logo

coluna #abx26

Transformação tecnológica vai muito além da eletrificação

Mais do que uma transição energética, a indústria vive uma reorganização tecnológica e econômica

Author image

Fabio Ferraresi

01 jun 2026

9 minutos de leitura

Fábrica de automóveis. Simon Kadula/Unsplash

Nas últimas cinco décadas estivemos acostumados a observar a indústria automotiva e de máquinas atravessando transformações lineares. A injeção eletrônica substituiu o carburador. Sistemas mecânicos deram lugar a sistemas com eletrônica embarcada. Novos materiais apareceram e desbancaram materiais tradicionais. Novas tecnologias surgiam, amadureciam e gradualmente eliminavam as anteriores.

A transformação atual e da próxima década não seguirá essa lógica, onde uma única tecnologia domina e substitui as demais.

O cenário que se consolida é muito mais complexo, diversificado e estrutural do que simples mudanças de propulsão. Mais do que uma transição energética, veículos comerciais e equipamentos off-highway entram em uma nova etapa de reorganização tecnológica, econômica e operacional, impulsionada simultaneamente por segurança energética, reorganização geopolítica, digitalização, pressão regulatória, conectividade, automação e novos modelos de monetização da indústria.

A tecnologia deixou de ser apenas um tema de engenharia. Tornou-se uma ferramenta estratégica de competitividade industrial.

A transformação deixou de ser apenas tecnológica

Grande parte dessa transformação vem de forças externas ao ambiente das montadoras e fabricantes de equipamentos.

A busca global por eficiência energética, a disputa pelo controle de cadeias críticas de minerais, os movimentos de regionalização industrial e a crescente instabilidade geopolítica passaram a influenciar diretamente decisões tecnológicas, investimentos e estratégias industriais.

A disputa entre sistemas de propulsão e combustíveis alternativos, contexto em que se insere a eletrificação, não é impulsionada apenas por emissões. Ela também faz parte de uma discussão mais ampla sobre independência energética, fortalecimento industrial e posicionamento estratégico das grandes economias globais.

China, Estados Unidos e Europa aceleram políticas industriais voltadas ao controle tecnológico e produtivo de setores considerados estratégicos. Cada um puxa a brasa para a sua sardinha. Ao mesmo tempo, a volatilidade econômica global e a pressão por eficiência operacional forçam usuários finais, montadoras e fornecedores a revisarem seus modelos de negócio.

Software, conectividade, inteligência embarcada, automação, telemetria, arquitetura eletrônica e gestão de dados passaram a integrar a mesma agenda estratégica.

Esse novo contexto não altera apenas decisões regulatórias ou investimentos industriais. Ele redefine também a própria lógica econômica das montadoras e fabricantes de equipamentos.

A nova lógica econômica das OEMs

As montadoras perceberam que o crescimento futuro não virá apenas da venda de novas unidades. O foco migra gradualmente para controle do ciclo de vida, monetização da base instalada e expansão das receitas recorrentes.

Essa lógica é particularmente relevante nos segmentos de veículos comerciais, agrícolas e construção, onde disponibilidade operacional, produtividade e custo total de operação possuem impacto direto na rentabilidade do cliente.

O veículo ou equipamento deixa de ser apenas um ativo físico e passa gradualmente a funcionar como uma plataforma operacional conectada.

Atualizações remotas, diagnósticos preditivos, conectividade embarcada, monitoramento contínuo, gestão de frota e serviços digitais alteram profundamente a lógica tradicional de geração de valor da indústria.

A disputa deixa de ocorrer exclusivamente na venda inicial da máquina e passa cada vez mais pelo controle do relacionamento contínuo com o operador ao longo de todo o ciclo de vida do equipamento.

Dados operacionais tornam-se ativos estratégicos, o aftermarket evolui para serviços digitais e inteligência operacional e concessionárias passam gradualmente de distribuidoras de peças para integradoras de soluções conectadas.

As próprias montadoras ampliam sua presença em áreas historicamente ocupadas por terceiros, como monitoramento operacional, manutenção preditiva, gestão de eficiência e serviços digitais.

Ao mesmo tempo em que a indústria amplia conectividade, software e monetização digital, a realidade operacional dos segmentos comerciais e off-highway não indica uma convergência rápida para uma única arquitetura tecnológica.

A busca por eficiência em cada negócio

A diversidade de aplicações, ambientes operacionais, disponibilidade energética, infraestrutura e modelos de negócio cria trajetórias tecnológicas distintas entre regiões e segmentos.

No transporte comercial, no agronegócio, na mineração ou na construção, cada operação possui necessidades específicas de autonomia, disponibilidade, produtividade, logística e custo operacional.

Essa heterogeneidade não ocorre apenas entre diferentes países, mas também dentro de um mesmo mercado. No Brasil, por exemplo, características operacionais, infraestrutura disponível, perfil logístico, disponibilidade energética e nível de maturidade tecnológica variam significativamente entre regiões, aplicações e perfis de operação.

O ambiente operacional de uma operação agrícola de grãos altamente tecnificada no Centro-Oeste possui desafios completamente diferentes da agricultura familiar no interior de Minas Gerais, ou mesmo da produção de cana no estado de São Paulo.

Essa diversidade impede uma solução única para todas as aplicações.

Ao mesmo tempo, o ambiente tecnológico atual amplia significativamente a importância estratégica da eficiência operacional. Empresas passam a avaliar novas tecnologias não apenas sob a ótica regulatória ou ambiental, mas principalmente pelo impacto sobre produtividade, consumo energético, disponibilidade operacional, gestão logística, manutenção e retorno sobre investimento.

No escritório, na fazenda, nas minas ou nos canteiros de obras, tecnologia passa a ser analisada como parte direta da eficiência econômica do negócio.

Isso acelera a adoção de soluções capazes de gerar ganhos operacionais concretos, mas também aumenta a resistência a tecnologias que elevem complexidade, custo ou dependência de infraestrutura sem retorno econômico claro.

Nesse contexto, motores a combustão continuam relevantes em diversas aplicações, enquanto híbridos, elétricos, biometano, combustíveis renováveis e outras soluções coexistem conforme maturidade tecnológica, viabilidade econômica e aderência operacional.

No segmento de caminhões, por exemplo, a lógica operacional de um veículo urbano de distribuição é completamente diferente da realidade de operações rodoviárias de longa distância. Da mesma forma, máquinas agrícolas e equipamentos de construção possuem exigências específicas de autonomia, disponibilidade energética, robustez e produtividade.

A velocidade de adoção depende menos da tecnologia em si e mais do alinhamento entre custo competitivo, infraestrutura disponível, regulamentação, escala global e retorno econômico para o operador.

Nesse ambiente heterogêneo, regulamentações deixam de atuar apenas como mecanismos de controle de emissões e passam a funcionar como aceleradores indiretos de transformação tecnológica.

O efeito global das novas regulamentações

Muito além de uma regulamentação de emissões, legislações puxadas por países desenvolvidos, como o Euro 7, funcionam como catalisadores globais de transformações tecnológicas.

No Euro 7, a discussão deixa de se limitar ao escapamento e passa a envolver temas como emissões não provenientes da combustão, monitoramento contínuo, integração eletrônica, arquitetura de software, brake-by-wire e durabilidade ampliada de sistemas.

Mesmo mercados que não adotarem integralmente a regulamentação europeia absorverão parte importante do spillover tecnológico associado a ela.

Isso ocorre porque plataformas globais, fornecedores internacionais e economias de escala disseminam tecnologias inicialmente desenvolvidas para atender exigências específicas de determinados mercados.

Na prática, os impactos ultrapassam emissões e propulsão. Eles influenciam arquitetura eletrônica, sensores, software, conectividade, sistemas de freio e suspensão, pós-venda e integração digital de serviços.

O Brasil seguirá um caminho regulatório diferente da Europa em alguns aspectos, especialmente pela relevância dos biocombustíveis e pelas características específicas da matriz energética nacional. Ainda assim, os efeitos indiretos dessas transformações tecnológicas já impactam fornecedores, montadoras e estratégias de desenvolvimento locais.

O resultado é uma aceleração gradual da digitalização dos veículos e equipamentos, especialmente em aplicações onde eficiência operacional e disponibilidade possuem impacto direto sobre rentabilidade.

Caminhões e máquinas entram definitivamente na era digital

No segmento off-highway, a transformação se torna ainda mais profunda.

Máquinas agrícolas e equipamentos de construção passam rapidamente de plataformas predominantemente mecânicas para sistemas altamente conectados e orientados por software.

A evolução ocorre em etapas relativamente claras: mecanização, eletrificação parcial, conectividade, automação gradual e, posteriormente, integração operacional baseada em dados.

A telemetria evolui rapidamente de simples rastreamento para inteligência operacional. Conectividade via satélite, redes privadas 5G e edge computing começam a reduzir limitações históricas de cobertura em operações agrícolas e canteiros remotos, permitindo novas aplicações de automação, suporte remoto, manutenção preditiva e otimização operacional.

A máquina deixa gradualmente de atuar como um equipamento isolado e passa a integrar um ecossistema digital contínuo envolvendo operador, concessionária, OEM e plataformas de gestão.

Nos veículos comerciais, o movimento segue direção semelhante. A integração entre conectividade, gestão logística, manutenção preditiva, monitoramento operacional e automação parcial amplia o papel estratégico dos dados operacionais.

O caminhão deixa de ser apenas um ativo de transporte e passa a integrar sistemas mais amplos de eficiência operacional, inteligência logística e gestão de produtividade.

Essa integração crescente entre máquina, operação, software e serviços prepara o terreno para uma mudança ainda mais profunda na lógica competitiva da indústria.

A disputa muda de produto para ecossistema

A principal transformação da próxima década não está na definição de uma tecnologia vencedora universal.

A verdadeira mudança estrutural está na fragmentação e diversificação tecnológica da indústria.

Veículos comerciais, máquinas agrícolas, equipamentos de construção e aplicações industriais seguirão trajetórias distintas, influenciadas por infraestrutura, disponibilidade energética, perfil operacional, ambiente regulatório, maturidade econômica e retorno sobre investimento.

Nesse contexto, o mercado deixa de discutir uma tecnologia vencedora absoluta.

A pergunta central passa a ser outra. Não se trata mais de definir quais tecnologias irão existir, mas de entender quanto cada tecnologia crescerá, em quais aplicações, em quais regiões e em qual velocidade.

A próxima década será definida menos por substituições abruptas e mais pela coexistência dinâmica entre diferentes soluções tecnológicas.

Motores a combustão, híbridos, elétricos, combustíveis renováveis, conectividade avançada, automação gradual e inteligência operacional coexistirão em proporções diferentes conforme a lógica econômica e operacional de cada mercado, cada aplicação, cada região.

Mais do que prever vencedores absolutos, o desafio estratégico da indústria passa a ser compreender timing, escala, velocidade de adoção e impacto econômico de cada transformação.

Fabio Ferraresi

Fabio Ferraresi ([email protected]), atualmente Diretor Geral da Power Systems na América do Sul, é engenheiro Mecânico pela USP e MBA pela Ohio University e FGV, tem certificações Six Sigma Black Belt CMQ/OE e CQE pela American Society for Quality, e experiência profissional de 12 anos em Consultoria e Inteligência de Mercado. Antes da Power Systems Research, acumulou 13 anos de experiência em posições de liderança em indústrias multinacionais nos segmentos de autopeças para Automóveis, Caminhões, Ônibus e Equipamentos Off-Highway no Brasil e na China. Atua também como voluntário nas Comissões Técnicas da AEA de Hidrogênio Veicular, de Máquinas Fora de Estrada e do MAR-II, da AEA, além das Comissões de Tecnologia Diesel e de Powertrain da SAE Brasil.

*Este texto traz a opinião de quem o assina e não reflete, necessariamente, o posicionamento editorial de Automotive Business.