu com os filhos que pesa mais ser o exemplo do que apenas dar orientações.

“Quando meus filhos começaram a crescer e interagir, uma das coisas que eu mais percebi foi o poder da influência. Às vezes eles nos observam e a gente nem percebe, mas eles reproduzem”, disse. “E quando você lidera é a mesma coisa. Sempre vão ter os olhares do time, então você precisa ser mais pensativo, mais empático, pensar mais no impacto das suas atitudes, porque os outros estão observando e aprendendo com elas.”

No ano passado, nasceu a pequena Ayla, fruto do segundo casamento. Com três filhos, a paternidade também mudou toda a prioridade de Rafael. “Eles acabaram norteando toda a minha vida, como ser humano, minhas decisões financeiras e até de carreira.”

Um dos maiores exemplos disso foi em 2022. Na posição de diretor global, liderava a Cummins nos Estados Unidos, quando pediu para ser repatriado ao Brasil para ficar perto dos filhos, que também voltavam a morar aqui com a mãe.

“Eu não queria ficar longe deles. Eu sou Rafael pai, primeiro de tudo. O meu emprego é um meio de dar condições de vida para eles, mas não é o fim. O meu objetivo final são meus filhos. Hoje continuo comandando toda a operação dos EUA daqui de casa, no Brasil, e viajo para lá quatro vezes por ano.”

2. Licença-paternidade mostra que confiar também é liderar

O head de eletrificação e diretor geral da Volvo, Guilherme Galhardo, foi pai de gêmeos no ano passado. Como política da empresa, tirou a licença-paternidade igualitária de seis meses e pôde acompanhar todo o desenvolvimento dos primeiros meses de vida de Anthony e Bernardo.

“Desenvolvi mais a minha empatia e confiança no time. Para ficar seis meses de licença, teve toda uma preparação da equipe, mas não foi fácil, no começo, não pensar no que estava acontecendo no trabalho, se precisavam de mim”, contou.

Em casa, ele pôde ser a rede de apoio que a esposa precisava para cuidar de dois bebês. “Hoje, de fato, foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. Fui uma rede de apoio importante para minha esposa. Durante o dia tinham os avós e as tias, mas, à noite, éramos só eu e ela. É uma força-tarefa para o casal.”

Além disso, ele destaca a emoção de acompanhar os primeiros dias e cada fase do desenvolvimento dos filhos. “Foi a melhor coisa acompanhar eles por esses seis meses, cada movimento, cada momento. Eles não vão lembrar, mas sentiram que eu estava ali.”

Guilherme voltou ao trabalho em dezembro e, no começo, não conseguia parar de pensar nas crianças. “Olhava pela câmera da babá eletrônica, pedia foto o tempo todo.”

A vontade de estar presente fez com que reorganizasse sua rotina. “Às 5h eles tomam mamadeira, eu venho para a Volvo e saio no máximo às 16h para chegar em casa até às 17h e ficar com eles até às 19h, quando vão dormir. Eu tiro no mínimo duas horas por dia com eles e dou banho todos os dias.”

Essa organização também faz parte do seu perfil profissional.

“Levei isso do profissional para casa. A rotina das crianças sempre foi muito regrada: hora de dormir, de almoçar e do banho. Criamos regras e horários para tudo, e isso facilitou muito a adaptação nesses primeiros meses da vida deles.”

3. Cada filho ensina que pessoas aprendem de formas diferentes

Quando o gerente sênior da Hyundai, Robson Souza, soube que seria pai, em 2015, foi uma surpresa.

“Não teve planejamento como no trabalho, mas, assim como no ambiente corporativo, você cria condições para que aquilo, no caso a criação do meu filho, aconteça da melhor forma.”

Desde a gestação da esposa, ele fez o que poucos homens fazem: buscou informações para entender o período gestacional e a primeira infância, aprendendo como poderia apoiar a esposa e enfrentar os desafios dos primeiros anos.

“Tratei mais ou menos como trato o trabalho. Se a gente precisa desenvolver alguma competência, a gente estuda, vai atrás de informações e aprende para fazer o melhor possível.”

Hoje é pai de três filhos: Felipe, 10, Larissa, 9, e Thiago, 7. E aprende diariamente com as diferenças de cada um.

“Minha experiência como pai me fez entender que as pessoas são diferentes. Mesmo recebendo a mesma educação, cada filho tem seu jeito e se desenvolve de maneira diferente.”

Segundo ele, essa percepção mudou sua forma de liderar. “Nos times acontece a mesma coisa. A gente pode dar a mesma diretriz para todos, mas cada pessoa vai entender de uma forma e executar de um jeito diferente. E tudo bem, desde que entregue o resultado.”

Para ele, liderar uma equipe e criar filhos têm muitas semelhanças. “No fim do dia, a liderança tem o papel de ter vários filhos para cuidar, pessoas diferentes que você quer que tenham o melhor desenvolvimento, se sintam acolhidas e respeitadas.”

4. Criar os filhos de perto aproximou a família e transformou sua liderança

No começo dos anos 2000, Luis Buozzi era um dos grandes executivos da Volkswagen, onde trabalhou por mais de 20 anos.

Ao longo desse período, teve dois filhos, com quem sempre foi muito próximo. Quando se separou da mãe das crianças, ambos optaram por morar com o pai. Rafael tinha 7 anos e, Thiago, 17.

Buozzi passou a conciliar a carreira na empresa com a criação dos dois filhos em uma época em que pouco se falava sobre paternidade ativa.

O que fez isso dar certo, conta ele, foi que a Volkswagen sempre teve uma cultura de confiança e flexibilidade, o que permitia que ele precisasse faltar ao trabalho para levar um dos filhos ao médico, por exemplo.

Mas, como ocupava uma posição executiva com uma rotina intensa e muitas viagens, decidiu incluir os filhos nesse universo sempre que possível.

“Eu comecei a levar eles aos eventos. Claro, pagava do meu bolso, mas eles começaram a conhecer o mundo corporativo, às vezes ajudavam em algumas coisas, conheciam toda a minha equipe. Iam ao Salão do Automóvel, ao Super Surf, esses eventos.”

Viver um pouco da rotina do pai aproximou ainda mais a família. “A minha carreira me ajudou a ser um pai que ensina pelo exemplo. Meus filhos me viram apaixonado pelo que eu fazia, viram minha persistência e minha alegria.”

As conversas sobre trabalho surgiam naturalmente durante o jantar ou enquanto jogavam videogame.

“De certa forma, fui uma influência para eles. Hoje, um é executivo de marketing, e o outro trabalha com gamificação.”

Essa proximidade também fortaleceu a relação durante a adolescência. “Sempre tive uma relação muito próxima com eles. Até me chamavam para sair com os amigos. Às vezes eu ia, às vezes não. Isso me aproximou e me fez entender muito a cabeça dos jovens. Estava sempre ouvindo o que conversavam e orientando.”

Dentro do ambiente corporativo, a experiência teve reflexos diretos.

“Aprendi a aconselhar sem impor e a tratar as pessoas como família. No fim, liderar um time e criar filhos pedem a mesma coisa: colocar o ser humano em primeiro lugar.”

5. Ser um pai presente forma lideranças mais humanas

Pai de duas meninas, o diretor de vendas da Freudenberg NOK, Ricardo Piffer, entendeu desde a primeira gestação que precisaria estar mais próximo da esposa e equilibrar melhor o tempo entre trabalho e família.

Em 2014, nasceu Sara. “A primeira coisa que mudou foi que precisei ser mais eficiente no trabalho para ter mais tempo com a minha família.”

Com a chegada da primeira filha, aprendeu outras competências, como empatia, escuta e mais sensibilidade na relação com as pessoas. “Minha relação com as pessoas e com o grupo ficou muito mais humanizada. Minha me ensinou isso, respeitando o tempo dela… Assim desenvolvi uma empatia maior.”

A segunda filha, Lara, nasceu em 2021, em meio à pandemia, período que acabou proporcionando uma convivência mais intensa.

“Foi uma loucura por causa da pandemia, mas, como estava em home office, consegui viver a gravidez muito mais próximo da minha esposa. Também vivi os primeiros dias da Lara de forma mais intensa e consegui participar de pequenos momentos que, na primeira vez, perdi porque estava trabalhando.”

Quando voltou à rotina presencial, reorganizou a agenda para preservar esse equilíbrio e levou os aprendizados para sua forma de liderar.

“Quando a liderança entende que um profissional presente na vida da sua família é capaz de entregar além do que é pedido, isso se torna um pilar importante. A liderança que apoia essa paternidade e dá abertura para o colaborador ser cuidador do filho, tirar licença-paternidade, faz com que ele valorize ainda mais o trabalho. E, quando você é o líder, isso mostra para a equipe o quanto a família também é importante.”